Piromania entra no custo Brasil, internacionalmente

por Sulamita Esteliam

Um imbecil cheira o outro. Taí uma máxima incontestável.

Mas é o tamanduá a vítima-símbolo, imortalizada na genialidade de um trio: Araquém Alcântara que clicou o bicho em fuga e sofrimento na Amazônia; Chico Marinho, que teve a ideia da charge e Renato Aroeira que desenhou – com todos os créditos, como se deve. 

Pois não é que, enquanto ateia fogo no país, e a Amazônia em chamas é a fácil mais visível, o desgoverno aciona a ordem unida para dizer que sapo de fora não pia porque o pântano é coisa nossa.

Até o vice do capiroto, que vinha nos beneficiando com o silêncio, resolveu se manifestar em apoio ao dano geral que assusta e provoca a indignação do mundo. Só corrobora aquilo que venho dizendo sobre a cantilena do impeachment do coiso: sair do espeto para cair na brasa.

Ficou escancarada a reação internacional com a manifestação do presidente francês no Twitter sobre convocar o G7 para discutir providências para salvar “nosso pulmão”.

A ONU também manifestou sua “profunda” preocupação com os incêndios a floresta, através de seu secretário-Geral, Antonio Guterrez. Não se admire se em breve o Brasil venha a ser objeto de sanções internacionais.

No mínimo, caberia processo por crime contra a humanidade na Corte Internacional, sendo réu o chefe do desgoverno. Ideia já posta por observadores do exterior desde a posse do capiroto.

E não se apiede nem se chore pelo leite derramado: fizemos por merecer.

Assim mesmo, no plural: o desgoverno foi eleito, mesmo com toda farsa, com todo o empenho, com toda omissão, com toda manipulação; faz o que disse que faria, nada mais, nada menos. Ninguém pode dizer que foi surpreendido.

Sem romantismo nem apelos à culpa fácil de não cuidarmos do planeta. Uma coisa é uma coisa, a outra coisa é destruir, deliberadamente, em prol da estupidez sob todos os aspectos, e da crueldade com animais, cegueira com a destruição dos biomas e desrespeito com a vida dos povos originários e da gente de modo geral. No mesmo balaio se inclui assistir de camarote o desmantelo.

Não, não é descaso. É ação, perversa, destruidora.

Tudo dentro do planejado, até o discurso para se contrapor à suposta “intervenção internacional”: devastar é preciso, porque predador já nasce pronto. Chocar para seguir desmontando.

E o TSE, nada. Finge que a bola não está amoitada em suas gavetas também profundas. Não é tergiversar,é apontar o único caminho possível para brecar a destruição do Brasil: anular as eleições presidenciais e buscar um pacto nacional para restituir a civilidade e refazer o país.

*******

A propósito do assunto do dia, recomendo a leitura do que escreve Leonardo Sakamoto a respeito piromania governamental. Racionalmente didático do ponto de vista ambiental, político e econômico.

Eis alguns trechos do artigo sob o título A Amazônia pega fogo e Bolsonaro queima o filme do Brasil com o mundo:

“Bolsonaro conseguiu uma façanha: levou o Brasil a perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas e o respeito na área ambiental por parte de outras democracias, correndo o risco de nos tornar um pária internacional e ver limitado nosso acesso a mercados. Tudo em menos de oito meses.

(…)

(…) Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, disse que os europeus usam a questão ambiental com o objetivo de “estabelecer barreiras ao crescimento e ao comércio de bens e serviços do Brasil”. Mas também “para confrontar os princípios capitalistas”, pois – segundo ele – esse teria sido o destino da esquerda após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética. 

Qualquer urso polar deprimido por estar preso em um pedaço de gelo flutuando no Ártico, contudo, seria capaz de explicar ao ministro que o processo de mudanças climáticas não tem a ver com esquerda e direita, mas com a nossa sobrevivência como espécie. Ou seja, é um tema que separa a civilização e a barbárie. E, infelizmente, o governo que ele representa parece ter escolhido o seu lado na História.

Sob Bolsonaro, o Brasil adotou uma perspectiva medieval e negacionista quanto ao meio ambiente e o clima, muitas vezes usando argumentos como “se outros países levaram o mundo ao precipício, nós temos o direito de empurrá-lo de vez para a vala”. E quando o problema começou a ser notado, na forma de nuvens de fumaça em fotos de satélite, o governo fugiu da responsabilização, tentando culpar sociedade civil, governadores da região Norte, o tempo seco, a crise econômica.

Não é que a Amazônia seja pulmão do mundo. Ela imobiliza bilhões de toneladas de carbono que, se lançados à atmosfera, farão do planeta um lugar pior para se viver. Sem ela, menos água é retirada do solo e jogada no ar. Sem ela, São Paulo pode dar adeus à sua agricultura porque nosso sistema de chuvas dela depende. Sem ela, sobrará um deserto que avançará sobre outras áreas de produção. Isso sem falar que nela está a maior biodiversidade do planeta. E que nela vivem milhões de pessoas, incluindo populações tradicionais, suas línguas e culturas.

Por ser um importante produtor de alimentos e commodities, o Brasil desperta a ira de setores econômicos em países concorrentes – – dos Estados Unidos, passando pela Europa até chegar a Austrália. Por isso, temos visto tentativas de erguer barreiras comerciais a mercadorias brasileiras usando como argumento o desrespeito aos direitos humanos ou agressões ao meio ambiente, mesmo que o interesse seja puramente protecionista. A França de Macron, por exemplo, defende com unhas e dentes seu setor agrícola.

Infelizmente, damos subsídios para isso devido a uma parte de nossa produção insistir em agir de forma predatória. Há atores econômicos estrangeiros que usam o discurso ambiental de forma hipócrita em nome do seu protecionismo? Sim. Outros países também poluem? Claro. Mas o Brasil está ajudando a piorar a vida no planeta com seu comportamento medieval? Também. 

Muitas vezes, o país já evitou as tais barreiras comerciais, mostrando que estava implementando uma política firme e que havia transparência de informação para que o mercado gerenciasse seu risco. Transparência é fundamental para que o capitalismo funcione a contento. Um governo atacar sua principal fonte de dados sobre o sobre o desmatamento (INPE) é sinal de que também pode sonegar informações relevantes que devem ser ponderadas por um comprador, um financiador ou um parceiro comercial em suas decisões.

(…)”

Para ler a íntegra acesse o Blog do Sakamoto

 

 


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