Unaí Tubinambás escreve sobre as perspectivas pós-Ômicron: no Brasil no mundo

por Sulamita Esteliam

Professor da UFMG e infectologista, Unaí Tupinambás publica artigo importante sobnre o que esperar depois da onda avassaladora da variante Ômicron da Covid-19.

Recebi pelo zap-zap, num grupo de amigues jornalistas, sem a fonte original. Mas localizei no Vi o Mundo a publicação, que transcrevo.

O que virá depois da variante Ômicron?

por Unaí Tupinambás – no Vi o MUndo

O mundo está passando por uma nova onda (seria a 4ª) da pandemia de Covid-19, que se iniciou no final de 2021.

No Brasil, felizmente, as projeções de casos e mortes da variante Delta não se concretizaram na proporção que foi observada na Europa e na América do Norte.

Tivemos em quase todo o 2º semestre de 2021 uma queda sistemática nos indicadores de casos e mortalidade. Não obstante os alertas sobre novas variantes, tivemos a ilusão de que o controle da pandemia estava logo ali.

No entanto, no final de novembro de 2021, virologistas da África do Sul anunciaram, estarrecidos e assustados, a detecção da variante Ômicron. Com mais de 30 mutações na proteína S do vírus, ela se mostrou ainda mais infecciosa e capaz de escapar da resposta vacinal, bem como de causar reinfecção como nenhuma outra variante.

O mais assustador e preocupante é que ainda não sabemos a sua origem. Ela aparece de forma totalmente inesperada e diversa das outras variantes. Há suspeitas de que possa ter vindo de reservatórios animais, o que seria uma péssima notícia, uma vez que novas variantes podem já estar sendo formadas, dificultando sua detecção em tempo hábil para que medidas de saúde pública possam ser implementadas.

Talvez o SARS-CoV2 seja o vírus mais infeccioso de que se tem notícia, uma vez que mesmo que a taxa de transmissão (Ro) seja um pouco menor do que a do sarampo, os ciclos (geração) de infecções são muito mais velozes.

Modelagens matemáticas do Instituto de Métricas e Estatística em Saúde da Universidade de Washington indicam que 50% da população mundial estará contaminada até o final de março de 2022.

A rápida subida de casos, tanto na África do Sul quanto na Europa, ainda em dezembro de 2021, corrobora em parte tais previsões.

No Brasil, bastaram quatro semanas para sentirmos o impacto de seu poder de disseminação. Provavelmente a Ômicron seja menos letal do que a Delta, no entanto ainda assim é quase dez vezes mais agressiva que os vírus da influenza.

Essa 4ª onda encontra a população “mais experimentada” contra o SARS-CoV2, seja pela ampla vacinação (infelizmente não é a realidade de vários países do continente africano onde menos de 10% da população está vacinada com 2 doses) ou infecções prévias.

Estes fatos, um vírus menos agressivo em relação à variante Delta e a população “mais experimentada”, fizeram que houvesse um descolamento das curvas de casos e letalidade. Mas, mesmo assim, observamos aqui um aumento de casos absolutos, acometendo principalmente a população não vacinada ou pessoas com alguma vulnerabilidade e idosos acima de 75 anos de idade.

Portanto, a tão sonhada imunidade de grupo – tomando o sarampo como exemplo – nunca deverá ser atingida por conta das novas variantes.

Entretanto, esse cenário de grande exposição ao vírus e ampla cobertura vacinal pode nos levar para um “estado de imunidade coletiva contra formas graves” e, a exemplo dos quatro coronavírus sazonais que conhecemos desde a década de 60, causar reinfecções mais brandas.

Mas não sabemos se isso poderá ser extrapolado para o SARS-CoV2 e vai depender da variante que virá depois da Ômicron. É certo que ela virá, e não sabemos quais serão as suas características, se mais ou menos letal.

Uma coisa que aprendemos a duras penas foi que nem sempre o caminho das mutações se dá no sentido de tornar os vírus menos agressivos.

Provavelmente a pandemia não deverá se comportar como nos primeiros dois anos, e entraremos numa endemia, ou seja, na estabilização do número de casos e mortes.

