A ‘Falha SP’ não se emenda, e volta a ser trucada por Dilma, Lula e a própria ouvidoria

Dilma Rousseff coloca a “Falha de São Paulo” em seu devido lugar de golpista – Foto: Roberto Stuckert Filho
por Sulamita Esteliam

A presidenta Dilma Rousseff volta a manifestar sua indignação, o que também o fazem o ex-presidente Lula e a ombudsman da Folha, Falha de São Paulo sobre o conteúdo do editorial do diário paulista na edição do sábado, 22. Vão ao ponto quando apontam, respectivamente, “abuso e arrogância”, “misoginia” e “circo dos horrores”.

A pretexto de defender o equilíbrio fiscal a qualquer custo, o jornal compara a presidenta Dilma ao capiroto-presidente, já a partir do título: “Jair Rousseff”.

Escárnio com direito a chamada de destaque na primeira página e replicação em outro veículo do grupo, nesta segunda, o Agora São Paulo.

A presidenta Dilma comenta o displante em uma sequência de tuítes:

Fato é que somente se engana com a pretensa veia democrática da Folha – do PIG de modo geral – quem quer. Porque qualquer pessoa com mais de 50 anos, político, intelectual ou jornalista, conhece a folha corrida da Falha.

Não fica no suporte ideológico e material à ditadura e no desmantelamento de reputações, ao seu bel prazer. O trato com a própria equipe já cultivou a esculhambação moral como método, ao ponto de demitir profissionais na primeira página.

Há duas décadas e meia critiquei essa postura, a partir de acontecimento próximo, em seminário da ANJ – Associação de Jornais, em Fortaleza, em parceria com o O Povo, jornal no qual estava editora de Economia. Fui ironizada pelo então ombdsman da Folha, Marcelo Beraba, convidado de destaque: “Pegou pesado!”

Lembro-me bem, ainda, da cobertura de um congresso de Corretoras de Valores, em Salvador, em meados dos anos 80. A estrela era o então ministro do Planejamento, Antônio Delfim Neto.

Com 21 repórteres cobrindo, à noite havia congestionamento para transmissão do material pelo telex. Euzinha aproveitei o espaço dos debates para escrever e transmitir meu material direto, no intervalo de descanso do telexista… Cheguei a fechar até duas páginas num mesmo dia durante os três dias de cobertura.

O pobre do repórter da Folha trabalhou o material, mas deixou para o telexista processar, e havia colegas espertalhões, que furavam a fila. Resultado, a matéria não havia sido enviada até a hora do fechamento e o editor ligou aos berros; dava para ouvir à distância:

“Nem precisa enviar mais. Vou botar a foto dos seus culhões no espaço reservado para a matéria, seu…”

Isso é pegar pesado.

A presidenta Dilma assinala a truculência do veículo, lembrando de episódio anterior de falsificação da verdade em relação a ela própria. E ironiza com o uso epíteto de “Falha de São Paulo”; não é à toa.

No mesmo sábado, a ofendida requereu à Folha direito de resposta, com base na Lei 13.188 (link abaixo da resposta da presidenta na íntegra):

A comparação feita pelo texto, desde o título, é falsa e indevida. Assim, em nome da verdade, da pluralidade e do direito ao contraditório, solicito à Folha de S. Paulo a publicação do meu direito de resposta ao seu editorial. Em anexo, envio o texto a ser publicado, de acordo com a legislação.

Em seu sítio eletrônico, Dilma Rousseff respondeu com firmeza e indignação à ofensa, baseada em mentiras, fake news, como preferem a brasileirada – porque em inglês é mais chic. Ela acusa o jornal paulista de falsificar a História e desprezar a memória de seus leitores.

“Falta de seriedade na abordagem do limite dos gastos públicos a partir da comparação”. Para começar, desenha a jornalista Flávia Lima, em matéria repercutida pela Revista Fórum (link no tuíte do A Tal Mineira, reproduzido abaixo):

“Dilma Rousseff acreditava que a política de gastos desenfreados — que incluía os tais ‘programas redentores de obras públicas e de assistência social’, como diz o editorial — traria crescimento econômico”.

“Em quase dois anos de governo, é possível dizer que Jair Bolsonaro não é um liberal nem um desenvolvimentista, mas alguém que fará o que for necessário para se reeleger”

E conclui:

“Para Dilma, ver seu nome associado a alguém que, entre outras coisas, celebra o torturador Brilhante Ustra e já disse, para voltarmos ao tema central deste texto, que não estupraria uma deputada porque ela não merece, significaria o quê? Circo de horrores.”

Transcrevo a integra da resposta da presidenta Dilma à Folha e, mais abaixo, o artigo do ex-presidente Lula, não menos veemente:

“A FALHA DE S.PAULO” ATACA OUTRA VEZ?

