A pré-estreia de ‘O Processo’, no Recife; ou ‘O Pesadelo do Brasil’, conforme Urariano Mota

Dilma se defende no Senado – Foto: Roberto Stuckert Filho
por Sulamita Esteliam

Não pude ver a pré-estreia do documentário O Processo, na noite desta terça-feira, no Cinema São Luiz, no Recife. Quando a noite baixou, Euzinha estava a um passo do esgotamento.

Ando deveras muito cansada, e estressada. Mas não vem ao caso esta conversa.

O Processo, da cineasta Maria Augusta Ramos estreia nesta quinta, 17 em todo o Brasil. Já chega até nós premiadíssimo em festivais, de Berlim a Lisboa, passando por Genebra.

É claro que é preciso assisti-lo, a despeito de mexer na ferida ainda em chagas do processo político levado a cabo há dois anos, e ainda em curso. E o farei no devido tempo, o meu tempo.

O amigo pernambucano Urariano Mota, escritor e jornalista, foi à pré-estreia e, com sua sensibilidade e habilidade profissional, o rebatizou-o de O Pesadelo.

E nos conta que o São Luiz estava lotado de jovens, maduros e “muito maduros” de todas as idades. O alarido se traduzia num só grito, #LulaLivre.

Mesmo apagadas as luzes, a seção só pode começar depois que alguém ameaçou: “Quem fizer barulho é golpista!”

A cara do Recife, isso.

Transcrevo o texto da lavra de Urariano sobre o filme. Li no Pragmatismo Político, mas foi publicado originalmente no Vermelho, sítio para qual escreve regularmente:

Na Esplanada dos Ministérios, um muro separa vermelhos e amarelos no dia da votação do impeachment fraudulento – Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/Fotos Públicas

Documentário O processo. O pesadelo do Brasil

por Urariano Mota*

O cinema São Luiz estava lotado, como em suas melhores noites, com todas idades e classes sociais. Estávamos jovens e muito jovens, maduros e muito maduros, a cantar e gritar várias bandeiras, das quais a mais unitária foi #LulaLivre.

A agitação no público era tamanha, que gritos se ouviam até mesmo quando as luzes no cinema se apagaram. Quanta rebeldia reprimida. As vozes somente pararam quando alguém gritou: “quem fizer barulho é golpista!”. Silêncio na plateia. Então o documentário começou.

Agora, enquanto escrevo, pesquiso e leio uma sinopse onde se fala: “O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo”. E mais descubro. Na estreia mundial de O Processo, no Festival de Berlim, o filme foi aplaudido sob gritos de “bravos”, o que nunca havia acontecido com um filme antes em terra alemãs. Em Portugal, quando recebeu o prêmio de melhor longa-metragem no festival de cinema IndieLisboa, o júri assim falou sobre as razões da escolha: “Pela sua montagem aberta, que é fluente e elegante. Trata-se de um drama político contado através da narrativa clássica sem cair no classicismo gramatical e formal.”

Mas nós, que assistimos à pré-estreia no Recife, bem podemos acrescentar outras razões de público e amantes do cinema. Tanto na abertura, quando um voo de helicóptero sobre Brasília nos mostra os lados de amarelos e vermelhos em confronto sobre a terra, até atingir as cenas finais, atravessa a gente um sentimento de indignação e afeto profundo pela memória da militância contra o impeachment. Então sabemos que O Processo é um dos melhores documentários do Brasil até hoje. E se me fazem um desconto do entusiasmo, pois o filme continua dentro da cabeça até agora, ouso escrever mais claro: O Processo é um dos melhores documentários do mundo. Entendam as razões.

Quando o debate se abriu para o público, pude falar no microfone em meu natural pouco eloquente. Na medida do que lembro de ontem à noite, consegui falar: “Ao ver os últimos 10 minutos, quando se completa o golpe, e a digna representação dos parlamentares do PCdoB e do PT que discursaram contra o impeachment, senti que O Processo devia se chamar O Pesadelo. E pude perceber que o documentário no Brasil, que já havia atingido um ponto culminante com Eduardo Coutinho, e passa pelos belos filmes de Vladimir Carvalho, ganhou um novo caminho com esse documentário. De todas as maneiras se faz arte. Neste, o que parecia ser uma grande reportagem se fez arte. Acredito que este é um filme que sobreviverá a estes malditos anos. Se me permite uma sugestão, só lhe peço que não siga o roteiro de alguns estetas da reportagem da imprensa, que lhe pedem o relato do método ou técnicas do filme. Para mim, seria como transformar o quadro Lição de Anatomia, para pegar a experiência holandesa da diretora, e limitá-lo à descrição do desenho, tons, sombra e tintas. Transformar a arte em um verdadeiro cadáver da composição. Creio que de modo mais simples você poderá dizer que fez esse filme com intensa paixão. E com imenso talento, como acabamos de ver”.

O que disse no microfone ontem, bem ou mal, bem e mal no calor da emoção, continuo aqui: os discursos da bancada de bravos que resiste, no dia da conclusão do impeachment, o discurso de Dilma ao se despedir, o rosto de Lula no plenário, nessas imagens pudemos ver o Brasil de hoje, com o pior parlamento da nossa história, com o presidente mais entreguista que tivemos, e a desgraça anunciada nos discursos que se cumpre com a perda de direitos inalienáveis do povo, como saúde e trabalho.

Já antes, a militante e professora Isa Ferreira me perguntou o que fazer diante dessas agressões contra os brasileiros, e se eu achava que sairíamos desta e como sair. Quem sou eu para achar, se me encontro tão perdido? Mas na hora lhe respondi que não sei como, mas que se houver uma saída popular, talvez não alcance os nosso dias. Enquanto isso, não poderemos submergir à depressão e desespero desta má hora. Cada um que lute à sua maneira, da melhor forma possível.

Ao voltar para casa, o motorista do Uber, que é músico e trabalho pela madrugada a dirigir um carro, me falou que vivemos hoje uma distopia. É isso, sim, é isso, eu me falei para mim, surpreso da qualificação que o jovem trabalhador dá para o que vivemos. Então me veio à lembrança de novo de O Processo como O pesadelo. O nome de uma obra sempre vem depois. Nunca antes, como o batismo que damos a um filho.

Em uma ocasião, a diretora falou em entrevista: “Nós não sabemos para onde isso vai, e isso é angustiante e doloroso… Essa é a minha contribuição para esse momento que estamos vivendo”. Sem dúvida. O documentário de Maria Augusta Ramos realiza o seu presente deste infeliz momento. E mal pude dormir até a hora de escrever estas linhas.

 

*Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude” .

 


2 comentários sobre “A pré-estreia de ‘O Processo’, no Recife; ou ‘O Pesadelo do Brasil’, conforme Urariano Mota

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