Ideia-mestra: há que celebrar a genialidade

por Sulamita Esteliam

Sabe aquela história de que uma ideia não anda sozinha nem contempla você ou quem quer que seja com exclusividade? Sim, a gente pode até não prestar atenção, mas se consciência coletiva anda meio caduca, o acúmulo de informações, responsável por fabricar as ideias é compartilhado.

Ou, como diria o neurocientista Henrique Del Nero, da USP, a criatividade é proporcional ao repertório. “A mente calcula qual a melhor jogada a partir da maior taxa de informações com a menor redundância”.

Boa, né não…?

Ainda ontem Euzinha e o maridão conversávamos sobre música e a safra de compositores e/ou músicos e/ou cantores (mulheres contempladas) que eclodiu nos anos 60: Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Nara Leão, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Alceu Valença, Belchior …

E  um pouco antes ou depois deles, João Gilberto, Martinho da Vila, Jorge Ben Jor, Tom Zé, Naná Vasconcelos, Elza Soares, Roberto Carlos, Elis Regina, João Bosco, Rita Lee, Beth Carvalho … e tantos e tantas mais.

Carol, a filha ex-caçula – para nós, não para o pai dela -, que passa uma temporada com a gente no Recife, entrou na conversa para concordar que “é difícil igualar”. Ela que nasceu ao menos duas décadas depois, mas foi criada ao som dessas vozes e acordes.

Lembro-me de uma época, ainda em Belo Horizonte, quando o som da casa pifou. Era um três em um já antigo, que Euzinha havia ganhado de presente no meu aniversário de 21 anos. Mimo dos amigos Julio, que veio a se tornar meu companheiro; João, irmão dele, e Juarez, meu então marido.

Certo é que não tinha mais conserto, não havia mais peças disponíveis no mercado, me avisara o eletrotécnico. Carol tinha uns 3 anos, e gostava de cantar, por exemplo, “go looking for flying saucers in the sky While my eyes…” , com direito a performance, caras e bocas a se olharem no bar espelhado. 

A London, London dos tempos de exílio de Caetano  Veloso – Letra completa aqui – era a sua preferida. Quando lhe dei a notícia da impossibilidade de recuperação do som, a reação dela foi irrecorrível:

– Por favor, mami, compra outro som. Eu não consigo viver sem música…

Resistir como se há de… Senti-me intimada a fazer um crediário, porque os tempos eram de vacas pastando capim ralo e seco.

Mas eu dizia das ideias que não andam sozinhas: no Portal Geledés topo com texto de Flávia Oliveira, publicado em O Globo, em que ela propõe a necessária celebração dos 80 anos dos gênios brasileiros da música, mas não apenas.

Ela foca nos nascidos em 1942, e não somente artistas da mundo musical. Compartilho um trecho:

“O Brasil se converteu tão intensamente em território de ódio e luto, inépcia e irrelevância, miséria e desmonte, que perdemos de vista possibilidades únicas de celebração. (…) É tempo mesmo de agradecer pelos 80 anos de nascimento de uma coleção de gênios que poucas nações — quiçá nenhuma — conseguiram produzir num só momento. Em 1942 vieram à luz Muniz Sodré e Nei Lopes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paulinho da Viola e Tim Maia, Nara Leão e Clara Nunes.

Eu assistia à série documental sobre Nara Leão — e seu protagonismo incontestável na vertente do samba denominada Bossa Nova —quando comecei a tomar nota dos brasileiros geniais de 1942. A capixaba, que partiu em 1989, se tornaria octogenária em 19 de janeiro. A mineira Clara Nunes, outra voz que perdemos precocemente, em 1983, chegaria aos 80 em 12 de agosto; em 28 de setembro, Sebastião Rodrigues Maia, o gigante Tim, carioca morto em 1998. São três grandes nomes da música brasileira cuja existência foi abreviada, contraponto ao aumento persistente da longevidade da população na segunda metade do século XX, até a pandemia da Covid-19 se apresentar.

Dois dos maiores intelectuais negros de todos os tempos, Muniz Sodré de Araújo Cabral (12 de janeiro) e Nei Braz Lopes (9 de maio) vieram ao mundo em 1942. Muniz é jornalista e sociólogo, pesquisador e tradutor, professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ, obá de Xangô no Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de candomblé da Bahia, sua terra natal. Escreveu ou participou de mais de três dezenas de livros. Carioca de Irajá, salgueirense, Nei Lopes é compositor e cantor, dicionarista e pesquisador de línguas e História africanas, romancista e enciclopedista, formado em Direito e doutor honoris causa pela UFRJ e pela Uerj. É autor de 40 livros; em parceria com Wilson Moreira, produziu clássicos do samba.

A Bahia nos presenteou com Gilberto Gil (26 de junho) e Caetano Veloso (7 de agosto), cantores, compositores, pensadores, parceiros. Escorpianos, Mestres Milton Nascimento (26 de outubro) e Paulinho da Viola (12 de novembro) nasceram no Rio de Janeiro. Bituca, que tem vida e obra assentadas em Minas Gerais, anunciou no último fim de semana a turnê de encerramento da carreira. Seguirá criando, tal como seus contemporâneos.

(…)”

A autora segue traçando um comparativo de épocas, e busca o saber do historiador Carlos Fico, professor titular da UFRJ: o florescimento da genialidade, acompanhado os tempos de urbanização crescente, “a experiência democrática de 1945-1964”, o crescimento da economia, da indústria fonográfica, do poder de compra do salário mínimo. O surgimento e expansão do rádio e da TV.

Vale à pena ler a íntegra de “Festa para os gênios nascidos em 1942”.

Deixo uma preciosidade, que capturei no perfil do Chico Buarque no Instagram – a foto que abre a postagem é montagem de fotos também capturadas lá:

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