‘Operação Jacarta’ matou Herzog. Mas seriam centenas os alvos dos militares

História necessária, memória indispensável – para que amanheça, para que não mais aconteça.

Topei com o artigo em compartilhamento do amigo Beto Mafra, no zap-zap e no Facebook. Transcrevo, com autorização do autor.

Para começar a semana sem meias palavras.

Vladmir Herzog em Brasília, 21 de abril de 1960 – Foto: Ag.Estado, parte da postagem original

por Luciano Martins Costa* – no Facebook

Tirem da sala as crianças e os boçais. Vou contar uma história que nenhum jornal nunca publicou, e que restabelece alguns fatos que muita gente finge ignorar. Ou prefere ignorar. Aconteceu em 1975, agosto, dois meses antes do assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

Junto com minhas colegas G. de V. e A…, fui encarregado de entrevistar o então comandante do II Exército, general Ednardo D’Ávila Mello. Foram quinze dias de espera após o pedido de audiência, tempo em que o serviço de inteligência do exército vasculhou nossas vidas. Nada encontraram que impedisse o encontro.Mas o general nos recebeu cercado por seu estado-maior e um grupo de cinco estudantes de Direito do Mackenzie, alguns dos quais tenho encontrado por aí, já maduros e não menos radicais.

A entrevista deveria ser publicada num jornal-laboratório da FAAP chamado O Bloco, coordenado pelo professor Rodolfo Konder. Tudo ia bem, mas o comandante resolveu jogar para a plateia, e começou a fazer provocações, dizendo que nós, estudantes, exigíamos liberdade, mas aquela conversa era uma prova de que o Brasil vivia em plena democracia. Sob acenos dos seus convidados, seguiu falando sobre a necessidade de seguir combatendo a ameaça do comunismo.

Então, minha amiga G. de V., que era muito esquentada, levantou-se e encarou o general. Disse mais ou menos isto: “Censura à imprensa, censura no cinema, censura no teatro, prisão de gente inocente sem processo, isso não é democracia em lugar nenhum”.

O homem ficou furioso.

Virando-se para os “meninos” do Mackenzie, soltou: “Estão vendo? Eu não disse? Não adianta, só neutralizando mesmo”. E passou a falar de um plano para “neutralizar” 2 mil comunistas, gente que andava a descoberto, inclusive influenciando os jovens como nós pela televisão e pela imprensa.

Nesse período, o jornalista Cláudio Marques e alguns parlamentares, entre os quais o então deputado José Maria Marin, vinham denunciando Vladimir Herzog como um agente de Moscou infiltrado na TV Cultura.

Quando, descontrolado, o general se referiu a uma “operação Jacarta”, eu fiz umas anotações. Ele me mandou rabiscar e disse: “Se você publicar uma linha desta conversa, serão 2001 presos”.

A conversa terminou abruptamente, saímos de lá caminhando sobre nossas próprias pernas. Fui para casa, escrevi um relatório e fui entregar a Konder. Ele disse que era bobagem, que eu estava vendo fantasmas e soltou a blague: “Esses são os últimos radicais. O processo de abertura do general Geisel é lento e gradual, mas é seguro”.

Passaram-se dois meses, e as prisões começaram. Konder foi um dos primeiros, a lista foi crescendo até que Vlado Herzog se apresentou para depor. Horas depois, no dia 25 de outubro, estava morto.

Estourou a crise no interior do governo, Geisel mandou um grupo de oficiais verificar as condições da prisão no DOI-Codi, confirmou as torturas e colocou o general Ednardo na geladeira, preparando sua remoção do comando. Mas o processo demorou e ele ainda permitiu a tortura e morte do operário católico Manoel Fiel Filho.

Pouco depois que os presos foram liberados, procurei Rodolfo Konder, mas ele não quis falar sobre a entrevista. Contei que, por algumas coisas que ouvi do general, entendia que Herzog não foi morto por ser comunista. Não era um militante ativo. Foi morto por ser judeu. Konder confirmou que Vlado foi muito mais barbarizado do que os outros.

Já se passaram muitos anos. Voltei a encontrar com Rodolfo Konder pouco antes de sua morte. Tentei lembrar o episódio, ele respondeu: “Luciano, naquele tempo eu acordava pensando em como melhorar o mundo, como restaurar a democracia no Brasil. Hoje, minha grande preocupação toda manhã é – como vou calçar as minhas meias”.

Recentemente, fui procurado por um jornalista do New York Times que está escrevendo um livro sobre o que chama de “fetiche de Jacarta”, que caracteriza certos setores da política na América Latina.Contei para ele essa história, dei uma cópia do relato que fiz da entrevista.A morte de Vlado impediu o massacre de centenas de jornalistas, artistas e intelectuais. Mas aqui nem o Instituto Vladimir Herzog quer saber o que era a “operação Jacarta”.

*Luciano Martins Costa é jornalista e escritor paulista, com larga atuação na imprensa nacional

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