Xuxu, a gente se encontra por aí…

por Sulamita Esteliam
Silvéria Xuxu e Eneida comemoram comigo meus 5.6  - dez/2009
Silvéria Xuxu e Eneida comemoram comigo meus 5.6 – dez/2009

 

Querida Xuxu*,

Passei toda Copa me lembrando de você. Sabe aquele colar, delicado, de linha dourada que você me presenteou no aniversário de 2010, ou 2011? Pois é, usei-o a cada jogo do Brasil – da abertura, de triste memória para nossa imagem de pretensos civilizados, à semifinal em que fomos despachados, sem piedade, pela seleção alemã.

Você me conhece, amo futebol. Entretanto, a não ser o meu Galo, é a Seleção Canarinha quem me faz postar-me, celerada, em frente à TV. Por isso, deve imaginar o que sofri todos esses dias… E até quando torci para os argentinos, sinal de que a beca azul e branca, definitivamente, não cabe em mim.

Pensando bem, não creio que você seja, nem um pouco, chegada a essa história de duas dezenas de marmanjos correndo atrás de uma bola… Seu senso estético, sua alma perspicaz, seu nível de exigência não se dão ao desfrute.

De qualquer forma, caso tenha se permitido uma espiadela, na falta de mais o que fazer, há de me dar razão: nem os Anjos, todos, do Universo, nem mesmo seu poderoso São Jorge Guerreiro, poderiam dar jeito.

O Redentor ao pôr-do-sol - Foto capturada no FB
O Redentor ao pôr-do-sol – Foto capturada no FB

Sorte nossa que Deus continua brasileiro. Até o Cristo Redentor recebeu moldura nova; viu o esplendor de pôr-do-sol na partida de encerramento? Se perdemos a taça, com a falência tática e técnica de nosso selecionado, como lembra nossa amiga-irmã, Eneida, “o Brasil bateu o maior bolão”.

Provamos que podemos fazer acontecer,  sabemos receber e encantar gregos, troianos, japoneses e até alemães… Sim, nós podemos. Praga de urubu magro não pega em cavalo gordo, já diziam nossas avós.

Ah, acho que ainda não lhe contei: pela primeira vez, desde que tenho um lar para chamar de meu, há uma TV na minha sala. Pura falta de espaço menos adequado; lembra?, no Bairro Ouro Preto, ficava na sala de jantar. Para compensar, aquele quadro premonitório que você assina, e que me deu de presente de casamento, disputa os olhares na mesma direção.

É… sei que em nosso último encontro, há bom tempo, o copo transbordou. Despedimo-nos com abraços, beijos e choro, não obstante. Amigas não têm que concordar, sempre. E você se recolheu. Só pude respeitar.

Nossa amizade, admiração e carinho carregamos no peito, dentro do coração.

Mas sinto falta de nossas conversas madrugada adentro – no bar, na rua, por telefone, em casa… Você me esperando para saber o que rolou na balada, tempos de freela em Beagá. Eu lhe contando as peripécias das crianças. Você espantada quando comprovou que o cachorro da casa era gay.

Você fazendo aquele peixinho “bobo”, que incorporei ao cardápio doméstico. As aulas de francês, nunca cobradas.  As missões pautadas no Artimanhas, os embates na editoria de política. Piaf embalando as tardes de sábado: La Vie en Rose, Non me quitte pas…

Seu senso de humor, traduzido nas denominações que você arranjava para os mancebos que cruzavam nosso caminho: danoninho, iogurte, queijinho, queijo curado.

Você me relatando, por telefone, as traquinagens dos meus “aborrescentes”, quando se dispôs a dar uma força em casa, enquanto ainda não podia mantê-los comigo em Brasília. Justo você, que se recusou a parir.

Você preocupada com o que seria da minha liberdade, quando decidi tornar a me casar. Depois, se divertindo ao relatar o impacto do meu casamento, em hostes belo-horizontinas, do nascimento da minha caçula e, pouco depois, do meu primeiro neto.

A sobrinha-xará, Sulamita, para não nos esquecermos jamais.

Bons dias aqueles que passamos juntas, eu, você e Eneida, na visita que nos fizeram em Fortaleza, em família, nas festas do Sindicato, os aniversários comemorados juntas, nós e nossos bares preferidos na Capital Mundial dos Botecos.  Nossa emoção na posse de Eneida na presidência do Sindicato dos Jornalistas.

Formamos um trio da pesada.

