Manuela e o machismo vergonhoso dos inquisidores do Roda-Viva

Arte do Ferrugem Cartuneiro, capturada na RBA
por Sulamita Esteliam

Não assisto TV. Na minha casa não se assiste TV, comumente. Por isso, não vi o Roda Viva com a Manuela D’Ávila, pré-candidata do PCdoB à Presidência da República. Mas assisti a alguns trechos postados nas redes sociais, e o pouco que vi me deixou indignada, como mulher e como jornalista.

Um festival de machismo e misoginia, de grosseria e disputa pelos holofotes. De fazer inveja aos tribunais da Inquisição. Jornalismo de esgoto.

Aliás, se há uma coisa que sempre me irritou é o tal “rei ou rainha da coletiva”. E ali naquela bancada, a disputa foi feia. Se todos são jornalistas, não sei dizer. Mas bater boca com o entrevistado, para dizer o mínimo, é tudo, menos atitude de profissional que se preze.

Sou do tempo em que a TV Cultura era o xodó de quem defendia a comunicação pública como uma possibilidade real de se produzir informação de qualidade sem o vezo comercial. Perdeu-se na egolatria e na falta de senso profissional, como de resto se perde a mídia venal, faz tempo.

O nível foi rasteiro, de agressividade tamanha, que um grupo de mulheres criou um abaixo-assinado exigindo da TV Cultura, uma emissora pública, bancada pelo governo do estado de São Paulo, se retrate pelo desrespeito à Manuela D’Ávila.

“Repudiamos a postura desrespeitosa e machista com que a pré-candidata Manuela D’Ávila foi tratada no programa Roda Viva na TV Cultura. Exigimos que a emissora cumpra seu papel de veículo público de comunicação dando espaço para que a a pré-candidata exponha de fato suas propostas, marcando uma nova data para um debate real e qualificado, já que ficou impossível no programa exibido na segunda-feira 25, dado o número de interrupções feitas pelos entrevistadores convidados pelo canal e pelo mediador. A emissora deve também se retratar, pois a reprodução do machismo e do desrespeito a mulher foi propagada em rede nacional pública em uma sociedade com altíssimos índices de violência contra a mulher.”

É claro que Euzinha assinei. Clique para assinar também.

Quem assistiu, contou, precisamente, 62 interrupções em 75 minutos de programa, segundo a Rede Brasil Atual. Reproduzo a argumentação:

“Para efeito de comparação, outro pré-candidato que esteve no programa, Ciro Gomes (PDT), foi interrompido oito vezes no mesmo período. Manuela considerou o ambiente do Roda Viva como “violentamente hostil”, e afirmou que “não é fácil ser mulher no Brasil”. 

Manuela compartilhou um texto assinado pela internauta Iara Cordeiro que explica a prática sofrida pela pré-candidata: o chamado manterrupting, neologismo em inglês que, em tradução livre, significa “interrupção por homem”.

“Na teoria, se você se propõe a sabatinar uma candidata à Presidência da República, no mínimo vai querer ouvir o que ela tem a dizer. Mas a ideia não era escutar, tanto que ela teve que em um momento dizer que eles gostavam de falar mais que ela”, disse Iara.

“Em um dos momentos, Frederico d’Ávila (diretor da Sociedade Rural Brasileira e coordenador programa de agronegócio do PSL, partido de Bolsonaro) diz: ‘A senhora defende as mulheres, mas a senhora é à favor da castração química para estupradores?’ Manu lacradora responde: ‘Eu defendo que tenha menos estupro no Brasil e sabe como a gente faz isso? A gente faz isso não votando em candidato que defende que mulher pode ser estuprada'”.

Alguns colegas jornalistas da velha guarda, como esta reles escriba, também se manifestaram em seus blogues. A exemplo de Ricardo Kotscho, em seu Balaio. Transcrevo um trecho:

“(…)

Na noite de segunda-feira, o novo Roda Viva, que tinha começado tão bem, desceu ao grau mais baixo do jornalismo de sarjeta, ao literalmente massacrar uma entrevistada.

(…)

Perguntaram-lhe mais sobre a crise da Venezuela do que sobre o Brasil, como se aqui também não tivéssemos gravíssimos problemas econômicos e de legitimidade das instituições para serem discutidos numa campanha eleitoral.

Como havia na bancada também jornalistas, fiquei envergonhado com o que estão fazendo da nossa profissão, sem o menor respeito ao público que assistia ao programa e queria ser melhor informado sobre a candidata, que está há vinte anos na vida pública e não é uma paraquedista como tantos outros.

Em nenhum outro programa da série se viu isso, nem com Guilherme Boulos, outro candidato considerado maldito pela grande mídia. Pelo menos, o deixaram falar.

Manuela teve que ser muito forte para suportar tudo aquilo e se impor falando mais alto, mas sem perder o controle em nenhum momento.

Fosse um homem o entrevistado, duvido que agiriam da mesma forma.

A ela rendo minhas homenagens por ter resistido bravamente ao massacre desenhado já na formação da bancada, que fugiu ao padrão de equilíbrio ideológico dos programas anteriores.

(…)”

No Tijolaço, Fernando Brito vai no mesmo diapasão:

“(…)

Convidar um coordenador de campanha de Jair Bolsonaro para ser “entrevistador” é uma baixaria que desonra todo aquele que, ciente disso, aceito participar do espetáculo.

O resultado foi um programa misógino, agressivo e grosseiro.

Ricerdo Kotscho diz muito bem em seu Balaio que  o programa “desceu ao grau mais baixo do jornalismo de sarjeta”.

Não consegui passar do tal “Bolsominion” já bem adulto repetindo à exaustão uma suposta questão sobre “castração química”.

Decerto na mesma linha do seu candidato, que fez convites a grupos de extermínio para que viessem da Bahia para o Rio de Janeiro fazer suas matanças.

Não é democrático dar a facínoras mentais espaços para pregar mutilações.

Infelizmente é o que fez uma TV que não tem mais o direito de usar “Cultura” em seu nome.”

Concordo, plenamente.

E viva Manu, que faz jus ao lema da camiseta que enverga como farda: luta “como uma mulher”.

 


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