Aqui, destaco que há uma interpretação equivocada de endemia como se isto fosse uma boa notícia.

Lembro que a malária e a tuberculose são doenças endêmicas e causam, respectivamente, 600 mil e 1,5 milhão de mortes por ano no mundo.

E também não é motivo para não fazermos nada, muito pelo contrário. Temos de nos esforçar para ampliar a vacinação em TODO O MUNDO e ainda manter as medidas não farmacológicas até que se chegue a números “aceitáveis” de casos e mortes.

O relaxamento excessivo proposto na Inglaterra e em outros países, onde todas as ações preventivas serão suspensas até o final de março (inclusive a necessidade de isolamento social de casos positivos), está sendo visto pela comunidade científica e pelos gestores mundiais com muito espanto e desaprovação.

Qual é o número de mortes que vamos aceitar para “declarar” que estamos na fase endêmica? E quem serão estas vítimas?

Se formos nos espelhar nas epidemias de Influenza como balizador, no Brasil a última epidemia, em 2019, vitimou 5.089 pessoas. Vamos considerar que há uma subnotificação de quase 100% dos casos, ou seja, foram mais de 10 mil óbitos por influenza em 2019. Fazendo uma conta grosseira, seriam 13 a 27 óbitos por dia. Esta cifra nós aceitamos e a vida seguiu dentro daquela normalidade em 2019.

Vejam que estamos muito longe disto acontecer. Hoje são mais de 700 mortes/dia em média por Covid-19, reforçando a necessidade de continuarmos agindo para reduzir o número de casos e óbitos: ampliar a vacinação inclusive a dose de reforço, manter as medidas não farmacológicas (aqui destaco o uso de máscara de boa qualidade) e evitar eventos super espalhadores e aglomerações em locais fechados pelo menos até a redução da incidência de casos.

Outra questão que pode auxiliar a entrarmos nessa fase de transição é o uso de antivirais de ação direta contra o vírus, que têm se mostrado efetivos nos estudos clínicos. Vários países já anunciaram a sua compra.

Destaco aqui o Nirmatrelavir/Ritonavir que parece ser promissor, lembrando que deve ser usado ainda nos primeiros dias de sintomas por cinco dias.

Devemos desde já cobrar uma posição do Ministério da Saúde em relação à sua aquisição bem como preparar protocolos clínicos e diretrizes assistenciais nesse novo cenário de drogas antivirais específicas e eficazes. A exemplo da política de enfrentamento da Aids com a distribuição dos antirretrovirais, o SUS tem que se posicionar e já começar as tratativas de compra desse antiviral.

Temos diversas ferramentas para nos levar a “conviver” com o SARS-CoV2, uma vez que ele deve permanecer por bom tempo entre nós. Mais uma vez usando o enfrentamento da Aids como exemplo, temos de lançar mão da “prevenção combinada”: vacinas, máscaras, higienização de mãos, distanciamento físico, automonitoramento, testes e antivirais.

Caso ocorra a mudança de fase para “endemia”, a pressão nos Sistemas de Saúde permanecerá.

O SUS trabalhou e vem trabalhando no limite de sua capacidade há quase dois anos, com sua equipe estressada e desarticulada.

A ruptura das diversas ações programáticas fundamentais como controle da hipertensão, diabetes, tabagismo, alcoolismo, sofrimento mental, atendimento pré-natal, campanhas de vacinação, adiamento de procedimentos eletivos (aqui destacando a prevenção e rastreio de câncer), foi enorme e vai impactar muito na assistência.

Junte-se a isto o contingente de pessoas sofrendo com a “Covid longa” e a ameaça de recrudescimento da epidemia de arboviroses neste verão.

Além disso, temos o desafio de conviver com o subfinanciamento do sistema, agravado com a Emenda Constitucional 95, que retira recursos da saúde e da educação.

Portanto, os desafios para 2022 serão enormes, e juntos teremos que reconstruir nossa nação e nosso sistema de saúde!

*Unai Tupinambás é médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG.

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