Do que é feito um país…

por Sulamita Esteliam

Domingo o povo volta às ruas do Brasil em carreatas pelo desempesteamento do país. Organizadas pela Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, junto com os movimentos sociais e partidos políticos à esquerda, ecoam no exterior com Stop Bolsonaro Mundial.

É um alento ver que as pedras começam a se mover, apesar da pandemia, e com os cuidados imprescindíveis. Indignação tem que andar junto com a ação.

Mas confesso que ando muito borocochô diante das perspectivas. Até porque, é preciso livrar-se do desgoverno inteiro, não apenas do capiroto-presidente para a gente tornar a esperançar. Boca suja é o de menos para um sujeito que nunca escondeu que o esgoto é a sua praia e jamais soube o que é decoro.

Quem tem o poder de mudar o rumo da história, não tem o mínimo interesse em limpar a merda que ajudou a espalhar no ventilador-Brasil.

A casa-grande não se incomoda, porque sempre se abrigou no guarda-chuva da boa vida. E não importa se a farinha rareia, o pirão dela está sempre pronto. Essa raça não tem sentimento de país, que dirá de nação.

E o Zé e a Maria Povinho que se lasquem, que morram, como têm morrrido, feito moscas.

Em meio a essa desgraceira toda, os ricos seguem cada vez mais ricos, sustentando a flauta que atrai  os ratos, não para se afogarem como no conto folclórico O Flautista de Hamelin, tornado universal pelos Irmãos Grimm. Aqui, as ratazanas seguem roendo o que resta de nós para garantir-lhes o fausto.

Devo confessar: ando completamente tomada por uma sensação de impotência que me aterra. Já nem sinto raiva.

O desânimo, a descrença, são péssimos companheiros, bem sei. Todavia, são os sentimentos que me abraçam no momento, e tenho que ser honesta comigo e com quem me dá a honra de navegar por aqui.

Semana passada fui salva por mestre Paulinho Saturnino, que me enviou a crônica que transcrevo abaixo. Para ele, o autor é de longe o melhor cronista desses tempos.

Não conheço Marcílio Godoi, e nunca havia lido um texto seu, confesso; esse foi o primeiro. Mas lá onde colhi, no perfil do autor no Facebook, tem muito mais, e do mesmo naipe. O cabra é bom.

Despertou-me a vontade de retomar as leituras literárias interrompidas em fins do ano passado, por motivos vários. Só que ainda não me sinto capaz, preciso me reorganizar por dentro. Dia desses, o astral melhora e retomo.

por Marcílio Godoi – no Facebook

Um país não é feito de homens e livros porra nenhuma. Um país é feito com o sangue das mulheres e dos homens que lutam por ele todo dia.

Um país não se desenha com lápis coloridos no caderno ou com giz na lousa o caralho. Um país é moldado pela coragem que a mente e o coração de seu povo foi capaz de formular com a mais radical ternura e coletiva dedicação.

Um país não se escreve com as linhas criativas e o talento de alguns iluminados. Não. Um país se narra com a tinta feita de suor, sêmen e lágrimas daqueles que não foram capazes de conviver com a injustiça, a desigualdade social e o preconceito.

Parem de achar que um país é uma propaganda de seguros. O Brasil precisa da entrega da alma e da fúria, da revolta de cada brasileiro para sobreviver ao mais brutal e estúpido ataque de seus colonizadores.

Estamos em guerra. E colocaram alguma coisa na água. Só pode ser isso.

(Foto: projeto Freedom Kick, do coletivo de arte Indecline)

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Postagem revista e atualizada em 30.01.2021, às 9:51 horas: correção de erros de digitação e concordância.

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