Dinda Ana, para sempre, com amor!

por Sulamita Esteliam

 

Dinda, querida Ana!

Você deve estar se perguntando, aonde foi que a Sula se enfiou que não falou nada sobre meu encantamento. “E eu que pensava que ele tinha consideração por mim!”

Pois lhe digo que não houve um minuto sequer, desde que soube que você virou estrela, há cerca de um mês, que não carrego você em meus pensamentos.

Coincidentemente, na noite do mesmo dia, ou na madrugada seguinte, em que Lula, o presidente dos deserdados deste País, o mais amado do Brasil, foi encarcerado em Curitiba, a capital do Paraná. Símbolo do Estado de Exceção em que vivemos neste pindorama.

Sim, claro, tomei uma em sua homenagem. Bebo todos os meus mortos, você sabe. Bebi minha mãe, e bebi você.

Mas o empuxo de escrever, às vezes, pode virar arma mortal, você há de concordar comigo. As palavras ferem, feito flechas carregadas de veneno.

Ouço você dizer: “As palavras machucam, sim, Sula, de doer… Quem diz o que quer, escuta o que não quer.”

Melhor digerir, antes de vomitar.

Você que, ao contrário desta “autêntica” – era como você me definia – sempre escolheu a porta do lado; embora não abrisse mão da crítica bem colocada, para pessoas, lugares  e horas certas. Naquele jeito bem seu de ser e dizer.

Saquei qual era a sua, logo, quando nos vimos pela primeira vez. Euzinha tinha 15 anos, e você, idade insondável; soube depois que tinha ou teria a idade da minha mãe.

Você sempre se considerou parte, e sempre agiu como tal. E Euzinha sempre tive em você uma aliada.

Apesar de, com o tempo, saber que, por razões diversas, mas certamente de origem, não, nunca tenhamos sido tão parte assim.

Jamais me esquecerei o dia em que nos conhecemos.

Era uma noite de sábado de verão. Eu vinha do meu primeiro jantar romântico, numa pizzaria mais ou menos vizinha à casa do meu par. E eis que ele resolve me apresentar à família.

Pode imaginar o meu nervosismo?

Você sacou de primeira, quando, ao atender o chamado da campainha e nos receber à porta da casa.

Disse-me que eu era “muito elegante”, e  que meus sapatos vermelhos, salto 7, combinavam comigo, com o meu vestido e com meus cabelos, a essa altura naturalmente castanhos claros.

O vestido era um trapézio de algodão linhado branco, estampado com arabescos indianos em vermelho. O modelito obra da minha mãe costureira.

E logo emendou: “Não esquenta não. Aqui é tudo meio avacalhado!”

Euzinha, uma suburbana proletária, me achando em bairro de classe média, ri, um sorrizinho nervoso, pensando no que você diria se conhecesse minha moradia.

Contudo, acabei cedo lhe dando razão.

Você me conduziu à sala de visitas da casa, onde todos viam TV.

E aí me me deparei com o espaço quase nu, a não ser pelo aparelho de televisão enorme, aos meus olhos, sobre pés de palito, num canto da sala – para mim, também enorme.

Tudo teria sido mais opressivo, contudo, não fosse as pessoas da casa espojadas pelo chão, em colchões e edredons – e o sorriso e abraço inesquecíveis do Bito, o caçula dos homens. Tínhamos quase a mesma idade, e ele ficou absolutamente encantado comigo, e eu com ele.

Esparramados no chão, inclusive a dona da casa, sua patroa, que viria a ser a minha primeira sogra; a despeito do seu ar imperial.

Você sabe, Dinda, e eu lhe falei mais de uma vez, que você e o Bito me salvaram. E me deram as armas para eu sobreviver na família, a qual contribui bastante para expandir.

Três das quatro crias que pari, e sete das criaturas e criaturinhas que os primeiros da prole lograram trazer ao mundo são parte indissociável do núcleo.

Quando tive meu primeiro filho, primeiro neto nas duas searas, fiz questão de escolhê-la madrinha, uma delas. Na verdade, a madrinha que o garoto sempre respeitou como tal.

