Ou dia disso, ou dia daquilo…

por Sulamita Esteliam

Há dia para tudo: dia disso, daquilo, daquilo outro e de mais aquilo… Há dia até para São Nunca de Tarde, como a gente da minha geração costumava dizer, e esse é o Dia de Todos os Santos.

Euzinha, por exemplo, nasci no Dia dos Santos Inocentes: aquele dia em que Herodes mandou decaptar criancinhas para acabar com a ousadia dessa história de um bebê roubar-lhe o trono. Depois, bem mais tarde, tornou-se também Dia do Salva Vidas. 

Deveria também ser Dia de São José, por que, segundo a Bíblia, foi o pai terreno de Jesus que providenciou a fuga da família para o Egito, com parada estratégica para Maria parir na gruta de Belém.

E o Menino Deus nasceu, enquanto os executores do “rei malvado” decapitavam centenas de recém-nascidos. Sempre tem um mandante em barbáries do tipo, de todo o tipo. 

No caso de Jesus, a história conta que foi o povo judeu que o escolheu para Cristo, ao invés do ladrão com nome de segurança de carro forte.

Mas isso foi 33 anos depois que o Menino Deus foi salvo pelos bebês decapitados em seu lugar.

Vai entender a vontade do Pai Celestial!

São José, protetor dos trabalhadores, é celebrado em 19 de Março; por artes de um papa que achou por bem venerar o homem que protegeu quanto pôde o filho do Todo-Poderoso.

Fato é que, por essas artes do destino (?) e um, no meu caso perdoável, ato de machismo do senhor meu pai – combinado com a intervenção salvadora do cunhado, embora não menos machista -, escapei de chamar-me Inocência. Era o nome que minha mãe me teria legado, se o marido lhe tivesse dado o direito de escolha.

E olha que meu trabalho de parto durou 36 horas, e minha avó materna foi minha parteira. Nasci toda desconjuntada, com os pés pela cabeça, e foi Mãe Ceição que me salvou de nascer morta e levar minha mãe junto.

Pobre mãe, no universo que lhe foi reservado, até aí, só cabia amor traduzido em família, obediência e religião. O tempo se encarregou de mostrá-la que havia outros caminhos a se percorrer. Mas aí já era viúva, e não sabia o que fazer com a tal liberdade.

Quer dizer: por ato de justiça, 28 de dezembro também deveria ser o Dia da Mãe Ceição, que, na verdade, nasceu em 18 de maio e encantou-se num 7 de agosto, oito décadas e quase meia adiante.

Retomo. Só não escapei de conhecer a tragédia logo cedo: dois tiros levaram meu pai antes que eu inaugurasse 5 anos. Aos 6, foi a vez do avô-padrinho João e um ao e meio após a avó paterna, que era a madrinha Liscínia.

Como esquecer memórias desse calibre?

Cinco anos é a idade em que começamos a virar gente, digamos assim. 

Aos 5-6-7 anos nosso cérebro está praticamente pronto. Nossa individualidade começa a se desenhar, ao tempo em que passamos a desenvolver a capacidade de compreender as necessidades do outro e de nos relacionar coletivamente; embora já com alguma seleção.

Palavra da Psicopedagogia, onde sempre podemos buscar inspiração para acompanhar as gerações. Cabe uma recomendação essencial, é: ouça as suas crias e a prole da prole, elas estão chegando agora e o HD está novinho em folha.

Faça-se ouvir pelo amor, pela empatia, pela solidariedade, pela compreensão. Sua prole sabe que você é autoridade, não precisa explodir a cada travessura ou deslise.

Inspire, respire, conte até mil.  Desafie-se a manter o equilíbrio emocional. Você é o adulto da relação. No limite, diga para a cria que ela não é capaz de desestabilizar você, se é o que ela pretende – e pode apostar que é.

Brinque de contente, não complique. Ouça e conte histórias. Torne-se fonte – de informação e prazer. Água mole em pedra viva alumia.

O cuidado e o prover é obrigação de quem pôs no mundo, não é favor algum. No plano afetivo, do suporte emocional, é para o resto da vida nem adianta reclamar. Embora seja um baita alívio quando eles passam a tomar conta de si.

Hoje, a Neurociência e a Psicologia se unem para mostrar que o desenvolvimento cognitivo, do córtex pré-frontal, só se completa aos 25 anos. É aí que se amadurecem. Portanto, não se pode tratar como adulto um ser humano de 18-21anos. 

Minhas avós ficariam horrorizadas!

É na parte da frente do cérebro, na fachada digamos assim, que se amadurecem as emoções, a autoimagem, a capacidade de julgamento.

Os hormônios também continuam em ebulição. A ciência diz, quem tem prole sabe, e quem avoreceu muito mais. A experiência me diz que há prolongamentos quantitativos até os 30 anos, por aí…

No tempo do onça, do forde bigode e até do karmanghia, a gente amadurecia a fórceps: ou vai, ou racha! Tenho até pena de como foi para minha mãe, tias e avós.  Os homens também penavam, mas sempre tiveram autorização para usar a válvula de escape.

Claro, diferenças sempre existem, e para lados diversos, independentemente da condição social do nascimento. E o direito a não ser igual, de ser particular, atípico, deve ser reivindicado e exercido. E em muitos casos, assistido – em quaisquer circunstâncias.

Pessoas únicas e plenas, em solidária solidão, sempre existiram, e sempre estarão por aí para nos lembrar que nada é o que parece.

Somos seres em constituição permanente, antes da transformação derradeira. Final? Talvez… Quem sabe um novo começo!?

Somos círculos que, divididos, não se fecham, ou ainda… uma sequência que está por vir.

Somos Pi, infinitos como a constante matemática que há séculos desafia a ciência a encontrar seu fim… 3,14,1592653589793238462643383…

Marielle, há quatro anos sem justiça, presente! E lá se vai outro 14 de março…

Eis que o 15 de março celebra o Dia da Escola e o Dia do Consumidor. Dia de aprender como não ser consumido por conversa mole, falsas verdades e mentiras a granel.

Ponto de partida, ou o começo do fim do todo dia é de desespero…?

‘Roda, roda, roda e avisa…’

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Deixo o vídeo com a música do Aceu Valença e homenagem ao Velho Guerreiro Chacrinha

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Postagem revista e atualizada em 16.03.3022, às 21:02 horas: frases buriladas, acrescentadas e/ou reparadas aqui e ali…

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