Um mar de tristeza, crimes e agonia nos invade…

“Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor.
Por que o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.”
(Carlos Drummond de Andrade/Os Ombros Suportam o Mundo)

por Sulamita Esteliam

Estou sob ataque de enxaqueca, que faz tempo não me visitava. O que parecia um ressecamento no olho esquerdo, se transformou numa dor de cabeça que beira o insuportável.

Não é Covid, nem se preocupem: é tensão, creio. Notícias cada vez mais tristes neste Brasil sem medida me tiram o chão e a tranquilidade.

E olha que hoje pratiquei as duas séries de Lian Gong mais I Ki Gong ou Chi Kung: 30 minutos de exercícios de alongamento, relaxamento e respiração que me são essenciais para manter o equilíbrio do corpo e da mente.

Faço com alguma regularidade, há pelo menos 27 anos, desde que nasceu minha caçula. Absorvi gradativamente, através de vídeos – ainda no tempo do VHS – a sequência de cada série. O Chi Kung só incorporei mais recentemente. É revigorante.

Quero dizer que poderia ser pior a travessia desses tempos nebulosos.

Um mar de tristeza, crimes e agonia nos invade, meio meio à carnificina da pandemia de Coronavírus, potencializada pelo propósito genocida do capiroto que nos desgoverna.

Já passamos dos 411 mil mortos, e não são poucos os infectologistas que afirmam que aos menos metade delas poderia ser evitada se o país houve adotado as medidas corretas em tempo adequado. E se o comandante não pregasse e praticasse o desmantelo.

Abril foi um mês terrível para as famílias brasileiras, o pior desde o desembarque da pandemia por aqui, há um ano e um mês. Morreu mais gente que em muita guerra mundo afora.

A boa notícia é que o número de óbitos reduziu nos últimos 7 dias, embora ainda em patamar extremamente elevado, de acordo com o Consórcio de Imprensa, que vem coletando dados desde que o desgoverno passou a escondê-los.

Das 27 unidades da federação, apenas Pernambuco mantém-se em alta, de 32% nas vidas perdidas para a Covid-19.  Aqui, já somam 14.279 histórias encerradas. E praticamente tudo voltou ao funcionamento normal, inclusive as escolas.

E pensar que os governadores começaram tão bem a fazer o que precisava ser feito, e a resistir às pressões de que acha que a economia vale a vida de milhares de pessoas…!

Enquanto isso, a 2 mil quilômetros do Recife, na Praça dos Três Poderes, a CPI do Genocídio abriu a ouvida de depoimentos nesta terça, com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.

Defensor do desmonte do SUS, não se esqueça, entregou o capiroto-presidente na bandeja, responsabilizando-o pela hecatombe que se abate sobre a gente brasileira. Linco ao pé da postagem.

Dentre outras coisas, disse que até a bula da Cloroquina o capiroto queria alterar para incluir tratamento pré-Covid – só se fosse a ineficácia já comprovada pela ciência.

Também disse que não partiu do Ministério da Saúde sob seu comando a ordem para produzir toneladas do medicamento. O senador Humberto Costa, contraditou com documento que mostra a remessa de cloroquina para as unidades de saúde, sob o titulo “Covid-19.

E entregou ao relator cópias da carta em que tentou alertar o presidente sobre o risco de descontrole da pandemia.

Significa que, mesmo que o Eduardo Pazuello se mantenha em fuga – alegou suspeita de Covid para não comparecer ao depoimento nesta quarta – há elementos irrefutáveis de prova de crime de responsabilidade contra o ser que ocupa o Planalto.

Covardia é o que não falta nas hostes fardadas, pelo visto. Aliás, é próprio dos valentões de fachada, com ou sem coturnos, latirem estrepitosamente, mas fugirem à primeira batida de pé.

Aliás, a respeito, imperdível o artigo do Gilberto Maringoni que compartilho na próxima postagem.

A terça foi pesada. Passei o dia estarrecida com o assassinato de duas crianças-bebês em uma escola infantil no interior de  Santa Catarina, mortas a facadas por um adolescente de 18 anos, que depois se feriu. Ele matou também uma professora e uma ajudante.

Não se sabe o motivo.

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Kely e Mirla morreram tentando salvar as crianças – Foto: reprodução redes sociais

Na última segunda de abril, foram dois homens negros, Bruno e Yan Barros, tio e sobrinho, entregues à milícia em Salvador por tentativa de roubo de carne no hipermercado Atakadão Atakarejo, que pertence ao grupo Carrefour.

Os seguranças espancaram ambos e depois, chancelados pelo gerente, os entregaram a traficantes para serem justiçados pelo tribunal do crime.

Racismo, extermínio e associação criminosa. Horror inaceitável. Há uma campanha por justiça e pelo boicote à rede de supermercados.

A lembrar episódios semelhantes que têm se tornado rotina, como o assassinato de João Alberto de Freitas, numa loja do Carrefour em Porto Alegre, ano passado, na véspera do Dia da Consciência Negra.

Meu amigo Cau Gomez, que mora em Salvador, desenhou assim o caso na capital baiana. O cartoon que abre a postagem também é dele, que entrou para valer na campanha.

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Também há cerca de uma semana, uma garota pernambucana viajou para encontrar um amigo de uma década em João Pessoa, e desapareceu. Encontraram seu corpo enrolado em plástico numa mata no em torno da cidade. Patrícia Roberta tinha 21 anos.

O amigo a convidara, e a acolheu com a morte; um amigo o ajudou a esconder o corpo. Jonathan Henrique, 24 anos, tinha uma lista com nome de outras 10 mulheres, prováveis futuras vítimas. Ele está preso, investigado por feminicídio e ocultação de cadáver. O caso está sob sigilo judicial.

Não vou tocar no horror do assassinato do menino Henry pelo padrasto, no Rio de Janeiro, com a cumplicidade da mãe. Ainda não consegui processar a crueldade.

E me ponho a imaginar o desespero das mães, das famílias dos três meninos desaparecidos no Rio de Janeiro há mais de quatro meses, sem que se tenha qualquer notícia. O que é feito dessas crianças?

Os primos Lucas Matheus, 8 anos e  Alexandre da Silva, 10 anos, mais o amigo Fernando Henrique, foram vistos pela última vez no Morro Castelar, em Belford Roxo, dia 27 de dezembro. Brincavam num campo de futebol naquela manhã.

Alexandre, Lucas e Fernando Henrique desapareceram no dia 27 de dezembro
Alexandre, Lucas e Fernando Henrique desapareceram no dia 27 de dezembro – Foto: Reprodução Facebook

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Fontes requisitadas:

G1

Mortes e casos de Coronavírus nos estados

Adolescente invade escola e mata crianças em escola em cidade do Oeste de Santa Catarina.

El País

Execução sádica de tio e sobrinho em Salvador atrela outra vez um hipermercado a racismo que mata

Kennedy Alencar/Uol

Apesar de jogo de empurra, Renan tira de Mandetta munição contra Bolsonaro

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Postagem revista e atualizada à 00:13h do dia 05.05.2021: inclusão de fotos e links. E novamente às 11:16 para corrigir erros de digitação, frases truncadas ou incompletas. Com minhas desculpas.

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