Um bruxo chamado Darcy Ribeiro

por Sulamita Esteliam
Assim era Darcy Ribeiro: pura alegria de viver - Foto capturada na rede
Assim era Darcy Ribeiro: pura alegria de viver – Foto capturada na rede

Nesta véspera do Dia das Bruxas e do Saci, encontrei uma crônica linda sobre um bruxo querido: Darcy Ribeiro imortal. Escreveu-a Eric Nepomuceno, para Carta Maior. Uma descrição emocionada e apaixonante do conterrâneo, de Montes Claros, apaixonado pelo Brasil, pelo povo brasileiro, pelos indígenas, pelo mar, pela simplicidade da nossa gente, pela vida.

O autor conta que Darcy, certa vez, disse que “Na América Latina só temos duas saídas: ser resignados, ou ser indignados; eu não vou me resignar nunca”.

É uma das minhas preferidas do mago, que só descobri quando entrei para a faculdade. Li, praticamente, todos os seus livros – romances e tratados. A frase abre um dos capítulos de meu primeiro livro, único editado, Estação Ferrugem, Vozes/Prefeitura de BH, 1998.

Em maio deste ano, a TV Senado exibiu um documentário sobre Darcy, com depoimentos costurando a história. Quem conta é o Escrevinhador, Rodrigo Vianna, em uma Sopa de Letras que traz nosso gênio como ingrediente principal. Um deles ajuda a entender quem ele foi:

“Pouco tempo antes de morrer, Darcy – percebendo que o fim se aproximava – disse que queria ficar em casa. E pediu: “Doutora, estou com uma vontade de dar uma aula, a senhora não me traz uma criança pra eu dar a aula?”. Deu aula a uma criança de 9 anos.  Falou sobre o Brasil, sobre a importância de respeitar todas as culturas. Era o testamento que ele queria deixar.”

Transcrevo o referido texto-homenagem de Éric Nepomuceno, organizador, também de coleção de bolso da obra de Darcy. Sem mais delongas:

O meu Darcy

Darcy disse certa vez: Na América Latina só temos duas saídas: ser resignados, ou ser indignados; eu não vou me resignar nunca. Não fez outra coisa na vida

Eric Nepomuceno

Darcy RibeiroDescalço.

Darcy Ribeiro, até nisso, foi embora como viveu. Chegava em casa e tirava os sapatos. Dizia que era por causa de seu sangue índio. Eu sempre achei que não: que era para sentir o chão nos pés.

Muito diferente que sentir os pés no chão: sentir o chão nos pés, porque era aquele chão, o da realidade, que ele quis mudar, transformar, como quis transformar o Brasil e a América Latina. O mundo.

No dia em que foi eleito Senador da República, vestiu um terno branco, de linho formidável, e ficou andando pela sala do apartamento de Copacabana, sorrindo agitado e vendo o mar, andando e andando – descalço.

Na noite do dia 31 de dezembro de 1995, Darcy estava na varanda desse mesmo apartamento, olhando a multidão espalhada pela praia e pelo asfalto e pelas calçadas da avenida Atlântica.

Das alturas daquele quinto andar ele contemplava tudo, os olhos de aviador percorrendo as pessoas, as ondas, as embarcações iluminadas.

Quando faltava pouco para a virada do ano duas amigas chegaram na varanda, aproximaram-se da cadeira em que ele estava sentado e colocaram no chão um grande balde prateado, desses que são usados para manter garrafas de vinho geladas.

No balde havia água do mar Atlântico e alguns punhados de areia. Quando ouviu o foguetório da meia-noite ele mergulhou os pés no balde.

Darcy queria virar o ano com os pés no mar. Ele não podia mais ir ao mar. Deu um jeito fazer o mar ir até ele. Até seus pés descalços.

Também assim quero me lembrar de Darcy Ribeiro para sempre. Também assim: Darcy acreditando profundamente na capacidade transformadora do bicho humano, rejeitando limites, desafiando barreiras, convocando desafios. Não era homem de sonhar com pouco. Sonhava grande, e se lançava aos sonhos para transformá-los em realidade e assim, mudar essa realidade que estava ali, cercando, imposta.

E lembrar também o que ele disse certo dia de santa ira e lúcida rebelião: “Na América Latina só temos duas saídas: ser resignados, ou ser indignados; e eu não vou me resignar nunca”.

Não fez outra coisa na vida além de traduzir essa frase-guia em cada ato, cada ousadia, cada sonho.

Convivi com ele durante vinte e dois anos. Um convívio denso, rico, intenso. Aquele furacão de vida, sonhos e ideias, varreu da minha frente, durante esse tempo todo, os fantasmas das derrotas e das desesperanças.

Fazia parte de meu cotidiano a inquietante sensação de conviver, lado a lado, com alguém que nasceu no mesmo ano de meu pai e conseguiu ser mais jovem que meu filho. Esse vazio, ninguém nem nada poderá preencher, jamais.

De todas as imagens deixadas por ele, de todas as memórias, acalanto uma, definitiva.

Certo fim de tarde de um sábado, ele saiu do escritório de Oscar Niemeyer, na avenida Atlântica. Vestia um terno branco formidável, de linho, e foi caminhando devagar pela calçada até o automóvel que o esperava.

Do mar, vinha uma brisa certeira. Visto lá do alto, o paletó branco esvoaçando, caminhando devagar, Darcy Ribeiro parecia um veleiro desafiando os ventos, rumo a um futuro que só ele poderia adivinhar.

Guardo essa imagem e guardo a certeza de que o porto, aquele porto, é preciso merecê-lo.

Darcy Ribeiro não perdeu, não foi derrotado. Mudou de rumo.

Onde quer que esteja, continua como sempre: indignado. E descalço.

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Tem mais Darcy aqui, em artigo de Paulo Klass, e também aqui, por Voltaire Shilling


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