O Brasil não é a Argentina; aqui a ressaca vigora

Capturada no FB/Jornalistas Livres
por Sulamita Esteliam

Sempre achei uma bobagem essa história de “efeito Orloff” quando se trata de, por um motivo ou outro, que não futebol, se comparar o Brasil à Argentina.  “Eu sou você amanhã”?

Quem tem menos de 40 anos não pode saber do que se trata, embora a expressão seja recorrente em crônicas e artigos em mídias variadas através dos tempos e em tempos recentes.

Trata-se de slogan de um comercial de vodka do anos 80/90 do século passado, que ressaltava a qualidade da bebida por não deixar ressaca no dia seguinte. Um sósia inteiraço, convidava o bebedor em dúvida a apostar no drinque.

Lembro-me que, salvo engano em 1989, fiz uma reportagem a respeito para o hoje moribundo Hoje em Dia, matutino mineiro de cujo projeto esta escriba fez parte. A pauta era exatamente essa, fruto da minha impaciência com o que considerava uma falácia – estava pauteira e costumava me pautar.

Escrevi, não obstante:

“Na América Latina, as reações costumam dar-se em cadeia. Até porque, os problemas ou são da mesma natureza ou guardam similaridades que tornam inevitável um paralelo. Os ingredientes da explosão argentina são, aparentemente, os mesmos que grassam na crise brasileira: o desastre econômico, traduzido numa inflação incontrolável, no arrocho salarial, na perda vertiginosa do poder aquisitivo e da qualidade de vida da sociedade, fruto da incompetência e/ou da perplexidade na gestão da coisa pública.”

A reportagem foi publicada no dia 04 de junho de 1989, consulto e obtenho resposta em meus alfarrábios. Vivíamos os estertores do governo Sarney. A Argentina estava em pé de guerra, com o povo se enfrentando nas ruas e todos contra o Estado.

La hermana acabara de passar por eleições presidenciais, e o sucessor de Raul Afonsín seria Carlos Menem, herdeiro do justicialismo de Peron, que ascenderia como um “salvador da pátria”.

Nós aqui ainda aguardaríamos cinco meses para votar para presidente pela primeira vez, depois de um jejum de 26 longos anos e duas frustrações encarrilhadas – a derrubada das diretas e a morte de Tancredo Neves, que tramou pelo Colégio Eleitoral, foi eleito, mas passou desta para outra sem tomar posse.

Circunstâncias diferentes para problemas semelhantes.

À época, entrevistei uma cientista política de nome Vera Alice Cardoso, professora do Departamento de Ciências Políticas da UFMG e especialista em Argentina; e um sociólogo argentino, José Carlos Medina, residente no Brasil há mais de uma década na ocasião.

E a conclusão a que chegamos é de que há mais diferenças do que semelhanças entre nesse pupurri mesclado de samba do crioulo doido brasileiro e tango chorado argentino . E elas são de ordem cultural, econômica, social e política.

No Brasil, vigora uma sociedade de castas, com desigualdades viscerais. A sociedade argentina, por seu lado, é mais homogênea; embora padeça de empobrecimento em consequência de sucessivas crises. Além do que é mais organizada e participativa, politicamente.

Aqui, a estratificação se dá não apenas em classes sociais diversas, como também intraclasses. A organização política do brasileiro ainda hoje é corporativa em sua essência.

Dentre outras cositas más,  tudo começa, mesmo, na natureza do povo.

Nossa veia conciliadora nos leva a ter mais “jogo de cintura”, ou seria sangue de barata!? Como explicita Vera Alice, até a greve é um instrumento de negociação. Enquanto que para o argentino, como define, Medina, “tudo é questão nacional”.

A palavra “conciliação” não existe no dicionário argentino. Lá vigora o “corporativismo anárquico”,  como definiu Guillermo O’Donnell, sociólogo e cientista político argentino, que se foi em 2011. A eclosão é a forma argentina de encaminhar conflitos.

E é aí o centro que bifurca em direções opostas, conforme o fecho da referida reportagem 38 anos passados, na comparação do sociólogo:

“(…) esse traço cultural do brasileiro está para o argentino assim como Eros (Deus do Amor, que simboliza a vida) está para Tanatos (Deus da Morte) e assim como o drama está para a tragédia.”

A reação à reforma da previdência, com retirada do direito de milhões de trabalhadores, não nos deixa mentir.

O governo argentino passou a reforma, mas sob protestos veementes, que envolveu panelaço, greve geral, enfrentamento, centenas de feridos dos dois lados, forças repressivas e manifestantes, e dezenas de prisões de populares.

Imagina se fosse na Venezuela, o carnaval que a mídia nativa, golpista e anti-povo empedernida, faria?

Maurício Macri conseguiu vitória apertada, 128 x 116, ainda assim. Porque, suprema ironia, logrou obter 19 votos da oposição peronista, fiel aos governadores das províncias que acreditam lucrar com as mudanças.

Não se sabe se o presidente argentino valeu-se de argumentos consistentes, ou se, como aqui, sólidos no sentido material. Talvez lá a coisa funcione de outra maneira.

Certamente, do lado do povo, não: a reforma passou, mas as panelas se mantém ativas nas ruas (vídeo ao pé da postagem). Até porque, não se deixam emprenhar pelo canto do governo, que também mira os direitos trabalhistas.

Aqui, o mordomo perdeu a vez, o que não quer dizer que no pós-recesso, ano que vem, tudo possa vir a ser diferente.

Só que, como em 1989, na Argentina, os congressistas estão no início de mandato, a aprovação da proposta exige maioria simples e não dois terços nas duas casas congressuais como aqui.

Além do que, a camarilha golpista com assento no parlamento vai ter que pedir votos em 2018, e corre o risco de não voltar.

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Postagem revista e atualizada dia 20.12.2017, às 18:07hs, hora do Recife: correções de erros de digitação e pontuação em diferentes parágrafos; inclusão de complemento na última frase do quarto parágrafo.

 

 


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