E o cordão encantado recebe mais uma Conceição…

por Sulamita Esteliam

– Mastiga, Neném!

– Já goliu, mamãe, já goliu ó…!

Sempre gostei de histórias familiares, e adorava quando minha mãe repetia, morrendo de rir, esse diálogo sobre sua sobrinha-afilhada dando nó na mãe severa, a segunda mais velha dentre suas irmãs.

O mais engraçado é que a história, aparentemente, descombinava totalmente com o perfil da personagem que eu conhecia. Neném tornou-se uma adulta compenetrada, de poucas palavras, olhar e hábitos severos. e sorriso doído, quase um esgar.

Nada a ver com a criança engraçada que fora, e de quem minha mãe cultivava a lembrança. Embora, quando jovem, o sorriso parecesse espontâneo, ou o esforço de sorrir deixassem covinhas suaves na face, o que a fazia encantadora.

Chamava-se Conceição, em homenagem à padroeira do dia de seu nascimento, 08 de dezembro. Não deixava de ser, também, uma homenagem à avó materna e à própria madrinha, que era Dirce da Conceição.

Em matéria de nomear crianças, a família não era assim tão criativa. Neném viria a ser a terceira de quatro Conceições em duas gerações na linha de nossos avós por parte de mãe.

E outras várias foram batizadas, em segundo, terceiro e quarto graus, sem contar aquelas que se somaram à família.

Todas, estrelas de primeira grandeza. Todas, à exceção de minha avó, que se foi aos 86 anos, se encantaram cedo: minha mãe aos 67 anos, a outra sobrinha Conceição também nessa faixa.

E agora, há oito dias, a Neném foi fazer companhias a elas, aos 77 anos. E à outra xará, que celebrava aniversário do mesmo dia, e que também foi cedo, e apenas onze dias antes: sua cunhada Rosa Maria, e também Conceição, a quem me referi em texto anterior aqui no A Tal Mineira

Como se vê, a família, mesmo a estendida, tem mania da liberdade de migrar, mas procura estar atenta ao outro mesmo à distância, e voa para o éter, assim, emboladinha, feito cordão encantado. O histórico é largo… e o comitê de recepção foi amplo.

Neném tinha medo de morrer, pedia sempre que Euzinha rezasse para ela obter a cura . Não sei porque as pessoas confiam no poder de oração desta velha escriba, ainda que não partilhe de qualquer religião em particular.

Mas a passagem foi para ela uma benção. Não porque tivesse lupus em atividade há quatro anos – Euzinha tive a forma mais branda da doença durante 17 anos, e me curei, embora teoricamente seja um mal incurável; há 19 anos não tomo medicamento, tomo sol diariamente e jamais voltei a ter crises.

Neném aguardava iniciar o tratamento de leucemia, recém-diagnosticada. Teve uma alta violenta de potássio e foi internada pelo sobrinho que é fisioterapeuta, e por acaso a visitava, e avaliou os resultados de seus últimos exames.

Não foi a leucemia ou o lupus que a matou, embora o segundo mal, quando do tipo sistêmico, potencialize a possibilidade de se desenvolver o primeiro. Em cerca de uma semana sofreu dois AVCs, foi para a UTI e da segunda vez não resistiu.

A morte tem lá seus caprichos. E a única certeza é que dela não escapamos.

Confesso que tremi, quando soube do diagnóstico de leucemia. É nessas horas, quando o risco da perda parece inevitável, que a gente sente o quanto é importante ter saúde e dar atenção às pessoas.

O mais louco de tudo isso, é que minha prima-irmã sempre teve hábitos absolutamente salutares: não bebia nada alcoólico, jamais fumou, dava preferência a frutas, legumes e verduras. Alimentava-se lentamente, mastigando bem. Nunca foi dada a noitadas. 

Teve vida dura e sóbria, trabalhou desde menina. Casou-se madura e por isso não pariu.

Foi tecelã na juventude. Só terminou os estudos depois de adulta, como muitos da família na sua geração e na anterior. Era técnica em nutrição, concursada do Estado de Minas Gerais, trabalhou no hospital do Ipsemg, onde veio a óbito. Cursou letras pela UFMG.

Gostava de ler, um dos poucos prazeres a que se dava ao luxo na vida de privações da qual não escapou. Por sorte e esforço familiar, morava em casa própria.

A última vez em que nos falamos foi em abril, quando, de Belo Horizonte, liguei para convidá-la para o lançamento do meu livro Em Nome da Filha. Ela não usava internet, nem mesmo para o zap-zap.

Ficou contente com “a lembrança”, mas disse que, infelizmente, não poderia ir, pois tinha exames para fazer em Beagá naquela semana e não conseguiria retornar.

Quando lancei o primeiro livro, há 21 anos, ela também não pode comparecer, não me lembro bem a razão. Mas me ligou para comentar depois que leu a história: 

– Você escreve de maneira fluida, mas com vigor e, sobretudo, muita coragem. Eu não conseguiria…

Morava em Sete Lagoas, e sempre me cobrava uma visita. Desde que foi residir lá, há coisa de 12 anos, se não erro as contas, visitei-a apenas duas vezes em sua casa.

Mas, sempre liguei por ocasião do seu aniversário, e vez por outra nos encontrávamos na casa da minha tia Tina, mãe dela, a quem ia abraçar todas as vezes que estava em Belo Horizonte, enquanto viveu.

Tenho poucas fotos da Neném, algumas, como as que abrem esta postagem, são exatamente destas ocasiões.

Sempre fui tratada como uma caçula adotiva na casa da minha tia, que criou seis filhos dos sete que trouxe ao mundo. Desde menina fui frequentadora assídua, pois lá recebia a atenção que acreditava não ter na minha casa, onde era submetida às exigências de primogênita. 

Foi com minhas primas, mais do que com minha mãe, que aprendi cuidados essenciais comigo mesma – para além da higiene corriqueira e das restrições morais. Neném foi quem me deu o primeiro manual sobre menstruação. Eu tinha 9 anos, e o guardei durante muitos anos.

Quando me casei pela primeira vez foi uma das minhas madrinhas. Resgatei duas fotos da efeméride, em que, veja, ela usou terninho – e a irmã também – empoderada como convinha a uma mulher nos anos 70 do século passado.

Quando se casou, já no final dos 80, minha filha Carol foi sua daminha, o que me deixou muito feliz. Desta cerimônia não tenho fotos.

Em abril, me programei para ir vê-la com nossa tia – a caçula e única viva – que também mora em Sete Lagoas, e a quem visito sempre que vou a Minas. Saímos de casa com a intenção de almoçarmos e depois irmos ter com ela, mas desviamos o caminho para visitar outro primo, o mais velho dos 49 que já fomos, e que não via há mais tempo, e que requer cuidados especiais. 

O tempo encurtou e tivemos que abortar a visita à Neném. Fiquei bem chateada, não vou mentir. Algo me dizia que não teria outra chance.

A última vez que nos vimos foi em fins de agosto passado, no almoço de despedida que a irmã caçula dela fez para a Gê, a primogênita dentre minhas primas-irmãs. Conversamos pouco, enquanto comíamos, nos abraçamos quando cheguei e quando nos despedimos. É o consolo.

Trago viva a expressão de seu olhar quando se fixou no quadradinho de pano bordado que Euzinha carregava do lado esquerdo do peito, bordado pelo Linhas de Sampa: Lula Livre!

Não comentou. Às vezes as palavras sobram.

Meu amor eterno, Neném. Descanse em paz e na luz.

Sei que teve boa acolhida. Abrace nossa gente querida por mim.

Inté.

 

 

 

 


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