Trabalho na contramão do descartável

por Sulamita Esteliam

Revista Bancarios_Fev 2014Compartilho reportagem que fiz para a Revista dos Bancários, edição de fevereiro. Traz histórias de profissionais que trabalham na contramão da cultura do descartável, e o fazem com amor. O trabalho me deu muito prazer. Conhecer gente, ouvir e contar histórias das pessoas, aliás, é a essência do Jornalismo, e é o que faz a profissão valer à pena.

A matéria encerra um período de 14 meses na equipe de comunicação da entidade sindical dos bancários em Pernambuco. Um retorno forçado, diga-se, por medida judicial de reintegração por estabilidade acidentária.  Em casa de ferreiro…

Sou portadora de doença ocupacional. Adquirida, quando fui dispensada há quatro anos, ao longo de 12 anos  de trabalho na coordenação da equipe. A lei garante estabilidade por 12 meses. Já estava, pois, na prorrogação. Nesta segunda, a demissão foi homologada.

Etapa vencida. E a vida segue.

Profissões que resistem ao tempo

Há quem diga que a tal modernidade nos trouxe para um mundo descartável, abastecido por pronta-entregas, lojas de departamentos, shoppings, supermercados, restaurantes especializados em comida rápida e outros estabelecimentos de autosserviço, tecnologias ao alcance da mão e/ou universo digital. Nesse mundo emergencial e de automatismos não haveria lugar para o fazer artesanal, ou mesmo para a reciclagem em uso próprio, o que tornaria obsoletos determinados papéis vitais na sociedade d’outros tempos. Será?

Sim e não. Se há funções ou profissões extintas ou à beira da extinção, como condutor de bonde ou de trens, ou fotógrafo lambe-lambe, por exemplo, há outras que resistem à efemeridade das coisas no mundo contemporâneo. A capacidade de se reciclar, seja para deixar-se absorver pela indústria ou para buscar um nicho no mercado, é o segredo da sobrevivência.

Mas o combustível que alimenta o motor de quem se faz autônomo é mais do que a defesa do leite das crianças e do pão nosso de cada dia. No mais das vezes, é o amor pelo ofício que os mantêm ativos.

No Recife, que roça os cinco séculos – serão 468 anos em 12 de março -, há lugar para os dois mundos, a se oporem e se complementarem. Há o Porto Digital, berçário de profissionais da alta tecnologia. E há os mercados e feiras e ambulantes a manterem viva a Terra dos Mascates e a diversidade cultural. E na contramão do desperdício,  há especialistas na arte do reaproveitamento e do fazer sob medida, ao gosto e à necessidade do freguês.

É nisso que acreditam os personagens encontrados pela Revista dos Bancários – no quatrocentão Bairro da Boa Vista e na Boa Viagem de mais de 300 anos: três sapateiros, uma família de relojoeiros, um consertador de panelas e, pasmem, um tipógrafo em plena atividade.

A PB Perrelli vestiu gerações e gerações de políticos e empresários pernambucanos -Fotos: Ivaldo Bezerra/Lumen
A PB Perrelli vestiu gerações e gerações de políticos e empresários pernambucanos -Fotos: Ivaldo Bezerra/Lumen

A inspiração da pauta veio de uma alfaiataria, puro vintage, instalada na Av. Manoel Borba, desde 1921, símbolo de uma época em que a elegância fazia diferença. Prova de que alfaiates, embora raros, ainda os há a privilegiar o corte exclusivo da clientela mais exigente, assim como costureiras. É possível, também, encontrá-los pela internet.

Há, não obstante, uma nota triste: a PB Perrelli Alfaiates, uma das mais tradicionais alfaiatarias do Recife, que vestiu várias gerações de políticos pernambucanos – de Agamenon Magalhães a João Paulo, cerrou suas portas no último dia de janeiro deste novo ano. Por motivo de saúde do gestor do negócio nos últimos 50 anos.

Com a aposentadoria forçada de Bruno Perrelli, 73 anos, fecha-se o ciclo da tradição familiar, trazida da Itália pelo pai, em 1919.

Tipografia é arte – Localizamos o tipógrafo, no segundo andar de um edifício plantado na escondida – e até hoje não urbanizada – Praça Machado de Assis, por trás do Cine São Luiz, na Boa Vista. Novo Recife é o nome do prédio, que integra o famoso Beco do Fotógrafo e que de novo não tem nada. Ali, registre-se, ainda hoje é possível comprar filmes e revelar pelo método analógico. Segundo entendidos e aficionados, é mais apropriado à fotografia-arte.