As afirmações do editorial do jornal a respeito do meu governo são fake news. A Folha falsifica a história, num gesto de desprezo pela memória de seus leitores

A Folha tem enorme dificuldade de avaliar o passado e, assim, frequentemente erra ao analisar o presente.

Foi por avaliar mal o passado que a empresa até hoje não explicou porque permitiu que alguns de seus veículos de distribuição de jornal dessem suporte às forças de repressão durante a ditadura militar, como afirma o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Foi por não saber julgar o passado com isenção que cometeu a pusilanimidade de chamar de “ditabranda” um regime que cassou, censurou, fechou o Congresso, suspendeu eleições, expulsou centenas de brasileiros do país, prendeu ilegalmente, torturou e matou opositores.

Os erros mais graves da Folha, como estes, não são de boa-fé. São deliberados e eticamente indefensáveis. Quero deixar claro que falo, sobretudo, do grupo econômico Folha, e não de jornalistas.

Quero lembrar, ainda, a publicação, na primeira página, de uma ficha falsificada do Dops, identificada pelo jornal como se fosse minha, e que uma perícia independente mostrou ter sido montada grosseiramente para sustentar acusação falsa de um site fascista. Mesmo desmascarada pela prova de que era uma fraude, a Folha, de forma maliciosa, depois de admitir que errou ao atribuir ao Dops uma ficha obtida na internet, reconheceu que todos os exames indicavam que a ficha era uma montagem, mas insistiu: “sua autenticidade não pôde ser descartada.”

Quem acredita que as redes sociais inventaram as fake news desconhece o que foi feito pela grande imprensa no Brasil – a Folha inclusive. Não é sem motivo que nas redes sociais a Folha ganhou o apelido de “Falha de São Paulo”.

O editorial de hoje da Folha – sob o título “Jair Rousseff” – é um destes atos deliberados de má-fé. É pior do que um erro. É, mais uma vez, a distorção iníqua que confirma o facciosismo do jornal. A junção grosseira e falsificada é feita para forçar uma simetria que não existe e, por isto, ninguém tem direito de fazer, entre uma presidenta democrática e desenvolvimentista e um governante autoritário, de índole neofascista, sustentado pelos neoliberiais – no caso em questão, a Folha.

Todas as afirmações do editorial a respeito do meu governo são fake news. A Folha falsifica a história recente do país, num gesto de desprezo pela memória de seus próprios leitores.

Repisa a falsa acusação de que o meu governo promoveu gastos excessivos, alegação manipulada apenas para sustentar a narrativa midiática e política que levou ao golpe de 2016. Esquece deliberadamente que a crise política provocada pelos golpistas do “quanto pior, melhor” exerceu grande influência, seja sobre a situação econômica, seja sobre a situação fiscal.

A Folha, naquela época, chegou a pedir a minha renúncia, em editorial de primeira página, antes mesmo do julgamento do impeachment. Criava deliberadamente um ambiente de insegurança política, paralisando decisões de investimento, e aprofundando o conflito político. Estranhamente, a Folha jamais pediu o impeachment do golpista Michel Temer, apesar das provas apresentadas contra ele. Também não pediu o impeachment de Bolsonaro, ainda que ele já tenha sido flagrado em inúmeros atos de afronta à Constituição, e o próprio jornal o responsabilize pela gravidade da pandemia. A Folha continua seletiva em seus erros: Falha sempre contra a democracia, e finge apoiá-la com uma campanha bizarra com o bordão “vista-se de amarelo”.

Um país que, em 2014, registrou o índice de desemprego de apenas 4,8%, praticamente pleno emprego, com blindagem internacional assegurada por um recorde de US$ 380 bilhões de reservas, não estava quebrado, como ainda alega a oposição. Na verdade, a destituição da presidenta precisou do endosso da grande mídia para garantir a difusão desta fake news. O meu mandato nem começara e o impeachment já era assunto preferencial da mídia, embalado pelas pautas bombas e a sabotagem do Congresso, dominado por Eduardo Cunha.

Os dados mostram que a “irresponsabilidade fiscal” que me foi atribuída é uma sórdida mentira, falso argumento para sustentar o golpe em curso. Entre 2011 e 2014, as despesas primárias cresceram 3,7% ao ano, menos do que no segundo mandato de FHC (4,1% ao ano), por exemplo. Em 2015, já sob efeito das pautas bombas, houve retração de 2,5% nessas despesas. As dívidas líquida e bruta do setor público chegaram, em meu mandato, a seus menores patamares desde 2000. Mesmo com a elevação, em 2015, para 35,6% e 71,7%, devido à crise que precedeu o golpe, elas ainda eram muito menores que no final do governo de Temer (53,6% e 87%) ou no primeiro ano de Bolsonaro (55,7% e 88,7%).

