O capiroto mente no discurso da ONU, a mídia amacia, Lula faz o contraponto e Aroeira desenha

por Sulamita Esteliam

Não vou mentir, como se tornou hábito no Brasil do capiroto-genocida: não acompanhei o discurso do ocupante do Palácio do Planalto na 75ª Assembleia Geral da ONU, a primeira virtual em seus 75 anos.

Não tenho estômago, nem disposição, nem tempo a perder. Vergonha eu passo só de ler o troar nas redes sociais. Chega a ser humilhante, tamanha a farsa, tem razão a jurista Carol Proner. 

A mentira como meio de autoafirmação da mediocridade. Impossível não replicar o Aroeira, magistral.

Ela chama a atenção para um ponto, que também passou pela minha cabeça, e que não é mero detalhe: será que a ONU vai fazer vistas grossas ao deboche, como acolhe a patacoadas do herói Trump do capiroto?

No frigir dos ovos, quem paga o preço somos nós, brasileiras e brasileiros. Nas palavras do Observatório do Clima, coletivo que reúne 50 organizações não governamentais e movimentos sociais:

“(…) o presidente mais uma vez expôs o país de forma constrangedora e confirmou as preocupações dos investidores internacionais que pensam em sair do Brasil. Ao negar simultaneamente a crise ambiental e a pandemia, o presidente dá a trilha sonora para o desinvestimento e o cancelamento de acordos comerciais no momento crítico de recuperação econômica pós-Covid.

Claro que é proposital. Óbvio que fala para seu exército robotizado. Evidente que na cabeça do capiroto só uma ideia vigora: sobreviver e chegar em condições de, com perdão da palavra, disputar 2022.

E viva a fake news. Até quando é o que veremos.

Os jornalões, contudo, amaciam, o que também não é surpresa. O Globo passa pano na mentira, que traduz em “polêmica”. A BBC Brasil vai no mesmo tom, e destaca os sete pontos “polêmicos” do discurso.

A Folha/ Falha SP usa o biombo das ONGs e outras organizações para dizer o que se recusa a admitir: o capiroto-genocida mente e envergonha o Brasil.

O Estadão, a exemplo de outras agências, checa cada afirmação e restabelece a verdade, explicitando as fontes. Ainda que não dê o nome correto, mentira; prefere usar “não é verdade”, “não procede”, “exagero”. Segue o tuíte com o acesso.

Até para mentir o cara tem que robotizar o que se supõe responda como inteligência. E nem assim consegue ser feliz. Não fosse ele um psicopata, até poderia surpreender e até gerar pena. Não é o caso.

Fico por aqui, porque o dia foi pesado.

Deixo o artigo sobre o que deveria ser o discurso do presidente do Brasil na abertura da Assembleia Geral da ONU, celebrativa do aniversário de 75 anos da Organização das Nações Unidas.

Contraponto do Lula.

O que deveria ser o discurso do Brasil na ONU

Foto: Ricardo Stukert

por Luiz Inácio Lula da Silva – no sítio do Lula

As únicas palavras sensatas do discurso de Jair Bolsonaro hoje na ONU foram as primeiras: o mundo precisa mesmo conhecer a verdade. Mas na boca de uma pessoa que não tem compromisso com a verdade até esta frase soa falsa.

O que se esperava ouvir hoje de um presidente são coisas simples, que estão indicadas no Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil, apresentado ontem pelo Partido dos Trabalhadores. Algo assim:

Senhoras e senhores desta Assembleia,O Brasil se envergonha de ter tido, ao longo desta gravíssima pandemia, um governo que ignorou a ciência e desprezou a vida, o que resultou em mais de 136 mil mortes e milhões de contaminados pela Covid.

Queremos anunciar que, a partir deste momento, vamos realizar testes em massa na população para conhecer as verdadeiras dimensões da pandemia e enfrentá-la.

