O Estado violador não respeita, sequer, a dor e a alegria de ser mãe

por Sulamita Esteliam

O Estado é violador por excelência, quando deveria ser protetor.

Violador de direitos, quando deveria assegurá-los.

Violador de esperança e de sonhos, quando deveria dar suporte à sua realização.

Violador físico, quando se vale da truculência, do estupro de corpos e consciências para se afirmar.

Que o digam as mulheres chilenas. Replicadas mundo afora, inclusive no Brasil:

“O Estado opressor é um macho violador.”

Que o digam as meninas das favelas. E o Rio, e São Paulo conhecem de perto o terror.

Que o digam as mães que enterram suas filhas, todos os dias, vítimas de feminicídio. Ou que choram junto as dores do espancamento, dos maus tratos de toda sorte – verbal, psicológico, moral, patrimonial.

Que o digam as mulheres que têm violado seu direito à assistência e segurança, justo no momento mais importante e sensível de suas vidas, quando escolhem parir.

A violência obstétrica, que é parceira de mulheres pobres e negras, na verdade não escolhe alvos, quando se trata do sistema público de saúde. E não apenas.

Mas é o caso do relato que compartilho mais abaixo. Aracelle Fonseca é a caçula de uma prole de quatro da amiga-irmã, Maria de Lourdes. Garota inteligente e sagaz, que nunca teve medo de encarar a vida, muito menos cara feia.

É jornalista, graduada também em Letras, e há alguns anos escolheu ser policial civil.

Não se enquadra, portanto, na categoria Maria Povinho, que sofre o diabo em toda e qualquer circunstância e não tem ou não sabe onde e a quem reclamar.

É casada com um também policial civil. Portanto, ambos são funcionários públicos do Estado de Minas Gerais.

Por questão de princípio de cidadania, escolheram a maternidade do Ipsemg para receber Cecília7, uma garotinha muito amada e linda, que veio ao mundo há poucos dias, e apesar de…

Viva a pequena guerreira, Cecília! Os Anjos guardam.

E viva a mamãe Aracelle, que não guarda silêncio da violência de que foram alvo ela e sua filhinha. Calar só perpetua o mal.

Recebi a postagem da mãe de Aracelle, mas está no Facebook, providência de uma amiga de longa data.Transcrevo:

Adorável e guerreira Cecília. Quem sai aos seus não degenera -Foto: Facebook

O IPSEMG na contramão do parto humanizado

Meu nome é Aracelle! Sou jornalista, formada em letras e Policial Civil. Antes de me tornar servidora do Estado de Minas Gerais, trabalhei por 9 anos no SINDPÚBLICOS-MG – Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público do Estado de Minas Gerais. Lá, aprendi que o IPSEMG – Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Minas Gerais, é patrimônio dos servidores. Aprendi a defendê-lo, a lutar por ele, a cobrar melhorias do governo! Quando me tornei servidora não pensei duas vezes: cancelei meu plano de saúde e me tornei beneficiária! Defensora que era, fiz propagandas positivas e defendia a ideia de que todos deveriam aderir ao plano para torná-lo forte e solidário, atendendo bem todas as classes de servidores públicos.

Engravidei no começo de 2019 e fiz meu pré natal no IPSEMG. Nasci na maternidade do hospital Governador Israel Pinheiro (HGIP), hospital próprio do Instituto. E achava incrível poder ter minha filha lá! E assim passei minha gestação, tranquila, sem nenhum mal estar ou intercorrência. Praticando atividades físicas e sendo o mais saudável possível para conseguir ter um parto normal tranquilo e humanizado!

No dia 15/11/2019, com 40 semanas e 3 dias, começaram as tão esperadas contrações! Eu entrava em trabalho de parto naturalmente e aquilo me deixou muito feliz! Seguimos, meu marido e eu, pra maternidade do HGIP. Fomos atendidos por um médico que constatou uma dilatação de 3cm e contrações ritmidas! Surpresa número um: o médico disse que me examinaria novamente dentro de duas horas para ver se a dilatação teria evoluído… E que até lá eu poderia ficar andando pelo corredor do hospital, segurando nos corrimões e agachando a cada contração!

Eu estava com muita dor! Onde estava a tão esperada sala de pré parto? O tão sonhado acolhimento? As bolas de Pilates? O chuveiro quente? A enfermeira carinhosa??? Éramos somente meu marido, eu e as dores das contrações em meio a pacientes, visitantes, faxineiros, atendentes! Éramos ninguém!

Passaram-se as duas horas e minhas dores estavam insuportáveis! Meu marido corre atrás do médico que resolve me examinar de novo, encontra uma dilatação de 5cm e decide, enfim, me internar. Ufa! Agora viria a tão sonhada sala de pré parto… E ela veio! Uma maca velha, descascada e rodeada por cortinas. Ninguém me consolava… Ninguém me sentava na bola… Me furavam e iam embora! Furavam de novo! Eu chorava! Meu marido me carregou pra um banheiro com chuveiro que tinha num canto da sala. Ele tira minha camisola e me coloca no banho quente! Ele me pede calma… Ele agacha comigo a cada contração! Ele, eu, minhas contrações e mais ninguém!

