Sobre machismo, as francesas e o princípio da sororidade

por Sulamita Esteliam

Toda mulher, com um mínimo de noção do que é ser mulher, sabe diferenciar “uma paquera” da agressão do assédio. Não é minimizando o entendimento do que outras mulheres passaram, e acusam porque sofreram e carregam as marcas da violência, que se apaga o dano e o dolo.

Sororidade – assim como a máxima de que o pessoal é político – é princípio gerador, e mantenedor, do feminismo. Não significa concordar com a negação do machismo que embala o desrespeito e a misoginia, base do assédio e do estupro. Nem a título de sedução.

Embora possamos compreender que equívoco é próprio do ser humano, e a livre manifestação de opinião é um direito, não se pode esquecer que há ocasiões em que o melhor é não perder a oportunidade de emudecer.

Todas as mulheres deveriam refletir sobre tudo isso quando educam sua prole – tanto meninas, quanto meninos.

Minha amiga-irmã, jornalista Eneida da Costa, posta em seu blogue Grisalha, no Facebook, texto crítico sobre a postura de mulheres francesas famosas, como Catherine Deneuve, diante das denúncias de assédio sexual de outras famosas de Hollywood.

Transcrevo e assino embaixo.

Foto: Marcha das Vadias, Recife 2012

Mulheres Machistas

por Eneida da Costa

Leio, incrédula, que Catherine Deneuve e outras cem, ou mais, mulheres personalidades da vida cultural e artística da França assinam uma carta onde se posicionam contra o movimento #Metoo de suas colegas estadunidenses.

A França, logo a França, que uniu vozes de todos os sotaques pela igualdade, que significa território de lutas dos oprimidos.

Leio homens elogiando as francesas. Por óbvio. 

Qual machista não se vangloria de tal exército defendendo a sua superioridade nessa guerra que massacra descendências.

Há mulheres machista. Sem elas o machismo não progrediria. Sem elas o machismo não se instituiria.

O machismo é tão arraigado, tão eficiente na sua propositura como o ar nos pulmões. 

Como diria Anita, parabéns aos envolvidos, destaco, no ocidente, a igreja católica e seus dogmas perversos.

Reconheço, as signatárias são corajosas. Lindas, poderosas, influentes. 

As francesas me decepcionam. Prestam um desserviço ao combate.

O machismo enseja o assédio, o assédio enseja o estupro. O estupro viola o corpo, a alma e a mente da vítima. 

O estupro é a mais violenta arma da sociedade paternalista, sexista e machista contra as mulheres. 

Mas, inegável, o machismo só existe porque existem mulheres machistas. 


3 comentários sobre “Sobre machismo, as francesas e o princípio da sororidade

  1. Infelizmente, é isso mesmo. Há mulheres, e muitas, que são mais machistas que os homens. O que ocorre na França seria até admissível em tempos atrás, mas, hoje no século 21 do mundo ocidental é impensável. Belo texto, Sula, parabéns!!! Você diz o que nós mulheres conscientes gostaríamos de dizer.

  2. Me desculpem meter minha colher de pau, lol, onde não fui chamada, mas certas coisas devem ser esclarecidas.

    Primeiro – Em nada se compara o feminismo francês do estadunidense, porque a França é um país libertino, onde a mulher conquistou seu espaço, independência , maturidade e sua liberdade sexual dentro de uma sociedade em que o patriarcado foi combatido, em que o presidente não jura sobre a biblia e baniu totalmente o puritanismo. Aqui, a mulher adulta é considerada a igual do homem e capaz de se defender, da falta de respeito e dos insultos misoginas e sexistas que não são sujeitos à lei.
    Segundo – O que Cathérine Deneuve e as outras, (as velhas feministas) quizeram deixar bem claro, foi que uma mulher adulta não é uma pobre coisa indefesa, nem somente uma vítima. Ela possui um cérebro, uma inteligência. No caso do escândalo de Hollywood, existe uma hypocrisia muito grande por parte das mulheres porque elas aceitaram para obter facilidades na profissão ou por outras razões, o que elas denunciam hoje como crime e que os franceses chamam de “promoção canapé.” Outra coisa à levar em conta, é o braço de ferro que se estabeleceu aqui na França entre as feministas de maio 68, do MLF, de Simone de Beauvoir, Gisele Hallimi, e Simone Veil e as feministas de hoje que, beneficiando dos avanços de suas predecessoras querem nos impor um feminismo agressivo, hipócrita vitimário e comunitário, isto é: feminismo, muçulmano, (onde o homem tem o direito de bater na mulher, e total dominação sobre ela) feminismo, negro ( com reivindicações pós-colonislista) LGBT, etc, etc, no lugar do feminismo universal das francesas que sempre foi o da igualdade de direitos e deveres, o direito ao aborto e não uma guerra contra os homens. Entendo a indignação, mas não podemos julgar sem o conhecimento da história e das evoluções de cada sociedade.

    1. O ponto de vista é importante, cara. Todavia, desculpe-me, mas não me parece que a opinião contrária, manifesta na postagem, implique no “desconhecimento da história e das evoluções de cada sociedade”. A recíproca, no caso da manifestação das mulheres francesas, versos as estadunidenses, a despeito da oposição de conceitos morais de uma e de outra sociedade, é verdadeira. Quanto ao feminismo, da mesma forma, há exageros de parte a parte, assim como na liberalidade.

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