Novas revelações do Intercept e da Folha sobre as entranhas do golpe no Brasil

por Sulamita Esteliam

As notícias do dia ensaiam novos escândalos a escancarar a desfaçatez com que este país se enreda desde tempos imemoriais. No que vão resultar, ninguém é capaz de dizer.

Até porque envolvem os três poderes e o Sistema de Justiça, com Supremo com tudo, e os parceiros de alcova, a mídia nativa, sobretudo a global.

Ilegalidades conhecidas e denunciadas. Não obstante, dissimuladas e olvidadas pelos envolvidos, pelas autoridades responsáveis por evitá-las ou coibi-las e pelo PIG sobranceiro, exceções à parte. Todos juntos.

Passam ao largo dos fatos, agora inegáveis: as eleições de 2018 foram uma fraude cuidadosamente montada à base de arbítrios e ilicitudes.

Nessa conjuntura, o mundo político e o planeta real, mais entrelaçados do que possa supor nossa vã filosofia, não conseguiam conter a ansiedade para novas revelações do The Intercept Brasil: a #VazaJato, que Euzinha chamo de #MoroGloboGate.

Expectativa compreensível, pois, no fundo, a gente sabe quem, quando e por que se escancarou as portas do inferno sob nossos traseiros.

Só que há quem prefira exercitar a negação. Fingir de sonso, ou de égua como se diz em Minas, é mais conveniente do que admitir que errou o cálculo ou foi usado como massa de manobra.

Pois bem, enquanto escrevia, Glenn Greenwald e equipe publicaram no The Intercept Brasil mais uma reportagem, a sétima parte da série.  Revelada a conta-gotas para potencializar a repercussão e o estrago.

As parte 5 e parte 6 foram detalhamentos das primeiras revelações. Explicitam o concluio que envolve os vazamentos, coletivas de imprensa e fabricação de notas para vender a narrativa de vestais.

A última traz novas transcrições da troca de mensagens entre a Força Tarefa da Lava Jato e o então juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça em declínio no desgoverno delirante.  E olha quem chega para o jantar!?

Moro não gostou quando a Força Tarefa simulou investigar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para passar isenção: “melindra alguém cujo apoio é importante”, alertou a Dallangnol pelo Telegram.

Ora, ora, ora, que surpresa! Quem não conhece o Farol da Alexandria, o protegido, que o compre. Sim, ele mesmo, que depôs em favor de Lula no caso da investigação sobre os institutos de um e de outro – clique para ler a nota do Instituto Lula -, mas que agora afirma que não justifica a anulação do julgamento que o condenou sem crime e sem provas no processo do triplex da OAS.

Nada que, repito o que escrevi quando das primeiras divulgações da #VazaJato, quem acompanha as informações devidas já não soubesse; a diferença é que agora há provas sobre provas do arrumadinho, como se diz em bom pernambuquês.

Em qualquer outro país do mundo o ora ministro da Justiça e Segurança Pública teria caído, ou levado à renúncia. E os procuradores da Força Tarefa teriam sido afastado dos postos, onde podem, assim como o  ex-chefe, destruir provas.

No Brasil, entretanto, num evidente jogo de contradições e desculpas esfarrapadas, tentam desqualificar as denúncias como crimes de imaginação ou “mero sensacionalismo”. Como se os delirantes não fossem eles.

Queira ou não  terão que se explicar ao Congresso Nacional. E as novas revelações tendem a, nas palavras da colega Helena Chagas, do Divergentes, de Brasília, “esquentar” o depoimento de Sérgio Moro previsto para esta quarta-feira, no Senado. Deltan Dallangnol também deve ser convocado a falar na Câmara dos Deputados.

Mas não só de #VazaJato vive a terra Brazilis. Há as consequências ou a evolução da concorrência, que falam diretamente ao TSE – que há oito meses senta sobre o pedido de apuração do impulsionamento irregular de mensagens pelo WhatsApp nas eleições de 2018.

O dia começou com a edição do dia do jornal Folha de São Paulo, repercutida por toda a mídia digital, não apenas a alternativa, revelando: “empresas brasileiras contrataram os serviços de empresa espanhola especializada em envios automáticos para disparar mensagens pró-Bolsonaro no WhatsApp”.

É preciso ser justa: o jornal paulista foi quem denunciou a ilegalidade ainda durante a campanha do segundo turno: o disparo em massa de fake news/notícias falsas para prejudicar Fernando Haddad, candidato do PT, e favorecer o adversário pagos por empresários.

