Zeíca está bem, ainda que nada venha a ser como antes…

Fotos: arquivo familiar
por Sulamita Esteliam

Este texto foi postado, originalmente, no Instagram.  Um #tbt negociado com a filha, Marina Nadu, guardiã da imagem da mãe, mais do que todxs que a amamos. A foto de abertura e o vídeo que se segue são do aniversário da minha irmã caçula, Zélia Goreth, há dois anos, quando ela se tornou sex. Zeíca é do dia 21 de abril.

Este ano nos valemos da tecnologia para cantar parabéns para ela: uma live reuniu irmãs, irmão, cunhados, sobrinhxs, sobrinhxs netxs em Beagá, Recife, São Paulo, Blumenau… Nem todxs estão na captura de tela. Algxns se perderam pelo caminho, por motivos vários. Faz parte.

Seguem as outras fotos que completam a postagem de 10. Quem não conhece pode ver, e quem é do entorno pode re-conhecer a Zeíca em toda sua beleza e alegria.

Ela sempre gostou de passear e reunir a família. Temos DNA. Nossa mãe tinha essa natureza de agregar ao seu redor. As fotos são de momentos felizes poucos meses antes do atropelamento que a deixaria “presa ao próprio corpo”.

“Presa em seu próprio corpo.” Certeira expressão de uma amiga dela da juventude. Helena era o nome, e tivemos convivência próxima. Tornou-se estrela pouco tempo depois de conversamos ao telefone, quando acreditava estar-se recuperando do mal que a consumiu. Não pôde visitar a amiga. Está na luz.

Minha irmã está confinada há cinco anos. Venceu a morte por hemorragia cerebral, causada por violento traumatismo craniano e uma pneumonia necrosante, que a deixou em 45 dias de UTI. Foram cinco meses de hospitalização, num lento e vacilante despertar que seguiu-se na internação domiciliar. Foi e está bem assistida.

O cérebro tem conexões que a própria razão desconhece. Os circuitos neurais são reconectados aleatoriamente. Há médicos que admitem o desconhecimento sobre a dimensão dessas possibilidades.

Zeíca não fala, mas se comunica por gestos e expressões. Caminha com ajuda do andador e do fisioterapeuta. Ama o banho de sol; é seu contato com o mundo externo, mesmo que ele não passe do quintal ou da portão da casa. Ainda precisa de ajuda para suas necessidades essenciais, mas está viva e em evolução gradativa.

E a vida é para para ser celebrada, com gratidão e cuidado.

A pandemia a tem privado do mínimo convívio familiar e social a que tinha acesso. Seu contato hoje está restrito à enfermagem e cuidadoras em esquema de revezamento. Nada de abraços e beijos que tanto gosta e pede. Mesmo a filha e o marido a veem à distância, e ela naturalmente se ressente, embora lhe tenham explicado as razões. É para sua proteção.

Zeíca renasceu e está bem. Mostrar sua evolução e alegria, apesar de, vai além de dar notícias a quem sempre pergunta por ela ou se preocupa. Nas circunstâncias de quarentena a que temos que nos submeter, de restrições coletivas, paciência, renúncia e solidariedade, é exemplo de como o amor, a resiliência e a esperança – do verbo esperançar – são boas companhias da ciência.

E ao final, tudo passa. Ainda que nada venha a ser como antes.

 

 


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