De pai pra filho e de filho pra pai

por Sulamita Esteliam

Não é tarefa fácil encontrar poesia em homenagem a pais. Tentem pesquisar na rede, e entenderão o que tento lhes dizer. Tarefa menos difícil, talvez, seja encontrar pais dignos do nome. Sei que muitos podem discordar do que afirmo. Quem ama poesia, se não se lembra dos versos, certamente, já os leu na pena de Drummond:

DISTINÇÃO

 

O Pai se escreve sempre com P grande
em letras de respeito e de tremor
se é Pai da gente. E Mãe, com M grande.

O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.
Com ela, sim, me entendo bem melhor:
Mãe é muito mais fácil de enganar.

(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

Meu pai, Guilherme, aos 18 anos, quando eu sequer era intenção…

Mas, sempre tem um mas… Euzinha, que cresci alimentando meu pai afetivo, traçando-o em meu imaginário, a partir do pouco que com o real convivi – tão cedo de nós se perdeu, e foi levado a habitar estrelas – digo: conheço vários Pais, assim com letra maiúscula. Quiçá em sentido inverso aos versos do Poeta, pois que a tentativa de interpretar o que outro escreve carrega a suspeita do autoengano, eivado da prática de narcisismo intelectual.

Alguns desses Pais, que conheci e tenho convivido vida afora, de tal forma se empenham no ofício, que até já cometi poetagem para celebrá-los – publicada, aqui no blogue, ano passado. Costumam merecer o epíteto de pãe. Sentiram a força do conceito?

Na busca de agora, testei os Poetas de Marte, teia pernambucana que reúne poetas de vanguarda. Plano de altos vôos traçado por D.Everson, poeta e agitador cultural, a quem tive a honra de compartilhar viagem na loa a Márcia Maracajá no Nós Pós Mostra PE 9/Casa Mecane. D. Everson e mais Fred Caju, outro poeta e agitador cultural, do Sábados de Caju  e Cronisias – piloto, também, do Castanha Mecânica. E mais Isadora Dias, e Lorena Arouche, e Francisco Mesquita. Ainda não consegui escrever sobre, mas o blogue da homenageada publicou a síntese fotovideográfica – aqui.

Voltemos aos Pais e aos Poetas de Marte. Olhem só o que encontrei por lá:

Confrontos e confluências

A meu filho Alberto
Se sou teu pai, e me julgo
pai maior, nessa honraria,
honra igual tenho em ser teu
irmão menor na poesia.
(Benedito da Cunha Melo)
O PRESENTE
O que hoje recebes
e não podes pegar, guardar
em panos e papéis laminados,
é imperecível,
presente onipresente.
Estás com ele na chuva
e não temes que se desfaça.
Estás com ele na multidão
e não o escondes dos mutilados.
O que não existe para os homens
deles estará protegido,
o que os homens não vêem
não poderão espedaçar.
Eis o que não te denuncia
porque não tem face
nem volume para ser jogado no mar.
Eis o que é jovem a cada lembrança
porque não tem data
e série, para envelhecer.
O que hoje recebes
não pode ser devolvido.
(Alberto da Cunha Melo)

 

5 comentários

  1. Alberto era um danado, outro dia o irmão dele me mostrou uns versos do pai, pense numa família que tem o verso no sangue =]]]
    Obrigado por lembrar do planeta vermelho e dos abitantes letrados de lá. Tb foi um prazer connhecer vossa pessoa, espero que nos encontremos em outros eventos literários Recife a fora. Abraços.

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