E daí, seu codinome: Ana, virou “Dinda”, que é como ele a sagrou, e todos os demais passaram a denominá-la.

Você é eternamente Dinda.

Ainda que o reconhecimento material, e mesmo o emotivo – conveniente – não tenha se corporificado em vida, quiçá na morte.

Há coisas que não se explicam. E que cada um deve lidar com o real e a fantasia como consegue.

Não serei Euzinha a julgar. Mas procurei fotos de você nas celebrações importantes da “família”, e não encontrei.

Exceções que meus alfarrábios – o que restou deles – registram estão na minha casa, ou em passeios com a minha prole, ou num dia ou outro de reunião mais recente, em que coincidiu de Euzinha participar.

É, do jeito que a vida quer. É desse jeito... já cantou Benito de Paula, que pessoalmente não gosto, mas você sempre gostou.

Você se retirou do convívio rotineiro. Uma atitude de dignidade que aplaudi. Tudo tem limite.

Pagou o preço da escolha, sem titubear. Aceitou a contribuição do afilhado e outras que tais, mas quando alguns tentaram lhe mover do seu “cafofo” para um lugar mais confortável, você, altiva, disse não.

“É o que eu posso pagar, é aqui que vou ficar” – confirmou para mim, numa das últimas vezes que a visitei, há coisa de um ano.

Foi logo depois que você quase bate com as dez, e botou a “família”, a parte que se importa, em polvorosa. Você mesma temeu que era chegada a sua hora. E o disse, com todas as letras, do seu jeito:

“Pensei que ia dessa vez, viu Sula. Admito que tive medo, bateu a paúra…” – riu.

Rimos juntas. Você providenciando um suco, porque a essa altura não podia mais tomar a “branquinha”, que gostava tanto, e que sempre dividimos.

Rio até hoje, quando me lembro do seu comentário, à guisa de deboche e agradecimento:

“Não pensei que eu era tão querida. E nunca imaginei que Carol – minha terceira filha – fosse capaz do que ela fez lá na UPA. Ela chutou o pau da barraca, menina. Carol é barraqueira, Sula!”

E tome risada.

Todavia, Dinda, seu relógio estrara em contagem regressiva, como se pode concluir. E que bom que houve tempo de você segurar no colo a filha da minha filha, Agatha de Gabi, que sempre foi o seu xodó. Soube que você se emocionou às lágrimas.

Mais uma prova de que, você também há de convir, desde seu grito de alforria, não se afastou o bastante. Ficou por ali, acompanhando todos de pertinho.

Afinal, acostumou-se a ser “parte da família”, a qual se integrou aos 14 anos, pelas suas contas. Só queria alguma independência.

As aspas valem.

Estão no histórico da convivência e nas razões do seu afastamento, que não me cabe nomear, até porque, todos o sabem.

Estão no modo como você se foi, na tardia da descoberta do seu corpo físico, depois de quase três dias. Graças aos vizinhos.

Estão, inegavelmente, na delonga para se conseguir baixar seus despojos à última morada.

De fato, nada havia que comprovasse você ser parte da família – nem o coração alegado, do qual não se tem fotocópia nem ultrassom, muito menos papel passado.

E a lei, ora a lei! – para o lugar da pirâmide que você sempre ocupou, há de ser sempre a lei no que ela pode dificultar.

Na real, adiantaram pouco seus 72 anos de dedicação exclusiva. Nem na morte lhe coube lugar de destaque, sequer espaço na sepultura da família.

É desse jeito, Dinda.

Quem nasce pra curiango nunca chega a colibri.

Bem sei que perdoa, como sempre o fez em vida.

Não que importe o que agora importa.

Sei que você é luz, e está em paz, no aconchego de seus ancestrais, negros e/ou indígenas, do Pai e da Mãe Celestiais.

Devo lhe dizer que sou grata por tudo e para sempre.

E que sinto muito, muitíssimo mesmo, que você não tenha recebido em vida o que também não recebeu na morte.

Com amor.

Sula

 

 


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