Os 7cm de dilatação chegam e eu imploro pela anestesia… Vou para o bloco cirúrgico e uma anestesista trêmula chega, me fura várias vezes, deixa meu marido desesperado, mas consegue me anestesiar… Alívio! Continuo na batalha de fazer força a cada contração. Pressão cai e quase desmaio. Aplicam adrenalina e pressão sobe! Uma confusão! Me pedem pra ficar de pé e agachar nas contrações… Obedeço! Papai agacha comigo, segura na minha mão! Os médicos residentes conversam entre si e mexem no celular sem sequer olhar pra mim naquela situação em que eu tentava, com todas as minhas forças, trazer minha bebê ao mundo! Eu chorava… Estava exausta! Me pedem pra sentar na maca novamente… Tentam manobras manuais para encaixar o bebê… Me sinto insegura… Sinto aqueles residentes inseguros! De repente, o cenário muda! Sou avisada de que o bebê entrou em sofrimento e seus batimentos cardíacos sobem de forma absurda! Há mecônio dentro de mim! Uma Cesárea de emergência precisava ser realizada! Mais anestesia naquelas mãos trêmulas… Um corte mal feito, grande e mal posicionado é realizado na minha barriga, minha bebê é retirada, meu útero lavado… Sou costurada de qualquer jeito!Me sinto abandonada, estranha… Mas quero ver minha neném… Cecília chegou linda e saudável às 22h50 daquele dia. Ufa! Naquele momento só o amor por ela era importante!

Vamos para o quarto e o abandono continua! Ninguém me limpa… Banho só na manhã seguinte… Um quarto pequeno, um banheiro pequeno, duas famílias, médicos escassos, alimentação ruim, acomodações para mãe e acompanhante desumanas! Nada que eu venha escrever aqui seria capaz de demonstrar o abandono em que a maternidade do IPSEMG se encontra… Saí de lá dois dias depois em pânico! E acho que me encontro um pouco assim até hoje, 15 dias depois, quando consigo escrever esse relato em meio a lágrimas!

Olho para a cicatriz em mim e choro! É nela que enxergo os maus tratos pelos quais passei! É nela que vejo a marca da violência obstétrica que sofri! Mas sei também que chegará o dia em que olharei para ela e não irei mais chorar… Porque será nela que terei orgulho de dizer que venci! Que minha filha, meu marido e eu vencemos… E tê-la em nossos braços é o que mais importa nessa vida! É o maior amor do mundo! E nada mais importa!

Já o IPSEMG? Feche a maternidade! Acabem com o Hospital! Ninguém mais precisa ser enganado e mal tratado dessa forma! Sejamos realistas! A defesa para a manutenção do IPSEMG a qualquer custo não pode continuar!Afinal, é a vida e a sanidade dos servidores e seus dependentes que devem ser prioridade na luta sindical!”

Na postagem no Facebook, a amiga de Aracelle sugere que outras mulheres, que eventualmente tenham sofrido violência obstétrica, contem suas experiências. Há vários relatos. Euzinha mesmo deixei lá o meu caso, que transcrevo com alguns ajustes e correções:

Situação absurda, e você tem mais é que denunciar e cobrar. A maternidade do @Ipsemg é recorrente, e pelo visto costumeira em violência obstétrica. Há 42 anos, passei por algo parecido, com o agravante de que quase deixam a bebê morrer dentro de mim. Cheguei em trabalho de parto há 5 hs, com perda de sangue, mas sem dilatação, e com histórico de cesária do parto anterior. Era início da madrugada, e naquela noite haviam realizado 11 partos via cesariana, segundo me disseram. Fiquei na sala pré-parto até a manhã seguinte, deitada de lado para aliviar as contrações, sozinha e levando dedada de residentes a cada duas horas. Às 9 e tal da manhã, a dilatação era de 3 cm, me levaram para o centro cirúrgico. A menina nasceu às 11h, de cesariana , e com Apgar 5 , sem evolução.. Resultado: foi para a incubadora, meteram-lhe adrenalina e antibióticos. Salvou-se. 

Nenhum médico ou enfermeira me informou o estado de risco da minha filha. Só fui conhecê-la na manhã seguinte. Foi quando percebi as picadas em suas mãozinhas. Perguntei o que havia acontecido, a enfermeira desconversou e disse que só o pediatra poderia me dizer. 

Virei bicho. Saí pelo corredor da maternidade atrás do médico, me arrastando pois carregava 17 pontos no baixo abdômen, com a enfermeira em pânico querendo me levar de volta para o quarto. Só parei quando o médico, alertado, veio ao meu encontro.

Foi terrível e teve consequências para minha saúde e da minha bebê. Deveria ter processado a maternidade, não sei porque não o fiz. Melhor, sei: era muito jovem, não tinha recursos, e meu marido à época, serventuário da Justiça, não deu trela à minha indignação.  Logo, logo se tornou ex; a ocorrência foi mais um aditivo nas razões a granel.


Um comentário sobre “O Estado violador não respeita, sequer, a dor e a alegria de ser mãe

  1. Desumano. Esse hospital, maternidade, atendimento, médicos, enfermeiros, funcionários desse inferno dessa falsa assistência. Aquilo se mantém às custas dos servidores públicos que de seus pagamentos é descontado todo mês, isso não falha. Onde vai parar o dinheiro do trabalhador que deveria ir direto para esse poço de corrupção que se tornou o Ipsemg. Tem que fechar aquele lugar e tem que punir todos os envolvidos nessa farsa.

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