Descaso não é fatalidade, é crime

por Sulamita Esteliam 

Darcy Ribeiro escreveu uma frase, que foi sua filosofia de vida: “Temos duas opções: seremos todos indignados ou resignados, e eu não vou me resignar nunca”.

Esta frase tem iluminado meus caminhos e, acredito, de boa parte da minha geração. Felizmente, os fatos recentes apontam, a juventude, que andou amorfa, segue trilha idêntica, Brasil e mundo afora.

Cidadão pernambucano antenado e compromissado com as boas causas, meu amigo Ruy Sarinho, jornalista e homem de rádio, é da minha geração e é desse naipe. É ele que nos brinda com o artigo,  abaixo, que é um convite à reflexão, a partir de tragédia recente no Recife, fruto do descaso.

Transcrevo e agradeço, penhoradamente:

Um fio de alta tensão no meio do caminho

Davi era casado há três anos com Ingrid, uma islandesa que conheceu nos Estados Unidos - Foto: acervo familiar, capturada na internet
Davi era casado há três anos com Ingrid, uma islandesa que conheceu nos Estados Unidos – Foto: acervo familiar, capturada na internet
A morte de um advogado de apenas 37 anos de idade*, vítima de um choque elétrico em um fio de alta tensão pendurado no meio da rua, à rede elétrica, no bairro nobre de Boa Viagem, jamais pode ser vista como uma fatalidade (Capa 2, Jornal do Commercio, quarta-feira, 12 de junho de 2013).

Fico imaginando o que acontece nos subúrbios recifenses e da RMR, nas cidades do interior e em todos os lugares habitados pela pobreza invisível, esquecida pela elite.

Não tem nada de fatalidade!

Apenas revela a irresponsabilidade e omissão da Companhia Energética de Pernambuco, a Celpe; que se move, exclusivamente, na direção de lucros fabulosos para enviar dólares aos patrões espanhóis, como denunciou, ano passado, o governador Eduardo Campos.

Desde que a empresa foi privatizada, manutenção deixou de ser norma e passou a ser vista como despesa desnecessária, diminuição de lucros. Nunca, como investimento para prestação de um serviço de melhor qualidade, mais eficiente, mais seguro.

Tudo foi terceirizado.

Hoje, a Celpe só aparece quando quebra alguma coisa no meio da rua.

Anteontem, mesmo, na rua em que moro, Jornalista Edson Régis, no Jardim Atlântico, em Olinda, por volta das 23:30, o fio de um poste do lado oposto à minha casa pegou fogo e depois caiu.

Felizmente, faltou luz, e o fio ficou lá, sem energia – que somente voltou às 04:20 da madrugada de ontem.

Ontem à noite, por volta das 20:00, faltou luz, de novo. Basta uma chuvinha de nada, para faltar luz, dar um apagão.

Sabe por quê?

Os transformadores estão podres, enferrujados. As bananas nos postes, também.

Gringo acha que manutenção é despesa desnecessária, principalmente, para prevenir “fatalidades” em benefício de nordestinos, pernambucanos, um povo menor.

Na Avenida Agamenon Magalhães, por exemplo, no trecho local à esquerda que corta Santo Amaro, antes da Avenida Norte, tem um transformador, num poste, que está podre, todo enferrujado. Isto, já há alguns anos. Qualquer dia, explode e cai, matando mais gente.

Será mais uma fatalidade?

Ou irresponsabilidade, omissão e gula financeira?

Pernambuco devia ter parlamentar raçudo para lutar pela re-estatização da Celpe.

Energia elétrica não é, só, para dar lucros exorbitantes a empresários.

Energia é um serviço público essencial para a qualidade de vida da população e segurança do país. Tem que ter o dedo do Estado, compromisso político com a totalidade da população.

Jamais, pode ser moeda de capitalistas neoliberais que faliram o mundo afora, como Espanha e Portugal e já ameaça até a Suécia, que já começa a sofrer com o fracasso da receita globalizante imposta pelo Tio Sam.

Prefiro a Celpe do tempo do Estado, tão bem retratada pelo Mestre Vitalino, na sua fabulosa arte no barro. Quem não se lembra daquele boneco de barro, com a roupa da Celpe, pendurado num poste, no meio da rua?

Hoje, assistir a uma cena daquela retratada por Vitalino, em qualquer rua de Pernambuco, é a mesma coisa que encontrar uma cobra com pernas ou uma mosca branca, no meio do caminho.

A matéria do Jornal do Commercio informa, no final, que “a Celpe enviou nota comunicando que está apurando as causas da ocorrência. A empresa informou que prestará o auxílio necessário à família da vítima e se colocou à disposição”.

Será preciso mesmo, ainda, apurar as causas?

Olinda, 12 de junho de 2013

Ruy Sarinho
(Cidadão pernambucano, jornalista)

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Davi Lima Santiago Filho, antes de ser advogado, era músico. Era baterista da banda de rock Jorge Cabeleira, formada nos anos 90 e agora retomada. Preparava-se para lançar CD e excursionar com o grupo, em comemoração aos 20 anos da formação.

Davizinho, como era tratado pelos íntimos, foi eletrocutado na noite de terça-feira, quando voltava para casa, retornando de passeio com sua cachorra. Na Visconde de Jequitinhonha, beira-canal de Setúbal, encostou num fio desencapado. Foi socorrido pelo Samu, mas não resistiu.

Foi enterrado na tarde de hoje no Cemitério morada da paz, em Paulista, na Região Metropolitana do Recife.

Não é, porém, a primeira vítima de acidente desta natureza no Recife em época de chuva. Em janeiro de 2011, por exemplo, um homem morreu eletrocutado na Zona Oeste da cidade, depois de temporal de verão. Era catador de papel – aqui no blogue

capa_jornalDP 13.06Nesta quinta, as edições de dois dos principais jornais pernambucanos estamparam na capa o dever de casa: o viés do descaso. Repórteres vasculharam a cidade e encontram riscos elétricos nos quatro cantos da capital, que está sob água desde a quarta-feira. Corroboram o artigo do meu amigo Ruy.


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