Depois de busca infrutífera pela rede e por telefone, chegamos a Sílvio Silvino da Silva por indicação do Sindicato dos Gráficos. Fazemos dele a homenagem aos profissionais da indústria gráfica, que celebram seu dia em 07 de fevereiro.

Sílvio: tipógrafo para sempre
Sílvio: tipógrafo para sempre

Nosso tipógrafo garante que não é o único – “ainda tem dois ou três por aí…”. Assegura, porém, que será o último: “Olha que ouço essa cantiga há 30 anos: vai acabar, vai acabar, vai acabar… Pois lhe digo que, quando você ouvir dizer que acabaram os tipógrafos, eu estarei aqui”, diz.

O tom é de brincadeira, mas Sílvio fala sério. É daqueles que amam seu trabalho, e acredita que faz a diferença: “Para mim é arte: monto, imprimo, faço o acabamento e corto. Tenho uma clientela fiel, que prefere o trabalho em tipografia. Criei minha família com isto”, afirma indicando, com gesto largo, a mesa de tipos e a velha Minerva. Segundo ele, há impressões cujo nível de sofisticação só é possível na tipografia, como relevo seco, por exemplo.

Há coisas mais simples, corriqueiras, que também não são atendidas pelas gráficas rápidas, ou que nas grandes empresas elevam o custo sobremaneira, particularmente para pequenas quantidades. É o caso dos calendários de bolso ou de parede, encontráveis no comércio, já impressos com motivos variados, e que são usados como brindes de fim de ano. “Só a tipografia pode montar e imprimir a logomarca da empresa ou o nome do profissional naquele espaço reservado”, exemplifica.

Serviços de papelaria como timbrados, envelopes e cartões de visita, e até convites de casamento, também ficam mais em conta quando impressos em tipografia, garante. Na hipótese de a logomarca ter um desenho, é preciso que o cliente mande fazer o clichê, em resina, nas casas especializadas em carimbo.

O tipógrafo nunca fez outra coisa em seus 49 anos de vida. Começou aos 13/14 anos. Aprendeu o ofício em casa, na velha máquina que o pai comprou para estimular o trabalho dos dois filhos mais velhos, formados pelo Senai; ironicamente, só ele se mantém na profissão.

Com o que sabia, Sílvio foi para o mercado, onde se aperfeiçoou. Trabalhou em gráficas por um tempo, abriu um negócio com um dos irmãos, e há 21 anos, a idade do mais velho de seus cinco filhos, partiu para voo solo. Hoje, a tipografia ocupa uma sala e meia, imóveis próprios no terraço do edifício. A segunda loja é partilhada com amigos, profissionais de serigrafia, mediante aluguel.

O filho primogênito, agora, trabalha com ele, e aponta para o futuro: um computador portátil. “Leo está introduzindo algumas modernidades, que permitem atender  encomendas que requerem offset”, explica o tipógrafo. O pé na era digital, entretanto, está longe de significar troca de ferramenta. Sílvio acaba de renovar o estoque de tipos (letras talhadas em metal). Na verdade, incrementar, pois não se desfaz de letra alguma de seu arsenal. Adquiriu de fornecedor cativo, que conhece seu amor pelo ofício.

Paulo relojoeiro

O amor aos relógios unem pai e filho
O amor aos relógios unem pai e filho

De pai para filho – Aos 73 anos, completados neste 08 de fevereiro, Paulo de Oliveira França poderia se dedicar a curtir a aposentadoria. Para isso se preparou. Não tem mais quem dele dependa, pois os filhos estão criados, e ele está solteiro. Entretanto, é dos primeiros a chegar ao Mercado de Boa Viagem, todos os dias.

Por volta das seis da manhã, de segunda a sábado, abre sua loja, pequena mas própria, no segundo corredor à esquerda da entrada principal, na Conselheiro Aguiar. Senta-se em frente à banca onde concerta relógios de todos os tipos, até as quatro da tarde. “É minha primeira profissão e vai ser a última”, diz com meio sorriso e olhar matreiro. É também ourives, e faz conserto de óculos.

As duas artes aprendeu com o pai, por volta dos 14 anos. Transmitiu-as aos herdeiros que se dispuseram. Três dos seus nove filhos, em dois casamentos, são relojoeiros: “Inclusive minha filha, que trabalha na outra loja (também no mercado), com o irmão André Luiz”. Outro dos filhos é ourives.

