O medo é filho do rancor com a insensatez, e formam um trio de péssimos conselheiros

Hallowenpor Sulamita Esteliam

Dia e noite passados, tive um diálogo áspero, do ponto de vista político, com um amigo muito querido. Aconteceu via grupo no zap-zap. Depois de tudo, foi difícil ter uma noite de sono tranquilo.

Não tenho medo de bruxas, mas que elas existem não tenho dúvidas – para o bem e para o mal. E, agora, mais do que tem sido nos últimos dois anos, sobretudo, todo dia é dia, nos lembra, bem desenhadinho, o querido e genial Aroeira.

Todavia, tenho para mim, desde sempre, que o medo é filho do rancor com a insensatez, e formam um trio de péssimos conselheiros.

O meu amigo é de esquerda, não é e nunca foi petista. Sempre foi muito articulado na fala – quadro treinado na juventude, na resistência – e não costuma ceder aos argumentos alheios.

É um homem culto, viajado, e parte do princípio que é habitado pela razão. Vai com força na jugular do interlocutor. É o que define como “veemência”.

Sempre foi assim. O que absolutamente não quer dizer que esteja sempre certo. E, desta vez, com todo o respeito que tenho por ele, está errado.

Ontem, veio-me à memória um episódio no comício do Lula, em Beagá, na campanha de 1989, na Praça da Estação. Esse meu amigo, liderança sindical – como Euzinha também o era – subiu no palanque e fez um discurso inflamadíssimo.

Sem meias palavras, denunciou as arbitrariedades do dono do jornal no qual trabalhávamos, todas verdadeiras – e que também vinha a ser o governador do Estado.

Meu filho mais velho, então com 14 anos, encarapitado em uma das colunas da varanda do prédio da Estação Central, falou:

– Mãe, é aquele seu amigo do jornal que está discursando…

– Sim, eu sei,.. reconheço a voz, e o estilo.

– Ele quer ser demitido?

E foi, por justa causa.

Fui uma das testemunhas arroladas pela defesa dele, mas o juiz do trabalho dispensou meu depoimento.

De volta ao presente, não vou aqui discorrer sobre nosso debate, que foi longo e levou a lugar nenhum. Tanto, que cai fora, exatamente com este argumento.

Um outro amigo me sucedeu na conversa, na mesma linha de raciocínio, mas o interlocutor não arreda pé.

O ponto da discórdia é, exatamente, as acusações que ele desfere contra o PT, Lula, e o que seria, a seu ver, “egoísmo e irresponsabilidade ” para com o coletivo Brasil. Mais do que a velha cantilena da não-autocrítica do partido sobre seus erros, o que também não é verdade.

Querem um haraquiri em praça pública, já que todas as tentativas de imolá-lo, por todas as vias, a começar pela desconstrução na mídia venal, resultaram vãs. É ranço histórico, digo.

Ou como explicita meu outro amigo, o PT cometeu muitos erros, mas “o erro principal é o fato de ter-se constituído no maior e único partido de massas do país, numa circunstância histórica que dificilmente se repetirá”.

Daí a cobrança recair tão somente sobre o partido, nem sempre orgânico, mas com fôlego de gato.

O dedo em riste é o discurso do Ciro Gomes, o candidato, agora do PDT, eterno terceiro lugar em todas as disputas para Presidência da República nos últimos 16 anos. Disse isso ao meu amigo debatedor.

Ainda não havia lido a entrevista do candidato do PDT do Carlos Lupi à Folha de São Paulo.  Na verdade publicada na edição desta quarta, mas já corria a notícia da regurgitação.

Um poço até aqui de mágoa, e destempero. Um histrionismo que não cabe no momento de tamanha gravidade.

Na contramão do equilíbrio necessário para reunir as forças progressistas para resistir ao desmantelamento do que nos resta de democracia, de direitos de cidadania e de patrimônio deste nosso Brasil.

Como, aliás, chama a atenção Manuela D’Ávila, no Twitter, a propósito da entrevista de Ciro. A candidata a vice na chapa assumida, com vigor sereno, por Fernando Haddad, um gigante em sua sensatez, o que o qualifica como nova liderança política nacional, no campo da oposição ao governo do inominável.

“No decorrer da campanha todos cometem erros. É claro que precisamos fazer balanços e discutir,”

“Mas buscar responsabilizar agora qualquer ator ou força política, isoladamente, por nossa derrota é não compreender quem são nossos adversários e os gigantescos interesses contra os quais disputamos a eleição.”

A questão é que, ao meu modo ver, os erros do PT não incluem a decisão de levar adiante a candidatura do ex-presidente Lula até o limite.