Bom lembrar que a legislação eleitoral brasileira proíbe o financiamento empresarial de campanha, bem como doações não declaradas de pessoas físicas. Veda, também o uso automático para disparo em massa de mensagens sem autorização dos destinatários, assim como a terceirização de qualquer ato de campanha.

A punição para tais irregularidades, quando comprovadas depois da eleição, pode ser a perda do mandato, ou seja, torna nulo o processo eleitoral. 

No caso, a farsa que se desnuda fraude, e que colocou na cadeira presidencial o capitão-fake-delirante. Este ser desconectado com qualquer senso humanitário ou propósito construtivo que se possa vislumbrar.

E é claro que o PT e seu candidato sabem disso e reforçam o pedido de providências até então ignorado pela justiça eleitoral.

Não, o candidato do PT não substitui o presidente afastado. Assume o presidente da Câmara, que convoca outro pleito em 90 dias, unicamente para a Presidência da República e vice – pela via direta, se a vacância ocorrer nos dois primeiros anos de mandato; indireta se nos dois últimos. É o que diz a Constituição, em seu artigo 81.

E foi assim que se deu a consolidação do golpe político-jurídico-midiático no Brasil.

Caravana Lula pelo Brasil, com a presidenta Dilma em Bagé, no Rio Grande do Sul: Foto Ricardo Stuckert

Que começou lá atrás, numa reunião de empresários, políticos, forças de segurança e personalidades do mudo jurídico, em Atlanta, nos Estados Unidos é importante relembrar – aqui no A Tal Mineira. E que foi posto em movimento no momento seguinte à reeleição da presidenta Dilma Rousseff, em 2014.

Não a deixaram governar, tentando impor uma agenda que não estava no projeto. Vazaram e publicaram conversas de estrito interesse presidencial, o que é crime em qualquer lugar do mundo. Inventaram um impeachment, sem crime de responsabilidade, para chamar de dela.

Desmontaram as políticas públicas com bloqueio do orçamento. Degolaram os direitos trabalhistas. Acabaram com o emprego. Leiloaram o Pré-Sal para atender às petroleiras norte-americanas. Violaram a Constituição e o Estado de Direito.

O alvo final sempre foi Lula, o ex-presidente mais amado do Brasil. Perseguiram sua família. Inventaram denúncias, processos, condenações. Mataram de desgosto sua mulher, de tristeza o irmão mais velho e o neto caçula.

Lula está preso, mas vão ter que libertá-lo e anular suas condenações. É voz corrente no mundo inteiro, escandalizado com o nível de parcialidade da Lava Jato, uma operação chefiada pelo juiz que o julgou e condenou.

E o Brasil, o que é feito de nós tem conserto? E o Zé e a Maria Povinho, cada vez mais pobre e desvalido, o que será dele?

O resultado aí está. Por mais que a emissora que se arvora dona do país se esforce em fazer o que sabe melhor: inverter a lógica da narrativa a seu bel prazer e interesse.

A ganância da elite plutocrata e da mídia venal que a representa, a insensibilidade da classe média desvairada levaram um país inteiro ao infortúnio: destruiu reputações, empresas, empregos, a economia, o equilíbrio social, pôs em risco a soberania nacional – que é controle e distribuição das imensas riquezas que nos diferenciam.

E enterrou a esperança de vida mais digna para sua gente mais pobre.

Porque em rico, já dizia minha sábia avó analfabeta, nada pega. Aos poderosos nada acontece. Estão aí os últimos dados da economia que não me deixam mentir.

Está aí o pedido de recuperação judicial da Odebrecht – uma das poucas, senão a única construtora brasileira capaz de competir internacionalmente, que ceifa duas centenas de milhares de empregos, e deixa ricos seus donos e executivos. Graças à Lava Jato.

Tudo em nome do combate fictício à corrupção, real ou inventada ou maximizada. Não se pode ser conivente com a corrupção, certo. Mas não é preciso destruir o país e matar pessoas para combatê-la.

E não se pode aceitar as barbaridades e ilegalidades praticadas em nome do que se quer corrigir, pois de corrupção se trata. De toga e de ofício.

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Postagem revista e atualizada dia 19.06.2019, às 19:11hs: inclusão de parágrafo sobre o que acontece se a eleição presidencial for anulada, segundo a Constituição.

 

 

 


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