A pandemia avança no país, com desgoverno em contagem regressiva e a Globo em ação

por Sulamita Esteliam

Ando assim, exaurida, sem paciência para farsas ou pantomimas, mas é inegável que a ampulheta foi virada.  Entramos em contagem regressiva, mas é, continua, 171 para todo lado. Enquanto o país explode dificuldades e misérias de toda sorte, até para enterrar os mortos vítimas da pandemia de Covid-19.

Oficialmente, somam 4.016 neste sábado, em 58.509 casos diagnosticados. Todavia, pode multiplicar esses números por até 10, quatro no caso dos óbitos, sem medo de errar.

E olha que aqui mal começou, segundo estimam cientistas que acompanham de perto a evolução da praga global. No mundo as mortes já ultrapassam 200 mil e são 2,9 milhões de casos e 700 mil altas. O Brasil está entre os 20 países com maior número de casos, incluído no terceiro grupo – entre 50 e 100 mil casos, junto com Irã, China e Rússia – o que não deixa de ser irônico.

Não se pode esquecer que se trata da soma de pessoas que deixam de existir, ou padecem dos males provocados da infecção por o novo tipo de Coronavírus. Atrás de cada vítima tem uma história, uma energia que se apaga, uma família que sofre. Ela poderia ser você, qualquer um ou uma de nós, e pode vir a ser amanhã.

Isto posto, é inescapável falar da queda e consequências do pedido de demissão do ex-juiz inquisidor, Sérgio Moro, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O chefe, levado ao cargo pela desfaçatez com que o criador atropelou a lei e a ética para abrir caminho para a criatura, cansou de lero-lero em disputa. Definitivamente, não lida bem com concorrência, nem com a lógica.

Ademais tem suas crias para defender e proteger – dela é pai, mãe e algoz.

No entanto, queira ou não, o capiroto-presidente deu a senha para a própria desgraça e para gáudio de seu parceiro-facilitador.

Pense numa dupla para justificar a expressão, tão ao gosto popular quando se trata de políticos e politicagem: farinha do mesmo saco. A própria mulher do Moro já o referendou publicamente, quando postou em rede social que, para ela, “Moro e Bolsonaro são a mesma pessoa.”

Então…!

O que está em jogo, no caso literalmente, é disputa pelo butim, com armas semelhantes – a mentira e a manipulação – e bagagens distintas – o desespero e a paranoia, a vaidade e a ambição. O traço fascista é também comum de dois.

Um amigo carioca me enviou o link do vídeo que posto a seguir. É quase um documentário, produzido pela Meteoro Brasil. Resume em 14 minutos a farsa em processo:

Dois mil e vinte e dois é apenas uma miragem, mas jogo é de profissionais, que querem logo liquidar a partida e garantir o prêmio.

Um amigo recifense, professor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa, cidadão ativo e ativista, avalia no zap-zap, a propósito da rumorosa encenação:

– Espero estar errado, mas não nos iludamos: a Globo vai bancar o Moro e derrubar Bolsonaro. Aí, já sabe, surge o novo “mito” das elites.

Repliquei, mais ou menos o seguinte:

– É por aí. Moro não se toma de brios, assim, de repente. Tem planos. Tinha aceitado ficar, mesmo com o anúncio da demissão do apadrinhado, na véspera – o delegado-Geral da PF, seu cúmplice nas malvadezas da Lava Jato contra o ex-presidente Lula, em Curitiba.

Deve ter negociado com os militares – que não queriam sua saída – para não assinar a portaria da exoneração para não ficar mal com o pupilo. Sabia que o capiroto-presidente ia arrotar vantagem, assegurada por lei, de nomear e demitir quem se lhe aprouver, sem consulta subalterna; e assim, no caso, mostrar ao gado, e/ou ao Centrão em conquista, que humilhou o Moro.

Não deu outra. Aí, pagou de ofendido, e caiu atirando, sob medida. E fingindo-se de égua, mesmo confessando que prevaricou, mais de uma vez.

Já tinha tudo acertado com seus comparsas e patrocinadores, de lá (EUA – ou alguém duvida que seja um infiltrado) e de cá (TV Globo e parceiros lavajatistas).

Jogou o milho, esperou o dono do galinheiro se armar para garantir-lhe as galinhas, as frangas e, quiçá os pintainhos a serem chocados.

Fico por aqui.

Transcrevo análise de gente mais habilitada para dissecar o jogo de estreia da campanha eleitoral descarada, e antecipada: o Jornal Nacional da sexta-feira, 24 de abril de 2020, o primeiro dia dos últimos dias do capiroto-presidente.

Quem assina o que nomeia como “boletim”, publicado em seu perfil no Facebook, é a jornalista Eliara Santana, doutoranda em Linguística e Língua Portuguesa pela PUC/Capes.

Ela estuda, ou melhor, desnuda, a ação manipuladora do principal noticiário televisivo do país, o Jornal Nacional e suas consequências na política nacional.