Deixar à Justiça o ônus de barrá-lo pela Lei da Ficha Limpa – aprovada nos governos do PT, em maio de 2010, é bom não esquecer. Apesar de sua condenação não ter esgotados todos os recursos cabíveis.

Exatamente por isso. Se o PT abandona Lula aos seus algozes, estaria concordando com a justeza do processo que o levou à prisão. O que não ocorre.

O partido tinha esse direito, pois, apesar de condenado e encarcerado, o líder de todas as pesquisas de opinião seguiu sendo o candidato dos seus quadros, porque era o preferido do eleitorado. E tinha o direito à campanha, reconhecido, inclusive, por conselho da ONU.

E Lula teria ganhado a eleição no primeiro turno, caso tivesse podido concorrer. E Fernando Haddad, com as forças de esquerda e democratas que cumpriram seu papel quase chega lá. E Ciro ficou em terceiro lugar no primeiro turno. Então, é viagem sem futuro esse retorno ao passado.

Portanto, é uma falácia argumentar que até uma criança sabia que o TSE não acataria o registro da candidatura.  Sim, mas cabia testá-lo. Mais do que isso, era imperativo, para não restar dúvida do jogo em curso.

Ciro fala de traição e mentiras de “Lula e seus asseclas” na entrevista, e até o acusa de prevaricar. Ora, ele próprio, lembra o colega Esmael Morais, quando Lula ainda estava ameaçado de prisão, sugeriu sequestrar o presidente e escondê-lo numa embaixada. Está gravado em vídeo:

 

Como se vê, realmente, o coronel sobralense precisa se decidir até onde onde vai sua conveniência com o brandir dos fatos, versões e rancor.

Não à toa, a possibilidade Fernando Haddad estava colocada desde o princípio, a partir do momento em que Ciro, convidado, se recusou ao papel. Tanto que Manuela D’Ávila foi chamada para compor o que se nomeou à época como “verdadeiro triplex”  e que o A Tal Mineira chamou de “triplex dos sonhos”  – em alusão ao imóvel que não é do Lula, mas em função da qual ele foi condenado assim mesmo.

Ela abre mão da própria candidatura em nome da unidade. Poderia ter sido o Ciro, e ele foi, sim, convidado a compor o triplex, na posição de Haddad. Mas se dispensou o cavalo arriado, e na entrevista à Folha diz que  não se submeteria “à palhaçada de enganar o povo”.

Agora, meu amigo, como diz uma amiga cearense, só o “expresso 2222”.

Mas Ciro é o que é, Ciro Gomes. Um umbigo do tamanho do mundo.

Não é implicância, quem o conhece de perto sabe do que falo. Não estou sozinha nesta avaliação.

Ciro vai ter que decidir entre a lata de lixo da história ou a reciclagem

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Ciro Gomes: (Foto Mauro Pimentel/AFP)
por Luis Felipe Miguel* – no DCM 

Em entrevista na Folha de hoje, Ciro Gomes se mostra em toda sua grandeza. Não basta uma lupa para vê-lo, é preciso um microscópio eletrônico. O governo eleito e a ameaça que ele encarna não o ocupam; sua energia está toda voltada contra o PT. Não está minimamente preocupado com a resistência democrática; seu projeto para o Brasil começa e termina na sua candidatura. O destempero verbal é tamanho que um homem da dignidade de Leonardo Boff é chamado de “um bosta”, porque ousou criticá-lo.

Não consigo entender qual sinal dos céus deu ao Ciro a certeza de que ele tinha o direito divino de ser o candidato da esquerda das eleições deste ano. Ele foi candidato, legitimamente, mas a vaga no segundo turno foi dada – pelas urnas! – a Fernando Haddad. Felizmente, eu diria. Haddad cresceu enormemente na campanha. E Ciro, como mostrou seu comportamento após a derrota no primeiro turno, realmente não tinha estofo para assumir esse papel.

É possível fazer a crítica – legítima e mesmo necessária – ao PT sem abrir mão da unidade necessária na resistência. É claro também que ninguém espera que essa unidade seja perfeita e sem atritos, mas há um abismo entre trabalhar para que as diferenças sejam respeitadas sem sabotar o trabalho comum ou usá-las para tentar marginalizar parceiros e obter uma liderança de proveta.

Como falei antes, a linha divisória principal é entre aqueles que criticam o PT a partir de um ponto de vista programático, como é o caso do PSOL, e aqueles que estão preocupados apenas com suas ambições pessoais. O PSOL vai ter que lutar para manter sua independência num momento de luta conjunta em que o PT é, de longe, a força mais forte. Tenho certeza de que conseguirá, pela qualidade política de seus quadros. Já Ciro vai ter que decidir se passa à lata de lixo da história ou se tem chance de reciclagem.

*professor de ciência política  UnB


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