Túnel do tempo: 13 de dezembro de 1968

por Sulamita Esteliam
Arnaldo Cardoso Rocha, mineiro, 23 anos,  militante da ALN. Dado como desaparecido, foi assasinado pela ditadura em 15.03.73, comprova Comissão da Verdade - Foto capturada em Carta Maior
Arnaldo Cardoso Rocha, mineiro, 23 anos, militante da ALN. Dado como desaparecido, foi assasinado pela ditadura em 15.03.73, comprova Comissão da Verdade – Foto capturada em Carta Maior

Dia extenuante, e a noite mal começou.

Havia programado escrever algo sobre os 45 anos do AI 5, assinado em 13 de dezembro de 1968, uma sexta-feira, como hoje.  Quase desisto. Cutucam-me, porém, algumas reminiscências que me impedem de ir para a cama sem tocar em assunto elementar para o nosso sentimento de Nação.

Não vou posar de garota precocemente politizada. Havia algumas e alguns à época, que o resgate da memória registra. Não era o meu caso, não naquele dia daquele dezembro.

Então, era simplesmente uma garota que completaria 15 anos daí a 15 dias, e que estava muitíssimo preocupada como ficaria no vestido que usaria no baile de formatura do ginásio (a segunda etapa do fundamental daqueles tempos) no dia seguinte.

O vestido seria a embalagem vital para o golpe certeiro naquele rapaz que lhe atiçava os hormônios, lhe tirava o sono e já lhe custara algumas lágrimas. Faltou pouco, muito pouco.

O sábado era o seu dia D. Um dia depois do Dia D do Brasil, mas disso a garota não sabia nem tomou conhecimento.

O vestido era de zibelina de seda perolada. Um belo decote em V, emoldurado com renda de guipir e gola sobreposta, que finalizava em pontas nas costas a destacar uma pequena gota. Desenhado e costurado, com esmero, pela mãe. Mini, como pedia a época e a idade.

Os sapatos eram um capítulo à parte: scarpin em pelica perolada, com um laço fixado sobre o dorso com um grande botão coberto.

A expectativa era de Cinderela periférica, mal se importando com o custo das prestações a arquearem seus sonhos, e as costas da mãe viúva, meses adiante e a fio…

O nível de percepção sobre realidade financeira familiar, fácil deduzir, era bem próximo ao zero – semelhante à da consciência sócio-política. Todo mundo tem direito a ser feliz, em qualquer época e lugar. O acesso à informação era do tamanho que lhe cabia.

Nesta sexta-feira, 13 de dezembro de 2013, não posso culpar a mulher que roça a terceira idade, de ter adolescido no tempo e circunstâncias em que lhe era dado fazê-lo.

Nem posso culpar-me de ter dado pouca atenção ao professor Sílvio, de História, que tentava botar algum colírio em meus, nossos, olhos para enxergar a abóbora sob a carruagem.

O professor Sílvio, pensando bem, é o primeiro desaparecido de que tive conhecimento. Desapareceram com ele da escola, antes mesmo do Ai-5. Nunca mais soube dele.

Outros desaparecidos, e mortos, mais de uma centena deles, povoaram meus dias e habitaram meus pesadelos anos depois. Razões profissionais e afetivas. Exorcizei-os para adicionar à alquimia do meu primeiro livro, Estação Ferrugem, 1998 -Vozes/Prefeitura de BH.

Na periferia onde cresci, na região operária de Beagá/Contagem, em Minas Gerais, o general que promulgou o Ato Institucional nº 5, de incondicional terror de Estado, ainda dá nome à avenida principal – a Presidente Costa e Silva. Endereço, aliás, da biblioteca regional Oeste.

Incompreensível. Tanto mais que outra rua do mesmo bairro, há anos, cedeu o nome do grão-torturador da CIA para o de um torturado, morto e desaparecido da ditadura brasileira: de Dan Mitrione, passou a José Carlos da Matta-Machado, por artes do então vereador Betinho Duarte e de Helena Greco – para sempre gloriosa onde quer que esteja -, ambos do PT de tempos áureos.

Quero celebrar aqui, a confiança de que sempre é tempo de reparação. Prova disso é o olhar em torno deste nosso Brasil. Apesar daqueles que tentam ressuscitar as trevas do totalitarismo, e não são poucos, mas são insuficientes. Não passarão.

As notícias que vicejam neste 13 de dezembro, dão conta de que a democracia resiste: duas escolas, uma em Salvador/BA, outra no Rio de Janeiro, decidiram, no voto, trocar o nome de ditadores por personas gratas.

Na capital da Bahia, sai o general Emilio Garrastazu Médici e entra o guerrilheiro Carlos Maringhella. No Rio, o poeta, ator e militante social Abdias do Nascimento substitui o general Costa e Silva – mais aqui.

Viva!  E que o exemplo se frutifique.

PS: Recomendo, penhoradamente, que ouçam a entrevista que está aqui. Ainda que venha do Estadão,  e seja de cinco anos atrás, é um resgate bem interessante do que é e significa o AI-5 na História da política brasileira. Acessei a partir do Twitter, via Socialista Morena, blogue editado pela Cynara Meneses, repórter de Carta Capital.

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Postagem revista e atualizada dia 14.12.2013, às 13:13, hora do Recife.


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