Serviço à la carte ou marmita pronta

por Sulamita Esteliam

“O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho (…)”  

                           Guimarães Rosa, Sagarana

As ruas gritam e o Congresso fica ou se mantém esperto? - Foto capturada na Agência Câmara
As ruas gritam e o Congresso fica ou se mantém esperto? – Foto capturada na Agência Câmara

De repente, o Congresso Nacional ganhou uma pressa sem tamanho. Levou a cabo em dois dias o trabalho que, no andar corriqueiro da carruagem parlamentar, levaria seis meses para dar conta. Pressionado pela voz das ruas, ainda que se dê ao luxo de ressentir-se, segundo a mídia, das atitudes da presidenta Dilma, o Legislativo mostra-se pró-ativo – aqui, aqui e aqui.

A limpeza da pauta, todavia, pode vir jogar poeira por sob o tapete. Dou um exemplo: o projeto de lei que torna hediondos os crimes de corrupção, aprovado na quarta última pelo Senado, e que ainda precisa passar pela Câmara, tramitava desde 2011 e não mexe no fundamental: a responsabilização das empresas e/ou do corruptor. O que cuida do todo, enviado por Lula em 2003, continua na gaveta, onde dormem outros projetos no mesmo sentido, e com idade assemelhada.

O debate da hora é sobre a proposta presidencial de plebiscito para definir a reforma política, que Dilma, com o pé no acelerador, quer encaminhar ao Congresso na próxima semana. O governo conseguiu a adesão da base aliada, mas a oposição chia, quer referendo – e a mídia junto ou à frente.

Não é questão semântica. No plebiscito, a população opina sobre o conteúdo da proposta de lei a ser votada pelo Congresso. No referendo, o Parlamento elabora e vota, depois submete à aprovação popular. É a diferença entre a opção do cardápio e a marmita pronta.

Enquanto isso, as ruas troam, a virulência policial campeia e coleciona vítimas:  na Comunidade da Maré, no Rio são 15 mortos e dezenas de feridos na terça; na manifestação em Beagá, na quarta, o saldo é de pelo menos uma morte; em Fortaleza, feridos a rodo.

Até no Recife, onde a PM que parecia domesticada nas primeiras manifestações – talvez porque o alvo de então parecia ser o governo federal -, o coco rodou no protesto de ontem, quando a massa caminhou para as bandas da sede provisória do governo do estado.

Os confrontos acabaram inviabilizando a entrega ao governador de documento com as reivindicações da Frente de Luta pelo Transporte Público. Clique para ler.

Três estudantes, duas meninas e um rapaz, foram presos, arbitrariamente, e só foram liberados nesta quinta, depois de grande mobilização – aqui e aqui.


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