Gracias, Francisco!

O primeiro latino-americano a tornar-se papa, fez um pontificado inovador

por Sulamita Esteliam

Levei um baita susto quando, lendo notícia sobre o encantamento, no conceito do Mestre Rosa, do papa Francisco, constatei a hora da sua passagem, aos 88 anos: 2h35 da madrugada. Mera coincidência ou será que estou na lista de encantamentos em sequência?

Explico: despertei do nada, no meio da noite. Havia me deitado por volta das 23h e pouquinho, depois de tomar duas colheres de polpa de maracujá, com semente e tudo, e um antialérgico, antes do banho.

Dormir rápido e acordei sem ter entrado em sono profundo; é o que parece. Tive que me esforçar para manter os olhos abertos ao esbarrar nos óculos sobre a mesinha de cabeceira. Peguei o celular, então era isso: estava ligado, o que interfere no meu sono.

–  “Deve ser umas 3h e qualquer coisa”,  pensei, hora do Arcanjo Miguel, que anda me beirando, faz tempo; mas eu sou Damabiah, da falange de Gabriel, o anunciador. Esforcei-me para manter os olhos aberto e conferir a hora: 2h35.

Ôxe! Tomara que não seja Creonte, o barqueiro precisando de uma mãozinha. E 21 é aniversário da minha irmã Zeíca, a caçula, sobrevivente de um atropelamento, há 10 anos na cama. Fiz uma prece e voltei a dormir.

Quando vi o noticiário pela manhã, quedei-me, estupefata: logo o Francisco, e na virada da Páscoa! É muita deferência para com essa reles ajudante.

Ando atabalhoada com mil e um afazeres domésticos, e outros tantos relativos à divulgação de “O Livro de Dora e suas Irmãs” e que tais… No Domingo de Páscoa, sequer segui o rito de desejar paz e bem no renascimento de quem se liga na minha rede de amizade, que não é pequena, graças.

O maridão está em Beagá, em apoio às demandas de mudança da Juba, sua filha mais velha, e o marido. Gabriela, minha filha que mora no Recife, está em Fortaleza, acompanhada de filhos, filha e nora. Foi a trabalho e aproveitou para celebrar o aniversário com a tropa toda.

Minha terceira irmã, Lili, passou rapidamente por aqui, no início da Semana Santa, a caminho de Japaratinga, nas Alagoas. Ela, a filha Natália, minha sobrina-afilhada, o marido dela e o neto, o espertíssimo e gentil sobinho neto, Caio Cezar.

Ele me chama de “vovó Suna” e tem um abraço macio e justinho, que dá vontade de não se desgarrar…

Deixou sua assinatura em mais de um desenho pela casa, determinado a não deixar passar em branco a oportunidade de figurar na “galeria”, como ele de certa forma definiu as paredes da minha casa – do escritório à cozinha:

– Puxa, mas quanta arte! – e logo procurou papel e caneta para colocar sua marca. Lápis de cor é o que não falta na mesinha de centro da sala. Ainda não tem 5 anos a pecinha rara.

Chegaram na manhã de terça. Pegaram a estrada logo após o café da manhã da quinta. Betinho, o avô, nem viu a cara da Praia de Boa Viagem, que ele ama, pois chegou na noite anterior. Nós fomos e Caio se esbaldou.

Foi vapt-vupt, a praia e a visita! Pena para mim, que gosto tanto de movimento.

Resumo da ópera: a Páscoa para mim foi de convivência comigo mesma. Nada a reclamar: tenho sempre muito com que ocupar-me e, ademais, ficar sozinha, circunstancialmente, favorece o refletir sobre o significado de estar aqui. Faz-me bem, quanto mais que é raridade.

Pois voltemos ao Jorge Mario Bergoglio, o argentino que se revelou O Papa realmente pop: voltado para a defesa da justiça social, do direito dos pobres a uma vida digna, da autodeterminação dos povos.

As charge do amigo Genin, de 2016, e do Latuff, em cima da perna, como se diz no jargão das redações, dão a medida do seu legado. Gracias, Francisco! Ambas imagens capturadas nos respectivos perfis no Instagram. Obrigada, queridos cartunistas. 

Acabou sendo uma boa surpresa o Francisco, levando à risca sua vocação jesuística. Quando assumiu, a expectativa era de que seu papado seguisse a linha conservadora.

Todavia, muito antes pelo contrário, seus 12 anos à frente da Igreja Católica foram marcados tanto pelo combate à desigualdade e à intolerância, direitos humanos inalienáveis.

Seus pronunciamentos sobre o genocídio de crianças na Faixa de Gaza pela máquina de guerra de Israel, e por tabela dos Estados Unidos, ficam para a História.

Assim como não se furtou a criticar a postura avessa de certos juízes, como aqueles que condenaram Lula sem provas e sem o devido processo legal.

Fez também reformas que abriram os cânones eclesiásticos e dos seguidores aos novos tempos; para desagrado da linha dura e mea culpa dos progressistas de plantão.

Euzinha, mesma, aqui no blogue, tempos atrás, mais de uma vez, reconheci o erro de avaliação. Dei a mão à palmatória, sem pejo, ou não poderia manter-me na trincheira do combate à desinformação e à mentira.

O fato é que, sem Francisco na tribuna diplomática, os pobres do mundo ficam um tantinho mais órfãos. Sob esse aspecto, é torcer para que a escolha do sucessor não imponha retrocessos ao seu trabalho frente à Igreja Católica.

Mais sobre o Papa Francisco aqui no A Tal Mineira:

5 comentários

  1. muito bom dia

    Você sempre escreve palavras que eu gostaria que fossem minhas.

    É sempre um prazer muito grande ler o que você escreve

    Perdermos alguém extremamente importante para a humanidade. Mesmo sabendo que ninguém dura para sempre. Francisco vai fazer muita falta.

    Abraço fraterno.

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