É preciso derrubar o veto à dignidade menstrual, castrar a misoginia!

por Sulamita Esteliam

A pobre da mãe do capiroto ficou nove meses sem menstruar para gestá-lo. Certamente não sabia que iria parir um monstro. Porque filho de chocadeira ele não é.

Pois o inominável vetou o projeto de lei da deputada pernambucana Marília Arraes (PT), que  institui a distribuição gratuita de absorventes menstruais para meninas e mulheres carentes: estudantes de baixa renda em escola pública, mulheres em situação de rua, mulheres encarceradas e as que cumprem medidas socioeducativas.

Aprovado nas duas casas do Congresso Nacional, o PL cria o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. O programa foi sancionado, mas a operacionalização vetada, sob falsa alegação de que não foi indicada fonte de recursos.

Marília Arraes contesta, nas redes sociais:

“Fizemos vários estudos de impacto orçamentário financeiro, de onde sairia o recurso. Apontamos no substitutivo com a relatora Jaqueline Cassol (PP-RO), de onde viria o dinheiro, tudo acordado com as lideranças inclusive do governo.”

Assista ao vídeo da deputada no Instagram:

São cerca de 6 milhões de meninas e mulheres beneficiadas, que não têm como bancar um, que dirá dois, até três pacotes de absorventes a cada ciclo, a depender do fluxo menstrual.

Sei bem o que é isso, e o quanto é constrangedor. Não me esqueço de quando tive minha menarca, aos 12 anos: esgotei em dois dias a amostra grátis que a empresa produtora de absorventes distribuiu no colégio onde estudava o ginásio de então, e eram apenas meia dúzia.

Já na estreia, Euzinha soube o que era conforto e segurança na higiene íntima em situação tão importante como a menstruação. Ocorrência que me acompanharia até os 50 anos.

Mas era pobre de marré-marré, e até ao menos 16 anos, não tinha como pagar por absorventes, mesmo trabalhando fora desde os 11 anos.

Usava dúzias de toalhinhas higiênicas que minha mãe, costureira, fazia de toalhas usadas, e achava uma tortura ter que lavar tudo aquilo, deixando em condições de reusos sucessivos, mas não havia alternativa.

E olha que, na real, 55 anos depois, há quem que nem a isso tem acesso. Milhões de meninas e mulheres se obrigam a toda sorte de artifícios – de miolo de pão a folhas de jornal – para brecar o fluxo menstrual.

É questão de dignidade.

A alegação para o veto é mentirosa, para variar. É o capiroto sendo o que ele é: machista, misógino, mesquinho, o avesso da noção.

Mas, como diria minha avó Ceição, é de onde nada se espera que não vem nada mesmo.

O veto, certamente, será derrubado pelo Congresso, e as redes se mobilizam para que aconteça. É imperativo castrar a misoginia.

Por que não é fácil ser mulher no planeta da barbárie machista.

11caso Mari Ferrer - Floripa 2018
Imagem capturada no Instagram/PlanetaElla

A outra notícia triste e revoltante do dia é a absolvição do empresário-estuprador de Mari Ferrer pela justiça da 2ª instância de Santa Catarina. Assim mesmo em minúsculas.

Decisão absurda em favor de André de Carvalho, confirmando a sentença do juiz Rudson Marcos. Desembargadores foram unânimes: Ana Lia Carneiro, Ariosvaldo da Sil e Paulo Sartorato alegaram “falta de provas”.

Mari Ferrer além de tudo era vulnerável à época do abuso, situação que o primeiro juiz alegou que “o réu não tinha como saber”.

Quer dizer, o estupro em si não é crime, na miopia judicial, que referenda a misoginia. Note-se que até a mulher votou pela absolvição

O crime aconteceu em 2018, no Café de La Musique de Florianópolis. A defesa da vítima pode recorrer junto ao STJ e ao STF.

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