2018, o usurpador, o tempo e o choque de realidade

por Sulamita Esteliam

Deveria retomar este blogue falando de perspectivas para esta Terra Brasilis, já que passei a última semana do ano em ampla celebração da vida, grata pela oportunidade de um novo ciclo. Espero que você também, porque vamos precisar de todo mundo.

Não possuo sagração de oráculo, mas minhas antenas não me deixaram sossegar o facho noite passada, e nunca é por acaso. Há algo mais no ar, além dos aviões de carreira – cada vez mais inacessíveis, diga-se.

E é o que me confirmam a leitura de informações reais e análises astrais para retomada das obrigações cotidianas na ponta dos dedos. Por isso vou divagar em torno de variantes e condicionantes, naquele estilo que você que me acompanha conhece de perto.

A lembrar que Saturno, velho senhor do tempo, de volta e muito bem instalado em Capricórnio, desde o 20 de dezembro do ano passado, rege até 2020. Isso quer dizer que nada será tão fácil e rápido quanto se possa querer, mas também nada é impossível.

O espírito que permeia 2018 é aquele apontado num poema de Drummond, que diz que para ter um ano novo, você tem que merecer. Isso vale para este ano mais do que sempre, individual e coletivamente.

É prudente não esquecer que 2018 é um ano 11, número mestre. Duplo 1 no recomeço a nos dizer que para fazer jus à dádiva da vida, à abundância desejada e à tão cantada felicidade, é preciso trabalho, equilíbrio, determinação, generosidade e limite.

No primeiro dia útil do ano governado por Xangô, orixá da justiça e por Nanã, senhora da paciência e da sabedoria, duas notícias resumem o espírito em jogo: você colhe o que planta.

A primeira é que o temeroso usurpador, velho na idade e nas artes do cassino político em que é crupiê, entrou na ampulheta. A saúde claudicante está cobrando o que ele não pode, por absoluta incapacidade, de dar ou valer-se: bom senso, cautela e exemplo.

Não resisto e compartilho o que um amigo jornalista, sarcástico, escreveu num grupo de zap-zap:

“O Ministério da Saúde adverte: estuprar a Democracia provoca infecção urinária”. E também entupimento da uretra.

Não devemos, por espírito cristão, lei de talião ou da causa e efeito, desejar o mal ou o passamento de sô ninguém.

Mas a gente pode e deve clamar por Misericórdia.

Misericórdia para a gente mais necessitada deste País, que vem sendo desmantelado por essa camarilha que viola direitos, soberania e dignidade.

Misericórdia para todos nós, mulheres e homens de boa fé, e até mesmo para os equivocados e teleguiados – por crença ou imbecilidade.

Misericórdia, sobretudo, da consciência de e para o povo trabalhador, bom e honesto desse nosso pobre menino rico Brasil.

É nesse diapasão que incluo a segunda notícia, e ela vem de Olinda e Recife, e em forma de alerta.

Parte de ninguém menos que o arcebispo Dom Fernando Saburido.

Chega a propósito da lei que torna Dom Hélder Câmara, patrono dos direitos humanos dos brasileiros, aprovada pelo Congresso e sancionada pelo usurpador golpista.

Está publicada no sítio da Arquidiocese de Olinda e Recife, e já repercutido no Brasil de Fato.

Bem na linha do você pode enganar alguns por algum tempo, mas não pode enganar todos o tempo inteiro. Ou, no popular, aqui se faz, aqui se paga. Ou ainda, um dia a casa cai.

Um artigo em forma de “Nota de Esclarecimento”. Fala por si, transcrevo:

Dom Fernando Saburido em defesa do legado de Dom Helder Câmara contra a hipocrisia dos “falsos profetas” – Foto: Arquidiocese de Olinda e Recife

Nota de esclarecimento

“Felizes sereis quando os homens vos odiarem, expulsarem, insultarem e amaldiçoarem o vosso nome por causa do Filho do Homem. (…) pois era assim que os seus antepassados tratavam os profetas. (…) Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois era assim que seus antepassados tratavam os falsos profetas” (Lc 6, 22- 23 e 26).

 

Queridos irmãos e irmãs de nossa arquidiocese,

Todos nós fomos surpreendidos pela Lei n. 13581, de 26 de dezembro de 2017, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República Michel Temer. Declara Dom Helder Câmara patrono brasileiro dos direitos humanos. 

Todos os brasileiros conscientes e que amam a justiça e o direito concordam que Dom Helder é nosso patrono em toda a luta pacífica pela justiça, pela paz e pelos direitos humanos, tanto individuais, como coletivos das minorias fragilizadas pela sociedade dominante. No entanto, nos surpreendemos pela ambiguidade desse decreto, sentimento já expresso por amigos de Dom Helder, inclusive, Marcelo Barros que escreveu uma profética carta dirigida ao Dom da Paz. O texto dessa lei é sucinto e não explicita motivações, nem consequências. No entanto, nenhum ato dessa natureza é neutro ou sem repercussões.

Em seu tempo, o profeta Jeremias adverte os governantes do seu povo: “Sem responsabilidade, querem curar as feridas do meu povo dizendo apenas Paz, Paz, quando paz verdadeira não existe. Deveriam envergonhar-se, pois o que fizeram foi horrível, mas não se acanham, mesmo eles não sabem o que é ter vergonha” (Jer 8, 11- 12).

É nossa responsabilidade de cidadãos e de cristãos dar peso às palavras e exigir dos poderes públicos coerência em seus posicionamentos. Se a Política que deveria ser um exercício nobre do serviço ao bem comum está tão desacreditada é porque os políticos não primam pela coerência entre o seu falar e o seu agir.

O que significa essa medida vir de um governo que justamente esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e comprometeu todo o trabalho que vinha sendo feito na luta contra todo tipo de discriminações? Será que nomear Dom Helder patrono brasileiro dos Direitos Humanos fará o governo voltar atrás da decisão de reduzir substancialmente os gastos públicos em saúde e educação, deixando os milhões de pobres abandonados à própria sorte? Como pensar em Direitos Humanos e relaxar as regras do controle ao trabalho escravo, assim como sujeitar os trabalhadores a regras que lhes são contrárias e que retiram direitos adquiridos na Constituição de 1988? E o que dizer da reforma da Previdência Social pela qual esse mesmo governo pressiona de formas ilícitas para vê-la aprovada? 

Como arcebispo de Olinda e Recife, ministério que foi ocupado por Dom Helder Câmara, sinto-me, em consciência, obrigado a declarar publicamente que esse decreto presidencial, para ser sincero e coerente, precisa ser acompanhado por outro modo de governar o país e de cuidar do que é público, principalmente do bem maior que é o povo, sobretudo os mais fragilizados.

Em nome de Deus, fonte de Amor e de Vida, conclamo os cristãos e todo o povo brasileiro a prosseguirmos a luta pacífica pela justiça e pela paz. Assim, como fez Dom Helder Câmara, trabalharemos pelos Direitos Humanos a partir da defesa dos direitos dos pobres, dos trabalhadores, das minorias excluídas e de todo ser vivo.

O Espírito de Jesus que nasceu como pobre nos acompanhe e nos fortaleça nesse caminho,

Dom Antônio Fernando Saburido

Arcebispo de Olinda e Recife

 

 

 

 


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