A vida como ela é ou meninas no sinal de trânsito

por Sulamita Esteliam
Imagem capturada em pri-educacaoinfantil.blogspot
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Esta manhã, no sinal de trânsito próximo à minha casa, enquanto aguardávamos o verde para dobrarmos a esquina, uma menina negra, de seus 5 anos, talvez, nos ofereceu goma de mascar: “Compra pra me ajudar…” Não compramos, embora sempre tenha dúvida sobre a melhor atitude em situações como essas.

A menina se retirou saltitante para a calçada, indiferente à cena que nos constrangia; como se não passasse de uma brincadeira, perambular entre os carros a colecionar recusas. Estava descalça, mas vestida com dignidade, os cabelos  presos em diferentes trancinhas atacadas com chiquinhas coloridas. Não parecia criança de rua nem havia sinais de subnutrição. É possível que o Bolsa Família tenha culpa nisso.

Na fila paralela de carros, uma jovem de presumíveis 20 anos jogava água no pára-brisa de um veículo. Vi na garota os traços da menina. Fácil deduzir que se tratava da mãe, que também revelava cuidados na silhueta e no trajar …

Pus-me a imaginar o que leva uma moça saudável, bonita e aparentemente vaidosa a lavar pára-brisas num sinal de trânsito. Muito possivelmente tem a ver com nível de escolaridade – a taxa de analfabetismo dentre brasileiros com 15 anos ou mais ainda é altíssima, assim como o analfabetismo funcional; sobretudo no Nordeste, que registra também o maior índice de queda nos últimos anos, segundo o IBGE – aqui.

Pensei que, muito provavelmente, não tinha com quem deixar a menina, que provavelmente está em férias da escola. Ainda assim, comentei com meu companheiro, sobre o absurdo de uma criança exposta ao risco de um sinal de trânsito, no mínimo, de atropelamento. E ele me disse: “Não adianta. A gente não vai conseguir mudar o mundo. Pelo menos esta parece estar acompanhada da mãe verdadeira”.

Esse naturalismo conformista ou essa certeza da impotência me deixa avexada. Mas fato é que o combate ao trabalho infantil precisa distinguir entre a exploração e a cooperação familiar. O diabo é que a linha que separa uma da outra é muito tênue…

Contei a história para um colega de trabalho. E ele se lembrou de uma garota que conheceu, ainda menina, lavando pára-brisas em determinada esquina da Boa Vista, no centro do Recife.  Passaram-se alguns anos, e lá estava ela já adolescente e, em pouco tempo, estava grávida, e alguns meses mais continuava no mesmo lugar, agora com a filha nos braços e depois com a criança pela mão. Cresceu e se multiplicou no sinal de trânsito.

Será este o legado para a descendência dessas garotas?

Leio na Agência Patrícia Galvão que 16% das mulheres brasileiras com idade de 20 a 24 anos pariram antes dos 18 anos. São dados do relatório Estado da População Mundial em 2013 do Fundo de População das Nações Unidas. As garotas dos sinais de trânsito de Boa Viagem e da Boa Vista, no Recife, se enquadram nas estatísticas.

Ainda que a incidência de gravidez precoce venha diminuindo nos últimos 10 anos, de acordo com o Ministério da Saúde – eram 750 mil no ano 2000 e foram 536 em 2012 – os números ainda são muito altos. Particularmente dentre a população mais carente, sempre mais vulnerável à falta de perspectivas. E, aqui, mais uma vez, a educação faz a diferença.

Outro aspecto que choca, e que a matéria da Agência EFE também aborda, é que a gravidez precoce, muitas vezes, é fruto da violência sexual. Meninas abusadas por padrastos, pai ou outros parentes próximos. O medo, o desconhecimento das leis, a pressão dos tabus sociais e religiosos, não raro, agravam a situação.

As alternativas, todas, são de alto risco para essas garotas: cair na esteira de uma fábrica de anjos, ao invés de buscar o amparo judicial para um aborto legal; parir quando o corpo não está preparado; e se sobreviver, cuidar da criança como se brincasse de boneca.


3 comentários sobre “A vida como ela é ou meninas no sinal de trânsito

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