Uma cápsula no tempo

por Sulamita Esteliam

Faz tempo deixei o isolamento social.  E esta crônica foi traçada no 73º dia de quarentena no Recife, Pernambuco, Brasil, inicialmente para fazer parte de coletânea sobre a pandemia de coronavírus, que jamais saiu da intenção. Reescrevo para contemplar a memória desses tempos de convivência com o vírus.

E lá se vão dois anos de flagelo de doença, de morte, de fome, desemprego, descaso e caos sanitário, desmantelo social e econômico, mentiras e simulações, farras e desperdício de dinheiro público. À revelia dos esforços de governos regionais, e alguns locais.

Mais do que nunca, vivemos a era da farsa, do ridículo que mascara e falseia intenção e ação de apropriar-se do que não é devido e que nos pertence por direito.

Quando a filósofa Márcia Tiburi escreveu O Ridículo Político, certamente, não imaginou que seu detector de maldades e disfarces pudesse ser tão preciso. Contudo, aqui estamos, com tal nível de desmantelo que jamais imaginamos merecer. E não o merecemos. E vamos expurgá-los de nossas vidas e enterrá-lo fundo, no oco do mundo, que é lugar de seu ninguém.

Não fosse a vacina, retardatária por essas plagas e ainda inacessível em outras bandas, Euzinha e o maridão teríamos engrossado a contagem de perdas que superam seis centenas de milhares de pessoas levadas para o lado de lá, só no Brasil. No mundo se multiplica por dez. Ainda assim, à essa altura, todos querem decretar o fim da pandemia e a convivência menos restritiva com o vírus.

Há controvérsias profundas no meio epidemiológico e ao nível do bom senso.

Em terras pernambucanas, a máscara ainda é assessório de uso indispensável em ambientes fechados e abertos. Não obstante, o lugar preferido de uso para boa parte da gente recifense, desde há muito, é abaixo da boca – o que as tornam pessoas com o queixo mais protegido em linha reta do planeta.

Não sei quanto a você, mas, da minha parte, pretendo continuar viva por muitos e muitos anos. Portanto, mesmo flanando por aí, hoje muito mais do que nas aberturas pós-quarentenas, com alguma atividade profissional em locais públicos, tenho na máscara e no álcool 70% aliados indispensáveis por muito e muito tempo. E tenho o braço disponível para quantas doses de reforço forem necessárias para manter-me ativada na imunização.

E quem quiser que tome cloroquina, faço coro no pico do frevo do Chico César.

De volta ao começo

Antecipei-me ao inverno e ao bloqueio da orla como uma das medidas de combate ao avanço da peste do século. Sacrifício. A praia é meu quintal, minha pista de caminhada, com direito à banho de água tépida, distração do olhar e, não raro, encontros fortuitos em que se joga conversa fora e se colhe empatia. É meu posto de observação, exercício do direito ao ócio e de amor à vida. Reocupado com parcimônia.

O riso cristalino da neta caçula, pernambucana, naqueles primeiros cem dias com 2 anos e meio, jamais deixou de ecoar pela casa, e o mantive, na restrição, ao alcance de uma chamada de vídeo. O auxílio luxuoso da tecnologia, meses a fio, é o meio de matar a saudade da dupla de gêmeos e do irmão, já quase rapazinho, mineirinhos, alguns dos frutos da prole – há mais três, cearenses.

Nesses dois anos, quebramos a barra uma vez, e nos abraçamos por breves  e suculentos dias. Combustível fundamental o afeto. E certamente o abraço é a saudade que dói mais.

E assim, com as netas, os netos, e o filho, e as cinco filhas nossas, as irmãs e irmãos, e sobrinhos e sobrinhas de sangue e por escolha espalhados pela vida, Brasil e mundo afora, que me acolho, que nos acolhemos, e alimentamos a alma.

Talvez por isso, ao contrário de tantos, quiçá maioria, a angústia do recolhimento, e das ausências, não me (nos) atinja de forma avassaladora. A mente continua sã. O corpo perdeu os excessos temporários dos meses de quarentena. Mesmo que celebremos já 68/65 anos de soltura por esse mundão de meu Deus, não nos privamos de movimento, embora nunca tenhamos posto os pés em academia.

Talvez por exercício de realidade. Talvez porque tenha me transformado em uma velhinha disciplinada, quando a ocasião se impõe.

Talvez por que não tema exercitar o direito de ser quem sou, sem medo de encarar a vida, sem medo de ser feliz, praguejando e sorrindo, chorando e cantando, sonhando e decidindo, me expondo e me recolhendo. Reinventar-se, recomeçar se necessário, frequências vitais.

Talvez porque desfrute o privilégio da companhia parceira do homem que eu amo, há mais de três décadas. Talvez porque me sinta acolhida pelo meu-nosso canto, pouco desfrutado em décadas de labuta, minha e dele, e também de tertúlias, sem dia nem hora para voltar para casa.

Talvez, ainda, porque seja uma sobrevivente de quarentenas particulares, de maior ou menor duração, desde tenra infância. Uma sucessão de lutos dos 5 anos até os 7 anos e meio: pai, avô materno e avó paterna se encantaram em sequência. Ao vácuo da perda, somava-se um mínimo 30 dias de recolhimento total, por decreto da cartilha familiar.

A dona morte me foi apresentada cedo, com o rapto do meu primeiro amor. Sim, Freud explica: as meninas primeiro amam ao pai, e só depois à mãe; até que, em determinado momento, se reconhecem nela como mulher e passam a amar a si próprias. Ou não. De uma forma ou de outra, isso marca a alma, forja a têmpera.

Temer a morte ou a solidão não posso. Não significa que a ela me ofereça sem razão que justifique. Muito menos que consiga abstrair-me da dor –  pessoal, familiar e coletiva – de meia dúzia de milhões de vidas colhidas na pandemia global. Centena de milhares de histórias ceifadas pelo pandemônio, vestido de praga e deboche, que se abate sobre nós neste quadrante do planeta.

Não morri no parto doméstico nem matei minha mãe, por artes de minha avó hábil parteira. Sobrevivi ao sarampo, à varicela, à catapora, ao mergulho de cabeça na fossa, literal e metaforicamente, e a crises recorrentes de alergia, à falta de diagnóstico.

Dos 9 anos aos 16 anos meu corpo se cobria de bolhas, que coçavam ou latejavam ao nível do desespero, e estouradas me deixavam em chagas. E havia o inchaço, deformante, justo em época decisiva para o desenvolvimento do amor próprio.

Em cada crise, ao menos 45 dias na solidão do quarto, vestida de mim mesma, sobre a cama forrada com folhas de bananeira, porque tecido grudava nas feridas, agravando o martírio.

Já adulta e mãe de três, depois quatro, lutei 15 anos com o lúpus. Há 22 anos mandei-o para as calendas. Gosto de pensar, e o digo, que minha mãe o levou consigo, num 1º de junho do último ano do século passado, quando fechei seus olhos e depois cantei para aliviar sua passagem. O combinado não é caro.

No 53º dia da primeira quarentena, véspera do Dia das Mães, tornei-me bisavó, neste porto recifense. Um menino, que é a metáfora corporificada do verbo esperançar de que falava Paulo Freire. A vida insiste, persiste e vigora.

Estou dentro.

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