Peso de amor e admiração mútuas.  Sangue libertário em alta dosagem.

Tantas histórias temos pra contar.

Muitas coisas aconteceram nesses dois, três anos em que andamos afastadas, e não pude dividir com você. Mas seu carinho – por e pela minha família -, sua generosidade e estímulo (“Esqueça a jornalista, liberte a escritora…”) são tesouros que carrego comigo, indelevelmente.

Há dois dias, tive notícias suas, Xuxu.

Eneida, a quem sempre pergunto por você, me ligou. Você estava no CTI de um hospital em Beagá, entubada. Ironicamente, o mesmo hospital em que pari meu primeiro filho.

Gripe suína, pneumonia, primeiramente diagnosticadas como rinite alérgica. Isso numa capital de referência médica como Belo Horizonte. Logo você, tão metódica com sua vida, tão cuidadosa com sua saúde.

Ontem, trocamos mensagens logo cedo, preocupadas com seu estado. Meu dia baratinou total. Já noitinha, o desfecho.

Sei que não devo chorar, você agora é estrela, encantada na eternidade. Sei que as pessoas que a gente ama vivem para sempre em nossos corações. Foi o que disse à Eneida, que conseguiu vê-la ainda com sopro de vida.

Recebi seu abraço trazido pela brisa do mar, Xuxu.

Não devia, mas chorei.

Siga em paz, minha irmã, a gente se encontra por aí…

Xêros e cafunés.

 

Sula

 

Recife, 14/15 de julho de 2014

 

PS: Para você embalar sua viagem:

 

  • Ne me quitte pas – Édith Piaf

 

 

  • La vie en rose –  com Mireille Mathieu

 

 

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*Xuxu nasceu Maria Silvéria da Fonseca, em Bom Despacho (na verdade, só me lembrei depois, em Nova Serrana), sudoeste de Minas. Jornalista pela Fafich/UFMG, pós-graduada em Literatura pela Sorbonne, em Paris/França, onde viveu por oito anos. Lá desenvolveu técnica de desenho e pintura.  Dois anos na Itália lhe deram, também, fluência em italiano. Era também estilista.

Foi minha parceira no caderno Artimanhas, de variedades, no projeto popular do Hoje em Dia, e na editoria de política do mesmo diário, já em formato tradicional. Trabalhou na extinta TV Manchete, na TV Globo em BH, e integrou a equipe da Assessoria de Comunicação do Governo de Minas, dentre outras atividades.

******************

Postagem revista e atualizada às 10:39:  inclusão do 12 parágrafo; acerto de vírgulas e pronomes e grafia, nos segundo, décimo primeiro e vigésimo quinto parágrafos.

 

 

 

 

 

 

 


7 comentários sobre “Xuxu, a gente se encontra por aí…

  1. Querida Sula, li emocionada o seu texto” Xuxu, a gente se encontra por aí…”Que Deus console você, a Eneida e toda a família que sente a partida da querida Silvéria..Fique em paz…com carinho, Kátia Metzker

  2. Pois é, Sulamita… Querendo ou não, o sentimento encontra saída e brota em lágrimas. Xuxu não tinha tempo para maquiagem. Pau, pau! Pedra, pedra! Aos mais queridos, embora com cuidado especial, também sobravam umas pedradas. Com muita carrrinho! Mas o fundamental é que era uma boa pessoa. Culta, séria, impoluta. Estava sem contato com ela há algum tempo – ai, as bifurcações da vida! Não deu pra resistir ao “Ne me quitte pas” que ela gostava tanto e que usou abundantemente nas aulas de francês que tomei quando a conheci, recém chegada de Paris.
    Ela vai abalar geral la em cima…

  3. Lindo texto! Impossível não se emocionar ao lê-lo… Bom, não conheço a autora (Sulamita), muito menos a Eneida, mas conhecia a Xuxu e pude relembrar de cada gesto dela ao ler essas linhas. Realmente, era uma pessoa especial, de uma vivacidade incomum!! Fico imensamente triste por sua partida, mas feliz por saber que teve duas amigas tão próximas e carinhosas, enquanto esteve por aqui… Muita luz para ela!!

  4. Parabéns pela homenagem… linda! Com certeza várias pessoas irão se manifestar, pois a Xuxu fez muitas amizades e conquistou muitos corações com seu jeito todo especial de ser. Ela foi um anjo que Deus colocou na minha vida num momento muito delicado. Apesar da pouca convivência, sempre foi e será lembrada com muito carinho.

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