Um trabalho árduo e de fôlego, que rende frutos em parceria com a também jornalista Ângela Carrato, professora do curso de Comunicação Social da Fafich/UFMG. Ambas, mais o jornalista Luiz Carlos Azenha, editor do Vi o Mundo, assinam artigo do livro Relações Obscenas – as revelações do The Intercept/BR, Tirant lo Blanch, 2019. Fui ao lançamento em Beagá, em meados de setembro passado.

O texto fala sobre A diabólica parceria entre a Globo e o juiz do Paraná, que integra o capítulo sobre A Aliança entre a Mídia e a Justiça, locomotivas do golpe que derrubou a presidenta Dilma Roussef, a pretexto do falacioso combate à corrupção. E ainda em curso, sob outros esbulhos.

Vamos ao boletim-análise sobre o JN da sexta, 24:

BOLETIM DO JN 24-04

por Eliara Santana – no Facebook

Uma edição histórica. Um horário eleitoral antecipado, não há dúvida.
55 minutos sem intervalo no Jornal Nacional. Sem blocos. Todo esse tempo para que o ex-ministro pudesse explicar as razões de suas saída. Sem questionamentos.
A escalada já marcou sem interrupção o embate, a acusação do presidente a Sergio Moro, os motivos do ex-juiz, o contra-ataque (com provas).
Foi um aperfeiçoamento da edição, de março de 2016, que impediu Lula de ser ministro-chefe da Casa Civil e selou o impeachment de Dilma Rousseff. Não se prepara uma edição como essa em menos de um dia.

Ainda na escalada da edição:

1. Há uma recontextualização de momentos históricos para marcar a dissonância na fala de Bolsonaro. Bonner e Renata na bancada, de preto:

“Novembro de 2018 – O presidente da República anuncia que vai dar carta-branca ao homem que escolheu como ministro da justiça (“Sergio Moro, no Ministério da Justiça, com todos os meios, inclusive a COAF, pra combater a corrupção. O compromisso que eu tive com ele é carta-branca pra combater a corrupção e o crime organizado” – Bolsonaro).
Abril de 2020 – Contra a vontade de Sérgio Moro, o presidente Jair Bolsonaro demite o diretor da Polícia Federal Maurício Valeixo, e o ex-ministro Moro pede demissão do Ministério com denúncias graves contra o presidente (entra Moro falando ainda na chamada para a edição).

2. É apontada a preocupação central de Bolsonaro: com inquéritos que correm no STF – ou seja, não se trata de uma simples troca de ministro

3. Bolsonaro “desqualifica a pessoa de Sérgio Moro e diz que ele não tem compromisso com o Brasil, mas apenas com seu próprio ego”

4. E para marcar seu lugar de autoridade, que não tem ligação com nenhum lado, “o Jornal Nacional cobra do ex-ministro Sérgio Moro provas das acusações que ele fez ao presidente e de que Moro não barganhou a nomeação para o STF em troca de demitir o diretor da PF”.

4. E o ex-ministro mostra provas com EXCLUSIVIDADE ao JN

A escalada também mostra a reação negativa do mercado financeiro (com recorde do dólar) e o número de casos confirmados da Covid, que chega a 53 mil.

O cenário turbulento está dado e vai se delinear ao longo da edição.

O primeiro grande bloco de uma só matéria do jornal começa com o vaticínio de Bonner: “Termina hoje de forma avassaladora a passagem de Sérgio Moro pelo Ministério da Justiça do governo de Jair Bolsonaro. O ex-juiz celebrizado pela Operação Lava-Jato, que recebeu do então presidente eleito carta-branca para combater a corrupção e o crime organizado, deixou o cargo após a exoneração do braço direto dele”.

A retomada do personagem Moro, o juiz herói, começa a se desenhar na narrativa da saída. “O estrago estava feito. A exoneração de Valeixo foi a gota d’água pra Moro, que vinha sendo esvaziado no governo há meses. Ele avisou a imprensa que faria um pronunciamento às 11 horas em Brasília. No horário marcado, diante dos jornalistas e de integrantes do Ministério da Justiça, o ex-juiz anunciou que deixava o governo mas também fazia acusações graves ao presidente Jair Bolsonaro que reverberaram o dia todo e que também levaram o presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento seis horas depois”.

Para mostrar credibilidade, “o Jornal Nacional procurou o ministro para cobrar provas das acusações que ele havia feito publicamente ao presidente pela manhã. E o ex-ministro Moro as apresentou. É essa sucessão de fatos que o Jornal Nacional começa a apresentar a partir de agora”.

Por “sucessão de fatos”, podemos compreender uma narrativa para legitimar Sergio Moro e alijar Jair do poder.