Logo ao tomar o poder ilegalmente, os golpistas aproveitaram-se de sua maioria no Congresso e do apoio da mídia e do mercado para aprovar a emenda do Teto de Gastos, um dos maiores atentados já cometidos contra o povo brasileiro e a democracia em nossa história, pois, por 20 anos, tirou o povo do Orçamento e também do processo de decisão sobre os gastos públicos. Criou uma “camisa de força” para a economia, barrando o investimento em infraestrutura e os gastos sociais, e “constitucionalizando” o austericídio. O Teto de Gastos bloqueia o Brasil, impede o País de sair da crise gerada pela perversão neoliberal que tomou o poder com o golpe de 2016 e a prisão do ex-presidente Lula. E, a partir da pandemia, tornará ainda mais inviável qualquer saída para o crescimento do emprego, da renda e do desenvolvimento.

Se a intenção da Folha é tutelar e pressionar Bolsonaro para que ele entregue a devastação neoliberal, que tenha pelo menos a dignidade de não falsificar a história recente. Aprenda a avaliar o passado e admita seus erros deliberados, se quiser ter alguma autoridade para analisar um presente sombrio de cuja construção participou diretamente.

DILMA ROUSSEFF

Fonte: dilma.com.br

A íntegra da nota sobre o pedido de direito de resposta

‘Editorial da Folha é uma ofensa a Dilma, uma agressão à verdade histórica e um desrespeito à sociedade’

O editorial da Folha de S. Paulo de sábado (22) é uma ofensa à presidenta Dilma Rousseff, uma agressão à verdade histórica e um desrespeito, mais um, aos leitores do jornal e à sociedade brasileira.

Dilma Rousseff, uma pessoa honesta e dedicada ao Brasil, foi vítima de uma campanha de mentiras e seu governo foi alvo de uma sabotagem articulada por setores inconformados com o resultado das urnas de 2014.

A Folha teve papel decisivo naquela articulação, colocando-se mais uma vez a serviço do que há de pior em nosso país: a ganância dos extremamente ricos numa sociedade desigual e injusta; a intolerância dos poderosos diante de qualquer projeto de transformação desta sociedade.

A presidenta Dilma já deu ao infame editorial a resposta indignada que se espera de uma pessoa mais do que injustamente ofendida. Expôs a verdade dos números e dos fatos sobre seu governo. Pôs a nu as mentiras da Folha neste e em outros episódios que deveriam envergonhar os donos de qualquer jornal.

Participei de todas as eleições presidenciais no Brasil desde 1989 e posso afirmar que nenhum outro candidato sofreu igual perseguição e preconceito por parte da Folha, como aconteceu com Dilma Rousseff.

Diante de uma candidata que lutou contra a ditadura, a Folha publicou uma ficha falsa do DOPS e chegou a inventar um atentado contra um ministro para criminalizar, no presente, a resistência corajosa da jovem Dilma num passado em que o jornal apoiava os torturadores em seus textos e até materialmente.

A Folha que insistiu na mentira sobre uma jovem militante dos anos 1970 é a mesma que, nas eleições de 2018, tratou como irrelevante o passado de um candidato que, assim como o jornal, apoiou os torturadores. Um candidato que confessou ter tramado um atentado terrorista no centro do Rio de Janeiro quando o Brasil já vivia a redemocratização que ele nunca aceitou.

Não tenho dúvidas em afirmar que o ódio dos donos da Folha a Dilma passa por sua condição de mulher. Não pode haver outro motivo para o jornal ter publicado uma ordem proibindo chamá-la de presidenta, no feminino, até nas cartas de leitores, quando Dilma passou a assinar atos oficiais desta forma.

A realidade é que os donos do jornal jamais toleraram a eleição e o governo de uma mulher que enfrentou a ditadura dos torturadores no passado e hoje enfrenta a ditadura da mentira que veículos de comunicação como a Folha querem impor.

Sempre soubemos de que lado está um jornal que defende o teto de gastos, o suicídio fiscal que condena a educação, a saúde e o investimento público. De que lado está quem defende a agenda neoliberal de Paulo Guedes, a privatização selvagem, a demolição dos direitos dos trabalhadores.

A Folha está com Bolsonaro e contra Dilma e o projeto de país que ela representa, sempre esteve. Depois deste editorial infame, muitos ficaram sabendo também que os donos deste jornal são covardes e misóginos, porque para defender seus interesses não vacilam em atacar uma mulher honesta e digna como eles nunca foram.

Luiz Inácio Lula da Silva

Fonte: lula.com.br

 

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