“Democracia em Vertigem’, nossa realidade no espelho do cinema

por Sulamita Esteliam

Não, não acompanhei a inquirição do ex-juiz inquisidor Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça e da Segurança Pública, em declínio do desgoverno do capitão-fake-delirante. Meu estômago é frágil.

Tive notícias, mas não vou tratar deste assunto hoje, ou não diretamente.

Vou falar da estreia na Netflix do filme Democracia em Vertigem, da cineastra Petra Costa, que – eu não sabia, devo dizer – é conterrânea, de Belo Horizonte. Embora egressa da ponta de cima da pirâmide social.

Democracia em Vertigem estreia na NetFlix

O filme trata do processo que nos trouxe até aqui, descambados que estamos para o abismo político, econômico, social e civilizatório.

Não, não assisti ao filme, ainda; vou fazê-lo daqui a pouco. Como vou escrever sobre o que não vi? Não vou.

Transcrevo a crônica impecável do Mário Donato, jornalista, escritor e fotógrafo paulista, que escreve na sessão de entretenimento do Diário do Centro do Mundo.

Faz uma ponte entre a história do filme e o cenário atual. Nas palavras de outra conterrânea, que me acionou no zaqp-zap para me contagiar com seu entusiasmo, ela que é psicóloga:

 – Eu não sou cientista política, mas achei o filme emocionante, lúcido, história que estamos vivendo.

Compartilho sem citar nome porque não consultei a autora. É crítica abalizada, de quem sabe do que fala – até para estimular você a assistir também.

Vamos ao texto do Donato:

Democracia em Vertigem: Fundamental, o lindo filme de Petra Costa revela seus receios sobre os rumos da democracia no país

Cena do Democracia em Vertigem

por Mário Donato – no DCM

“Não sei como isso deve ser contado”, diz a narradora a certa altura de “Democracia em Vertigem”, filme que estrou no Netflix nesta quarta-feira, mesma data em que Sergio Moro depunha na CCJ do Senado para ‘inexplicar o explicável’ e esquivar-se dos vazamentos de conversas flagrantemente comprometedoras.

A narradora e também diretora é a cineasta Petra Costa e se me fosse dada a oportunidade de ponderar sua observação, diria: “Na verdade talvez ninguém saiba como isso deve ser contado, mas é necessário contar seja de que maneira for”.

E a linguagem de Petra é eficiente. Muito.

Enquanto Sergio Moro estava lá desdizendo o que disseram que disse, o filme nos lembra de um outro diálogo igualmente vazado que já deveria ter sido o suficiente para um breque no processo todo que culminou com o impeachment de Dilma e prisão de Lula, tamanho o escândalo.

A obscena conversa entre Romero Jucá e Sergio Machado na qual “um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo” alçaria Michel Temer ao poder e assim a Lava Jato sofreria o torniquete tão desejado pela dupla e por toda a gangue.

Didática, Petra Costa pausa o filme e manda repetir aquela excrescência para que não pairem dúvidas.

Os fatos posteriores e já amplamente conhecidos são provas concretas de que houve o tal acordo. Com especial e dedicada participação de Moro, Dallagnol e amigos dos amigos.

No entanto, o país não reagiu àquela altura, assim como não reage hoje perante os vazamentos trazidos pelo The Intercept. Assiste a tudo impávido.

O filme de Petra não tem um tom de indignação. Pelo contrário. Sua voz encantadoramente triste faz uma narração tranquila dos eventos em clima de diário secreto.

Reminiscências de sua observação da história desde criança são entrelaçadas com a ascensão de Lula, sua dupla gestão bem-sucedida, a passagem do bastão para Dilma, o processo de derrubada daquele projeto de governo que havia tirado milhões da linha de miséria.

A leitura que a diretora faz das imagens de Michel Temer na cerimônia de posse do primeiro mandato Dilma é digna de entrar para a antologia.

De origem de classe média alta, Petra Costa é neta de um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez. Seus galhos genealógicos ligam-na inclusive a Aécio Neves. Uma boa parte de sua família votou em Bolsonaro.

Petra fala com naturalidade dessas manchas a que todos, involuntariamente, estamos sujeitos. A origem da diretora talvez nos condicione a vê-la como insuspeita, algo que a biografa de seus pais corrobora. Esquerdistas, foram perseguidos e tiveram papel fundamental na formação política da filha.

A mãe é um fio condutor inteligente e emotivo no filme.

O farto material da diretora mostra os bastidores do poder de forma humanista. E a rígida Dilma, quem diria, nesses momentos sempre nos emociona. Já tinha sido assim em “O Processo”, da diretora Maria Augusta Ramos, que é um documentário em formato oposto ao de Petra. Impessoal e frio, não tem narração ou sequer legendas que identifiquem os retratados.

Aliás esses dois filmes são um ótimo registro do momento atual. Complementam-se.

No filme “O Processo” vemos a senadora Fátima Bezerra perguntar aos colegas, revoltada: “Onde isso vai parar? E se daqui a pouco resolvem prender o Lula?”

O filme de Petra abre com as horas antecedentes à prisão de lula, a resistência na sede do sindicato dos metalúrgicos no ABC, o clima de desespero da massa de gente que desejava impedir que o ex-presidente se entregasse.

Ali a diretora demonstra seu temor com os rumos que as coisas estão tomando. Externa a perturbação comum com o que vemos quando olhamos para nós mesmos hoje. A tal vertigem do título, a mesma que sentimos quando olhamos fixamente para o espelho.

“Democracia em Vertigem” é um filme tocante (na correta acepção do termo, não como um certo xucro faz uso) e fundamental.

Uma indicação inequívoca para Sergio Moro que deveria, se acometido por um fluxo de autoconsciência, ter iniciado dessa maneira seu depoimento: “Não sei como isso deve ser contado”.

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Postagem atualizada dia 20.06.2019, à O0:23h.

 

 


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