Márcia Tiburi escreve: ‘Um garoto de 16 anos não nasce assassino’

por Sulamita Esteliam

O filho-homicida qualificado foi treinado para ser nazista – planejou, agiu com intenção de matar e matou quatro: três mulheres no vigor da idade e de suas potencialidades intelectuais e uma menina de 12 anos; como seu algoz, com toda a vida pela frente.

Uma das vítimas era pesquisadora do Gesta – Grupo de Estudos Temáticos Ambientais, egressa da UFMG, que divulgou nota de pesar:

Postei no Instagram a foto do pai, que formou o assassino sob o culto de Adolph Hitler, sob a ideologia do ódio, sob a cultura das armas e da violência. O mantra da barbárie que conduz parte da sociedade delirante.

O genitor e instrutor do garoto-homicida é PM e cultiva o nazismo – Foto: Instagram

Eis a verdade que não quer calar, e que não pode ser silenciada. Um amigo completou: o filho tem 16 anos, é inimputável; não é o caso do pai-irresponsável.

Há horas e situações em que se é obrigada a apontar o dedo: sim, desta vez, a culpa é do pai.

A propósito, Márcia Tiburi, filósofa e escritora, autoexilada em Paris, nos convida à reflexão em artigo lapidar. Recebi num grupo de jornalistas no Zap, e transcrevo:

Imagem capturada no Instagram/@marciatiburi

Um garoto de 16 anos não nasce assassino

por Marcia Tiburi

Um garoto de 16 anos não nasce assassino.

Um adolescente de 16 anos não cresce desejando se tornar um assassino em série.

Um menino do interior do Espírito Santo não acorda um dia pela manhã e decide se tornar um fascista.

O filho de um policial – ou de um não policial – não nasce nazifascista.

O neto, sobrinho ou primo de qualquer um não cresce sabendo manipular armas.

Um menino que vai à escola não nasce sabendo atirar.

Um menino que joga bola não nasce cheio de ódio.

Um garoto que tem problemas psicológicos – como tanta gente tem nesse mundo tão difícil de sobreviver emocionalmente – não planeja matar colegas e professores.

Um menino que nem descobriu a si mesmo não conhece uma suástica sozinho.

Ele não nasce camuflado.

Ele não nasce vazio de reflexão.

Ele não nasce vazio de emoção.

Um garoto de 16 anos só pode se tornar um assassino em meio a uma cultura de ódio. A cultura na qual o ódio é um valor.

A cultura em que as armas, como poderosos instrumentos de ódio prático, são tratadas como banais, como brinquedos.

A lógica do assassinato – que parece não ter lógica nenhuma – é a racionalidade do fascismo do qual o nazismo é a expressão mais cruenta.

A apologia da morte que fez história no fascismo europeu segue no Brasil onde pululam células e grupos fascistas e nazifascistas. Jovens estão sendo aliciados por agentes do ódio que encontram solo fértil para avançar com seu projeto de matança em massa.

O garoto que destruiu a vida de pessoas por ele assassinadas e destruiu a vida das famílias dessas pessoas, destruiu a sua própria vida e a vida de sua família.

Não há palavras que possam consolar familiares e amigos das vítimas que seguirão traumatizados.

O Brasil está de luto porque o império da morte avança com a irresponsabilidade de instituições que devem coibir e punir os aliciadores de menores. Os agitadores fascistas e todos os que incitam a violência são responsáveis.

A cultura do ódio se beneficia da cultura da irresponsabilidade.

Só um projeto envolvendo educação, cultura e meios de comunicação para a paz e a não violência podem construir um futuro em que a catástrofe que a cidade de Aracruz acaba de viver não se repita.

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