Meu adeus a Toninho, meu primeiro herói

por Sulamita Esteliam

Faz exatamente um mês do encantamento do meu querido primo Toninho, o primeiro dos 49 que já fomos: a terceira geração qe veio ao mundo a partir das oito crias que Mãe Ceição e vovô João trouxeram ao mundo; na verdade sete, porque um não se casou e se foi sem frutificar, ao menos que a gente saiba.

Toninho foi-se aos 83 anos, no Sábado de Aleluia, após décadas de limitações fisicas decorrentes de AVCs severos. Mas o espírito estava lá: sentinela, atrevido, transgressor.

A última vez que nos vimos foi em 2019, quando estive na casa da família, em Sete Lagoas. E ele ficou todo serelepe quando me viu. Estava deitado quando cheguei, e mediu-se da cabeça aos pés. Parecia que não me reconhecia. Eura, sua primogênita, instigou: “É Sula, pai, filha da tia Dirce. Ela veio te ver”…

– Natural que, não me reconheça: estou velha, cabeça branca, né Toninho?

– Tá na medida. – respondeu.

Maria, que estava deitada ao lado dele, deu boas gargalhadas. Seu homem nunca conseguiu enganá-la. Sabia muito bem que era raparigueiro, e se antes reagia às sem-vergonhices do marido, à essa altura da vida se divertia com os arroubos de safadeza dele. Eram tão somente ensaios de resistência do lobo que habitava nele.

Havia se passado apenas dois anos do nosso encontro anterior, quando o visitara e à Maria, no sítio em Pindaíbas, distrito de Jequitibá, onde passei várias e deliciosas férias, na infância e juventude, antes e depois de ter crias. Ocasião registrada na foto que abre esta postagem, que foi clicada por Lurdeca, irmã dele, da minha geração.

Fomos em comitiva, de carona com o primo-irmão Tarciso: além de nós duas, também estavam nossa tia Maria, a caçula sobrevivente, e a Gê, irmã do Tarciso e a primeira das 28 primas; sou a 14ª dentre as mulheres e a 25ª no geral.

A visita em Sete Lagoas foi a despedida.

Toninho e Maria

Era por volta das 10h da manhã do sábado, 16 de abril, quando Eura me avisou pelo zap-zap que o pai estava “partindo para o plano astral, espiritual”.Só vi a mensagem três horas depois. Conversamos, ela me disse que a mãe estava “com muita tristeza no coração”, mas não sabia da gravidade do estado do pai, que estava internado em hospital em Sete Lagoas.

O pulmão dele estava todo tomado, já não reagia aos antibióticos. Não havia sinal de saturação. Nesse ponto, só se pode clamar por Misericórdia, e foi o que fiz.  Às 14h35m pedi notícias, e ela me respondeu uma hora depois: “Tá morto, prima”.

Dias depois me enviou a cópia da certidão de óbito, que descreve a causa mortis: “Parada repiratória, septicemia, pneumonia”. Foi enterrado no Cemitério Municipal de Jequitibá, que dista cerca de 37 quilômetros da cidade-pólo.

No dia de seu encantamento, fiz minhas homenagens no Instagram, e só agora transcrevo aqui, com alterações importantes.

Toninho e Eura
Toninho e Eura – Fotos acervo familiar

Toninho foi meu primeiro herói. E a gente sabe que os heróis estão longe da perfeição. Não obstante, a imagem dele nos atravessando o Rio das Velhas na cheia, de pé sobre a canoa e depois retornar para buscar o cavalo e cruzar as águas barrentas montado, me é inesquecível. Eu tinha, talvez, 4/5 anos.

Lá pelos 11 anos, adorava acompanhá-lo na peregrinação de porta em porta na região do Barreiro, em Beagá, e da Cidade Industrial de Contagem para vender réstia de alho e cebola, frutos da sua produção na roça.

Nasceu de Vitalina, minha primeira tia, e Geraldino, que a desposou aos 16 anos, e era coisa de 11 anos mais velho. Cresceu e se fez homem em Pindaíbas, distrito de Jequitibá, sertão roseano das Gerais veredianas.

Casou-se com Maria, uma guerreira de primeira ordem, quando Euzinha ainda era criança, sob forte oposição familiar. Juntos tiveram 9 filhos, que se desdobraram em mais de uma trezena, que já rendeu frutos e se frutifica. Juntos se mantiveram até o fim, segundo os ritos patrimatriarcais: aos trancos e barrancos, amor e tolerância.

Que seja luz e descanse em paz o nosso querido.

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