A mão pesada do descaso faz mais vítimas no Recife e entorno: racismo ambiental

por Sulamita Esteliam

A semana já vai pelo meio, e o sol voltou a dar as caras no Recife, depois da estiada do domingo e dois dias de chuvas intermitentes. Refresco importante para a população, sobretudo nas áreas de risco, vítimas de séculos de racismo, também ambiental.

O cheiro de mofo, de morte, abandono e desalento contaminam o ar e atravessam corações e mentes nesta cidade normalmente solar.

Fazem coro com o tormento da fome, que acompanha mais da metade da população brasileira. Aqui no Nordeste é pouco ou nada diferente. Trato do assunto na postagem seguinte.

Na madrugada da terça-feira, porém, a tristeza voltou a  desabar sobre nossa gente: no Alto Santa Terezinha, na Zona Norte, um adolescente de 14 anos ficou sobre os escombros de um deslisamento, junto com outras três pessoas feridas, mas que se salvaram. Ele não sobreviveu.

Por essas ironias enviesadas, o desabamento aconteceu entre as ruas José Amarino dos Reis e Vencedora.

Dos 129 pessoas levadas pelo desastre, há 32 crianças e adolescentes que tiveram suas vidas abreviadas em Pernambuco. O Cendhec lista nome e idade de cada uma. Para que não se esqueça. Transcrevo.

desabamento e mortes crianças
Vidas abreviadas – Foto: Marlon Diego/Cendhec

Em memória de:

1. Mikael André Oliveira da Silva – 12 Anos
2. Fabricia Regina Xavier Gomes da Silva – 11 Anos
3. Pedro Henrique Luiz dos Santos – 13 Anos
4. Beatriz Santos da Silva – 1 Ano
5. Thays Thayana Soares dos Santos – 13 Anos
6. Emily Marques Rocha de Lima – 4 Anos
7. Kaique Marques Rocha de Lima – 7 Anos
8. Helena Beatriz Souza dos Santos – 4 Anos
9. Eliza Beatriz de Souza – 1 Ano
10. Antony Miguel de Souza Silva – 0 Ano
11. Richarlyson Andre Aguiar da Silva – 11 Anos
12. Lucas Ricardo Aguiar da Silva – 9 Anos
13. Rumany Candido da Silva Junior – 7 Anos
14. Miguel André Oliveira da Silva – 4 Anos
15. Yasmim Rocha da Silva – 9 Anos
16. Camily Ferreira de Lima – 8 Anos
17. Rubem Rocha Alberto da Silva – 12 Anos
18. Paulo Gael Silva de Almeida – 1 Ano
19. Alice Rebeca da Silva – 6 Anos
20. Robert Rodrigo da Silva – 13 Anos
21. Lana Beatriz da Silva – 6 Anos
22. Felipe Gabriel Lima Farias – 4 Anos
23. Hadassa Lima da Silva – 3 Anos
24. Victor Henrique Silva de Lima – 1 Ano
25. Matheus da Silva Ramos – 16 Anos
26. Samuel Heytor Nery Moraes Pereira – 14 Anos
27. Paulo Firmino Abreu dos Santos Filho – 3 Anos
28. Lucas André Neves da Silva – 14 Anos
29. Rn de Edna Jose da Silva – 0 Ano
30. Gabrielle Sophya Calaça da Silva – 6 Anos
31. Arthur Cabral da Silva – 7 Anos
32. Lucas Daniel Nunes da Silva – 13 anos

A morte de Lucas André Neves da Silva – nome bonito e comprido para vida tão curta – eleva para 56 os óbitos no Recife, quase a metade do total de almas colhidas pelo efeito das águas sobre anos de omissão e desleixo do poder público: leia-se no plural.

Há 6.596 pessoas desalojadas e 9.631 desabrigadas no estado, a maioria na capital e municípios da área metropolitana.

No que toca ao Recife, ao que parece, a cidade “desaprendeu” a cuidar das pessoas, a gerir sua condição geográfica e geológica aquestre com prevenção.

Isso é fato, já apontado pelo A Tal Mineira – e muito bem desenvolvido em reportagem de Maria Carolina Santos, no Marco Zero Conteúdo – linco ao pé da postagem.

Também é fato que o negacionismo que conduz o projeto do desgoverno central tem sua mão pesada e sebosa na catástrofe. Necropolítica, pura e simplesmente.

Leio no Marco Zero Conteúdo, por exemplo, que o Ministério do Desenvolvimento Regional, no desgoverno do Inominável, travou a liberação de R$  102 milhões para obras de contenção de encostas nas áreas de risco nos morros do Recife. Isso equivale a dois terços das verbas que poderiam ter salvado vidas.

Significa que não é exagero afirmar que o extermínio da população periférica é caso pensado. É parte da necropolítica que é a única obra que fica para a posteridade dessa horda que ocupa o poder central. A matéria é assinada pelo colega Inácio França.

Tais recursos seriam parte de um termo de compromisso de R$150 milhões, assinado em 2012 pela presidenta Dilma Roussef para obras de drenagem, muro de arrimo e escadarias no PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, que deixou de existir. A Prefeitura do Recife recebeu apenas R$ 48 milhões.

O dinheiro seria liberado em 15 parcelas, mediante projeto técnico aprovado para cada lote de obras para que, com autorização do Ministério, a Caixa Econômica Federal aloca os recursos.  Apenas cinco parcelas foram liberadas, as três primeiras ainda no governo Dilma. Em 2017, a gestão do usurpador Temer aprovou os lotes de quatro e cinco, mas o dinheiro só chegou em 2020.

A inércia e o descaso não param aí: outros R$ 75,3 milhões, relativos a sete licitações para execução de projetos aprovados pela Caixa em 2018 e 2019, estão travados. Recife não viu a cor do dinheiro que seria usado realizar obras contratadas em 77  “setores de risco” de, pelo menos, 28 bairros da capital.

Quase todos eles, lembra a reportatem, atingidos pelas chuvas do final de maio e do início de junho  na região metropolitana. Desespero, morte e luto são consequências previsíveis, muito além da ação da natureza.

Governo Bolsonaro bloqueou R$ 102 milhões para áreas de risco nos morros do Recife

Para evitar novas tragédias no futuro, Recife precisa reaprender com seu passado

Clique para ler a íntegra da matéria do Cendhec, que atualiza os dados do racismo ambiental.

*******

Postagem revista e atualizada em 09.06.2022, às 21h10: correção de erros de digitação.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s