Na sequência, e por quase 30 minutos, sem blocos e sem interrupção para anunciantes, o que se viu foi a reprodução conduzida e analisada do pronunciamento de Sérgio Moro – ele tem toda a prerrogativa da fala, e o faz sem qualquer interrupção, com a intervenção da bancada para marcar pontos estratégicos e delinear o juiz-herói. Alguns elementos:

Ele quis evitar que a crise política acontecesse nesse momento em que o país enfrenta a pandemia do coronavírus: e Moro começa comentando o número recorde de óbitos.

Ele lembra os termos em que foi convidado para compor o ministério, ressaltando o caráter de uma “missão” a ser cumprida contra a corrupção

– Moro diz que vai procurar emprego – que não se enriqueceu no serviço público.

– Lula retorna ao JN como personagem condenado por Moro – é exemplo do sucesso na luta contra a corrupção

– Edição mostra e recapitula todos os embates entre Moro e Bolsonaro por conta do suposto combate à corrupção.

– As investigações sobre Flavio Bolsonaro aparecem com destaque e a questão do Coaf é trazida à tona

A edição das imagens (congeladas ou não) traz figuras de um Moro figura de autoridade, um “imperador”, inquestionável na aura de combatente da corrupção. Ele não fala a não ser no pronunciamento.
Disse que a PF tem de ter autonomia – “e imaginem se o ex-presidente Luís ficasse ligando para ter informação…”. Moro não menciona o nome Lula, apesar da referência ao ex-presidente.

Bonner anuncia a fala de Moro ou a menção sobre o “assim chamado” gabinete do ódio. Não houve matérias ou mais explicações sobre isso, mas elas virão… Bonner também menciona na sequência a investigação aberta sobre a origem das manifestações antidemocráticas que ocorreram em Brasília. Todas são antecipações de temas que entrarão na pauta.

Bonner também sinaliza que Moro se posicionou contra a interferência política na Policia Federal

Após 20 minutos de trechos do discurso de Moro, Bonner anuncia que ele deixa o cargo 512 dias depois de ter sido nomeado pelo presidente. A partir daí, e por mais quase seis minutos, começa uma recapitulação das ações de Moro, de seu combate na Lava Jato (que conseguiu prender o ex-presidente Lula), muitas imagens dele, a projeção na magistratura, sendo conhecido como “o juiz da Lava Jato”. Segundo a matéria, “o protagonismo” causou atritos com o presidente, e os conflitos não retardaram.

– As investigações sobre Flavio Boslonaro, com imagens do filho 01, aparecem em destaque.

Após mais de 25 minutos de Moro, entra a fala de Bolsonaro no pronunciamento.

Bonner e Renata entrecortavam a fala com interpretações, muito mais que em relação a Moro. O tempo de fala e de exposição de Bolsonaro é bem menor que o de Moro.

45 minutos depois, aparecem as muitas críticas à demissão – continua sem intervalo.

– Transparência internacional se manifesta contrariamente.

– Nas repercussões negativas sobre a demissão, João Doria fala no “outro vírus” que está no Palácio do Planalto.

– Bonner fala numa repercussão grande na Imprensa internacional – a edição das cenas mostra a imagem imperial de Moro ao fundo, e imagens dos jornais que vão passando.

Na sequência, Ibovespa caindo, dólar disparando.

E a repórter insinua que Guedes pode ser o próximo a sair…

“Todas as regiões do pais registram panelaços”, como ilustram a as imagens.

Apesar de Bolsonaro ter citado e ter tentado estabelecer a analogia – “quem mandou matar Jair Bolsonaro?” – O assunto Marielle não é mencionado pelo JN. É uma carta na manga essencial e não será desperdiçada com insinuações aleatórias.

Uma hora e cinco minutos depois – sem intervalo – a chamada para a Covid no Brasil, que já tem quase 50 mil infectados – nas ultimas 24 horas confirmaram-se mais de 357 óbitos.
A rede de saúde do Rio chega ao limite. Pandemia atinge PMs em Manaus e prejudica verificação de óbitos no Pará. Há afrouxamento da quarentena em Goiás, apesar do pedido do governador para as pessoas ficarem em casa.

O terceiro bloco traz internacional, com foco grande na iniciativa da OMS e de líderes mundiais para distribuição de testes, tratamentos e vacinas. o Brasil ficou de fora, nem foi lembrado. Há um balanço também da situação alarmante nos EUA, com quase 900 mil casos e mais de 50 mil mortos. O Islã tem um Hamadã vazio, e Itália e Espanha apresentam menor número de mortes.

Depois, no quarto bloco, o aniversário de 90 anos de José Sarney, e o “esforço nacional” das empresas para ajudarem o Brasil.

Se há ainda alguma dúvida, a edição deixa claro que, no embate, Moro é o grande vencedor. Será reconstruído como herói. Os dias não serão fáceis para Bolsonaro e filhos. Como coloquei mais cedo, a parceria Moro-Rede Globo tem longa data e é bem estruturada. Essa edição é um retrato.

Em dia de fortes emoções, é isso.

Boa noite.”

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