Paulo trabalhou com o pai mais de 10 anos, depois representou a Technos e a Citzen em três relojoarias que teve em Boa Viagem, e que acabou fechando por motivos familiares. Andou pelo Rio de Janeiro como empregado das duas fabricantes de relógios, “uns sete anos”, como encarregado da equipe de relojoeiros. Terminou voltando ao Recife, onde sentou praça definitivamente, sempre consertando relógios – e fazendo música; tocava violão numa banda local.

André Luiz seguiu a trilha do pai, com quem aprendeu ofício de relojoeiro, ainda moleque. Com o tempo, abriu a própria loja, num espaço mais amplo, alugado, na parte externa do mercado, que é condomínio privado. Além da oficina de consertos, comercializa relógios antigos e novos. Desenvolveu o gosto pelas relíquias, e as coleciona também em casa.

“É uma profissão que você tem que gostar. Mas é uma arte boa, que dá prazer. Quando eu me aposentar, quero uma banquinha em casa para eu me divertir”, diz o relojoeiro, que está bem longe de envergar um pijama; tem 49 anos.

Antônio Alves também passa ao filho o ofício de sapateiro
Antônio Alves também passa ao filho o ofício de sapateiro

Outro ofício que mudou de feição, há pelo menos 30 anos, é o de sapateiro. Os sapatos feitos sob medida adquiriram ares de requinte, para poucos eleitos. As fabriquetas artesanais não resistiram à era dos emborrachados, de um lado. De outro, a verticalização, desde os frigoríficos, e a forte concentração do setor, com alto impacto no preço do couro. A despeito de o Brasil ser um dos três maiores produtores, e exportadores, mundiais da matéria-prima, de calçados e artefatos.

Dois dos sapateiros com quem conversamos já fabricaram sapatos. Hoje são consertadores de calçados, bolsas e assemelhados. Continuam a fazer do ofício seu meio de vida, todavia, “nada é mais como antigamente”, lamenta Severino Norberto, 66 anos. Aos 50  anos de profissão, 35 dos quais no Mercado de Boa Viagem, ele não se queixa da demanda nem da alta concorrência: há quatro oficinas do gênero só no centro comercial.

Biu, como é conhecido, teve uma pequena fábrica de calçados na Mustardinha, fechou não por causa do preço do couro, mas, segundo ele, por causa da mão de obra: “Empregado é um problema. Você trabalha para ele, e ele nunca está satisfeito. Então, preferi fechar e trabalhar sozinho”. Há 35 anos comprou a loja no mercado e ali se instalou.

Severino não vai deixar herdeiros; nenhum dos seus cinco filhos quis aprender a profissão. Não é o caso do vizinho de box, Antônio Alves, que também se instalou em espaço próprio, e já tem o único filho, de 30 anos, assumindo a responsabilidade do mister. Casado e pai de dois filhos, Anderson é quem hoje, de fato, põe a mão na massa. Antônio fiscaliza. Só eventualmente pega no pesado.

O filho não se queixa: “Meu pai precisava de ajuda, e eu de emprego, então assumi”, resume o rapaz, que diz gostar do que faz. O pai, entretanto, com 45 anos de labuta e boa dose de desencanto, preferia que Anderson voltasse aos estudos – tem o segundo grau – e buscasse profissão melhor:  “Hoje é só plástico e mais plástico, tênis e mais tênis. Os curtumes fecharam e só as grandes fábricas aguentam o preço do couro. Pode escrever, aí, que somos uma espécie em extinção”.

Há controvérsias. Também em outro ramo bastante requisitado, e concorrido, no mesmo local: o conserto de panelas. Heraldo Gorgonho é o consertador, por vocação. “Senti que dava para a coisa”, resume o filho de Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Lida com panelas, mas, na verdade, conserta de tudo em matéria de utilidades domésticas. Faz isso por conta própria há 30 anos, quase a metade dos seus 65 anos, parte dos quais vividos no Rio de Janeiro.

Trabalhou “fichado” em assistências técnicas, hotéis e restaurantes, sempre na manutenção. Há 20 anos montou uma banca na parte externa do Mercado de Boa Viagem, onde também vende peças de reposição. Em matéria de panelas, entretanto, orgulha-se de ser um especialista em panelas de pressão.

“As pessoas hoje não sabem o que é uma panela de qualidade. Compram panelas descartáveis, e depois trazem para eu dar um jeito. Acabo fazendo, pois conserto até panela importada. Se não tem peça de reposição, mudo o sistema e boto ela para funcionar”, diz. E enumera quatro marcas que, segundo ele, são símbolos de qualidade.

Clientela, garante, é o que não falta – para ele e seu vizinho de banca. “Quem conserta panelas? Todo mundo aqui em Boa Viagem, e quem traz é o patrão ou a patroa”, afirma.


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