Vamos recompor o Orçamento da Saúde para ter hospitais, médicos, enfermeiros e remédios; investir o que for necessário para salvar vidas.

Vamos manter o auxílio emergencial de R$ 600 e instituir o Mais Bolsa Família, para que este valor seja pago mensalmente a todas as famílias vulneráveis.

Os bancos públicos abrirão imediatamente crédito para as pequenas empresas. Retomaremos já as obras paradas para reativar a economia e gerar empregos.

O governo brasileiro nunca mais fará propaganda enganosa de remédios sem comprovação científica nem voltará a desmoralizar medidas coletivas de prevenção.

A partir de hoje, estamos decretando o Desmatamento Zero da Amazônia. Três anos de proibição total de queimadas e derrubadas, para que a natureza tenha tempo de se recuperar da destruição.

Convocamos as Forças Armadas para combater o incêndio do Pantanal, a começar pelos 4 mil hoje deslocados para fazer provocação militar irresponsável em nossa fronteira com a Venezuela.

Os povos indígenas são irmãos da natureza e guardiões do meio ambiente. Terão prioridade nas ações emergenciais de saúde. Seu território e suas culturas voltarão a ser respeitados, com a retomada das demarcações de reservas e terras indígenas.

Os cientistas e os agricultores brasileiros desenvolveram a mais avançada tecnologia para o cultivo de grãos e produção de proteína animal.

Este conhecimento, a partir de hoje, voltará a ser utilizado em benefício da segurança alimentar do planeta e do povo brasileiro, de maneira social e ambientalmente sustentável.
A partir de hoje está proibido em nosso território o uso indiscriminado de insumos e sementes que representam risco à saúde humana.

Não é preciso destruir para botar comida na mesa. É preciso, sim, entregar terra, tecnologia e financiamento a centenas de milhares de famílias que trabalham no campo para alimentar as cidades.

Estamos criando hoje um banco de terras públicas para retomar a reforma agrária no Brasil. E reativando o financiamento da agricultura familiar.

É desta forma, garantindo segurança alimentar para nossa população e produzindo com abundância, respeito ao meio ambiente e à saúde humana, que o Brasil quer contribuir para saciar a fome no mundo.

Senhoras e senhores,

Esta assembleia foi criada, ao final da mais devastadora guerra de todos os tempos, para construir a paz, promover a educação, a saúde, o trabalho digno, a produção de alimentos e o equilíbrio nas relações econômicas.

Passados 75 anos, não tivemos sequer um dia sem guerras. O colonialismo deu lugar a outro tipo de dominação, ditada pela concentração de capitais e a especulação financeira. O acesso à educação e saúde é uma miragem para a imensa maioria. As relações de trabalho regridem ao que eram no século 19.

E, vergonha das vergonhas: 800 milhões de crianças passam fome todos os dias, no mesmo planeta em que uns poucos privilegiados nem sabem como gastar – ou sequer como contar – suas inacreditáveis fortunas.

Como alertou papa Francisco: “Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade”.

No Brasil, a partir de hoje, tudo que o estado fizer será no sentido de reverter séculos de desigualdade, o racismo estrutural que nos legou a escravidão, o patriarcado que discrimina as mulheres, superar o preconceito, a fome, a pobreza, o desemprego.

A partir de hoje o Brasil exercerá plenamente sua soberania, não para oprimir quem quer que seja, mas para promover a integração da América Latina, a cooperação com a África, relações econômicas equilibradas e democráticas entre os países, defender o meio ambiente e a paz mundial.

O Brasil quer para si o que deseja para todos os povos do planeta: soberania, autodeterminação, acesso compartilhado ao conhecimento, às vacinas e medicamentos imprescindíveis, regras justas de comércio, ação internacional efetiva para o desenvolvimento e o combate à pobreza no mundo.

O Brasil quer para todos democracia, paz e justiça.

 

Fontes citadas:

  • O Globo: deixo de lincar pq a matéria está reservada a assinantes.

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