O discurso e o método: Globo x Coisa-ruim

por Sulamita Esteliam

Não é porque é ano eleitoral, mas mantenho-me firme em dois propósitos: não ver televisão, nem mesmo o noticiário; não publicar nem comentar pesquisas de intenção de voto. É minha receita particular de bem-estar pessoal.

E posso garantir: não me faz a mínima falta, muito antes pelo contrário. Em 43 anos de exercício de Jornalismo, em suas múltiplas facetas, Euzinha mereço ficar, tanto quanto possível, de bem com a vida, mesmo em tempos de desespero.

Sobrevivo à revelia. E ninguém pode me acusar de ser desinformada. O essencial me chega pelas vias digitais. Este A Tal Mineira, torto e sujo, é testemunho das minhas viagens diversas pelos acontecimentos que importam. As fugas, também, são aqui assinaladas.

Pois bem, há quem se especializa em ver e analisar o noticiário televisivo, sobretudo o modus operandi da Vênus Platinada e seu noticiário “modelador” do Brasil, o Jornal Nacional.

Eliara Santana, conterrânea e colega de profissão, é especialista, no bom sentido. E até desenvolveu um blogue onde publica  suas análises sobre “comunicação, desinformação, estratégias do discurso de informação, atuação da imprensa, letramento midiático“.

O discurso e o método: é disso que se trata.

Transcrevo a mais recente: leia com atenção, porque ajuda a entender o jogo que afeta as nossas vidas, aqui e agora e doravante. Reflexão fundamental.

BOLETIM DO JN: JAIR AMEAÇA A GLOBO; A GLOBO AMEAÇA JAIR. QUEM LEVARÁ A MELHOR?

por Eliana Santana – em seu blogue*

BOLETIM DO JN: JAIR AMEAÇA A GLOBO; A GLOBO AMEAÇA JAIR. QUEM LEVARÁ A MELHOR?

No dia 31 de maio, o presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer que não vai renovar a concessão da Rede Globo e que pretende enviar um relatório ao Congresso contrário à renovação. As informações são do site A Telinha. A concessão da Rede Globo vence em 5 de outubro, três dias depois do primeiro turno da eleição. Apenas o presidente da República  – qualquer que seja – não tem poder para cassar uma concessão. Mas sendo Jair, ele pode tumultuar bastante o processo, descobrindo e jogando no ventilador coisas incômodas e atiçando a máquina de fake news. 

Em contrapartida, a Rede Globo de Televisão, em particular o JN, pode transformar a vida do candidato Jair em algo bem ruim às vésperas da eleição.

Podemos perceber o potencial de destruição com alguns elementos ainda sutis na edição de 1 de junho.

A pauta econômica, que estava sumida do noticiário, veio com força e riqueza de detalhes. Nada de números somente – vamos dar cara e vida aos números do desastre econômico. Vamos mostrar as dificuldades do brasileiro, como a inflação e a falta de perspectivas afetam a vida nacional.

E isso o JN sabe fazer. Gostemos ou não da Globo, quando quer fazer alguma espécie de jornalismo, ela faz. Nessa construção narrativa, os repertórios corrupção e crise econômica continuam a dar o tom – porque, de fato, são bastante efetivos nessa construção. Vamos lá:

ALTA DE CUSTOS E PEQUENOS NEGÓCIOS

“Ninguém tem a receita para resistir a tanto tempo de desajustes na economia”. Essa foi a abertura da reportagem que mostrou que a alta frequente dos custos está sendo uma grande dificuldade para os pequenos negócios. A dona do salão, o dono da padaria, o dono da loja de chocolate, o dono da fábrica de sorvete, a dona do restaurante… pequenos negociantes que vivem do lucro pequeno/médio de seus negócios, não são grandes empresários, estão na classe média/média e assistem à inflação corroer toda a sua expectativa de faturamento e lucro. Eleitores que, em outros tempos, podem ter votado em Bolsonaro. Pois bem, a reportagem de 3 minutos ouviu essas pessoas para mostrar como a alta dos custos dos insumos está criando grandes dificuldades para esses pequenos negócios. Segundo a reportagem, “depois dos gastos dos combustíveis, aluguel e energia, empresários mencionaram a falta de clientes e as dívidas com empréstimos”. A reportagem mencionou as várias dificuldades dos pequenos empreendedores e ligou essas dificuldades à queda da renda da população em geral e à falta de ação do governo (de modo ainda sutil). E os microempresários aparecem na reportagem para dizer que não podem repassar os custos aos fregueses, porque eles vão sumir, e que a inflação real é muito mais alta do que a que é mostrada efetivamente. E claro, não faltou o especialista para dizer que é preciso haver políticas de crédito para ajudar esse empreendedor.

JOVENS SÃO OS MAIS ATINGIDOS PELO DESEMPREGO

Na matéria sobre desemprego entre os jovens, que é a fatia mais atingida no Brasil segundo pesquisa IBGE, a destruição de sonhos foi o mote que compôs a narrativa ali construída. Os personagens foram dois jovens que representam a pluralidade da juventude brasileira – um branco e um negro. O branco, Ryan Thalis, de 21 anos,  classe média média, antes do governo Jair podia se dar o luxo de apenas estudar; agora, com a situação ficando precária em casa, pais desempregados, teve de largar o último ano da escola para trabalha emprego, mas o serviço disponível era muito longe, o transporte precário, e a segurança também; ele teve de sair do emprego, que pagava mal, e agora não acha outra ocupação; o sonho dele, revelado ali no horário nobre da TV brasileira, é “deitar a cabeça no travesseiro e saber que não vai falta nada, que a minha família está bem”. É o sonho de milhões e milhões de brasileiros. O outro jovem personagem, Daniel, um rapaz negro de 24 anos, vende balas no sinal para sustentar a família – a mulher, grávida de 4 meses, e um filho de 5 anos. Ele tem o ensino médio completo, um curso de informática e já trabalhou como atendente no comércio. Hoje, enquanto vende balas nos sinais, coloca também o currículo no vidro dos carros, porque não dá tempo de fazer as duas coisas em separado – ou trabalha, ou procura emprego.

Os dados são expostos para ilustrar a reportagem, em destaque. E a sensação que fica é a de que não há país que se construa de forma decente quando os jovens estão nessa situação.

A MANSÃO DE FLÁVIO

Quatro minutos com detalhes sobre a mansão de Flávio, o 01 de Jair: valor do imóvel, valor das prestações, tempo do empréstimo, salário dele como deputado. Segundo a reportagem, se baseando em matéria da Folha de S. Paulo, Flavio “agora diz” que a renda como advogado é que possibilitou comprar a mansão, avaliada em seis milhões de reais. A reportagem mostrou que Flávio se comprometeu a pagar parte do valor da mansão com um financiamento do banco BRB, feito com taxa reduzida, que foi questionado na justiça pela deputa Érika Kokay, do PT. Outros vários detalhes da transação foram mostrados, como a remuneração de quase 25 mil reais do senador e o valor da prestação, de 18 mil, ressaltando que ele só tem mandato até 2026 – trocando em miúdos, como vai pagar o restante do financiamento?? Também foram exibidas muitas imagens da mansão e de Flávio, além da justificativa dele de que usou também o dinheiro de uma franquia de loja de chocolates para comprar a mansão. Além disso, o repórter Vladimir Neto informou que a Rede Globo não encontrou nenhum registro recente da atuação de Flávio como advogado. Ou seja, assunto que pode render muito.

A edição de ontem, 1 de junho, foi apenas uma pílula do que a Globo pode fazer. Respondendo ao título deste Boletim, eu não tenho a menor dúvida em relação a quem levará a melhor: uma semana inteira de reportagens muito negativas de 10 minutos abalam qualquer presidente.

Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.

* Eliara Santa é doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso.

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