Sobre a dor da perda, a decadência de um país e o aditivo da resistência

por Sulamita Esteliam

Acompanhei minha mãe em seus últimos dias, minutos e segundos de vida. Chamei minhas irmãs e irmão para se despedirem dela. Horas depois, avisei-os, um a um, o seu passamento.

Tomei as providências de praxe para liberar o corpo no hospital, cuidei da certidão de óbito, ajudei a escolher o caixão, os dizeres da coroa de flores, garanti combustíveis para a noite de velório. É preciso beber o morto, mesmo que seja sua mãe.

Na hora do adeus, cantei para ela. Depois, chorei.

Só agora, 17 anos passados, consigo escrever sobre isso, assim, de passagem, e resumidamente. O coração oprime o peito, mas não choro mais.

Um ano depois, a amiga-irmã de infância, que segurou minha mão no caminho até o túmulo de minha mãe, também se foi.  E tudo se repetiu.

Li para ela seu poema preferido, de Cecília Meireles. Escrevi eu mesma um poema de despedida, seu epitáfio. Com ajuda de duas amigas, garanti girassóis, a flor que amava.

E é a primeira vez que consigo tocar ao assunto, assim, de relance.

Parece contraditório, pois é escrevendo que a dor se cura em mim. Cantar também ajuda.

Ainda que creia no ensinamento do mestre Rosa de que “as pessoas que a gente ama não morrem, ficam encantadas”.

Por mais que acredite que tudo não acaba aqui. Ou não, não faria sentido nascer, crescer, estudar, lutar, amar para morrer e partir para o nada absoluto…

Ocasiões há em que escrevo de pronto.

Foi assim quando a amiga-irmã Xuxu encantou-se, há três anos. Inesquecível Silvéria.

Consegui escrever, também, para outras pessoas queridas que ora são estrelas – o amigo João Rafael, as tias Vitalina e Tina, o tio Quiqui…

Ainda que desde a infância tenha sido visitada pela morte, em estado bruto. Pessoas amadas partem, assim, de repente, sem mesmo dizer adeus.

Meu pai foi uma delas. Tomou café na cozinha, acocorado junto à porta, acenou ao sair para fazer uma entrega de colchão no bairro vizinho – tornara-se colchoeiro -, e só voltou no dia seguinte, no caixão.

Mataram meu pai. Crime passional, de marido traído.

Sim, meu pai era raparigueiro, como se diz aqui em Pernambuco, mas nem por isso merecia morrer aos 28 anos, e deixando quatro órfãos com idades abaixo dos cinco anos, e uma viúva com 26 anos. Fora a sucursal, e o fruto dela, que não sobreviveu.

Morreu duas vezes, de tiro e de injustiça, pois o matador foi absolvido por “legítima defesa… da honra”. E seguiu corno honrado até o fim dos dias.

Já minha mãe, viu que não podia morrer, porque tinha quatro rebentos para criar.

E cá estou, estamos todas e o único, e procriamos, e nossa prole se multiplica, e assim a vida segue, até que cesse nosso tempo por aqui.

Menos de um ano antes de meu pai ser abatido, morrera meu tio mais velho, um símbolo de harmonia e fertilidade, de infarto. Deixou 11 órfãos e um viúva enlouquecida de sofrimento.

Ela também não podia se dar ao luxo de morrer nem pirar de dor. E aí sua bebê caçula, de poucos meses, também se foi, em seguida.

Ainda assim teve que sobreviver. Inventou aditivos e seguiu em frente. E seus 10 se tornaram mulheres e homens, e também procriaram, e as crias se reproduzem.

Lembro-me bem, foi uma sequência de quatro mortes no espaço de dois anos: meu tio, meu pai, meu avô-padrinho, a avó paterna… e eu tinha apenas 7 anos, quando o ciclo se fechou por breve tempo.

É assim a roda da vida e da morte. Cada um que se vai reabre a ferida que, mal inicia a cicatrização, volta a sangrar. Mais dia menos dia, tudo passa para recomeçar de novo…

Você deve estar se perguntando: por que diabos essa conversa de morte, logo numa sexta-feira!?

Porque todo dia é dia de viver, e de morrer. Porque me pus a pensar no tamanho da dor da perda para cada um.

Da mãe que perdeu o filho com um tiro ainda dentro da sua barriga. Na dimensão do horror de perder uma cria, um ser que você gerou, que aborta ou que mal nasceu, e que ansiava segurar no colo, amamentar, acalentar, banhar, vestir, ninar…

Da mãe que espera a filho voltar do trabalho e recebe pela vizinha a notícia de que ele não vem mais pra casa porque foi executado pela polícia, confundido com bandido.

Da mãe que é acordada no meio da noite com batidas fortes na porta, se enrola no lençol e abre a porta do barraco, e é um policial dizendo que ela precisa ir ao hospital, e chegando lá, vê apenas um corpo exangue, onde antes havia alma.

Um sopro de vida à sua espera, só para dizer adeus. É a filha, espancada e queimada pelo marido, que levou-a ao socorro hospitalar e escapou ileso, abrigado pela farda.

Recolhe os cacos e sobrevive – para criar os netos e clamar por justiça. Antes que a vida desista de alimentar tragédias e a leve também.

Anos depois, é o avô que, ao telefone, dá a notícia, com voz embargada: “Mataram meu menino por conta de 50 real!”

O velho já estava viúvo, tinha 90 anos, engoliu a morte da filha e da mulher, mas não resistiu à perda do neto.

Desde sempre penso sobre a dor da perda. E, às vezes, choro sozinha enquanto tomo banho, passo o café ou retiro a roupa da máquina. Outras, revisito em sonho o tempo da história, as reviravoltas do presente, o futuro do pretérito.

E acordo com a pele estuporada. Então, sei que se não foi ou não é, vem coisa aí…

A perda de rumo, a perda do pudor, da vergonha, da sensibilidade, do sentido e do sentimento de pátria, de país, de nação.

A perda de referência, da noção de direitos, da humanidade, de generosidade, da humildade, de solidariedade.

E como dói.

Lula no ato do dia 20 de julho de 2017, na Av, Paulista – Foto: Ricardo Stuckert

Dilma perdeu o cargo, porque se recusou a perder o senso, a entregar o ouro, a dialogar com bandido.

Compromisso é dignidade.  Fibra é amor de peito aberto, sem quimeras.

A toalha não vai ao chão, fica no ombro – para secar o suor e seguir na luta, com a valentia de quem não tem nada a esconder.

Temer, jamais.

Lula não perde o prumo, não se desmonta. É um sobrevivente. Venceu a fome, a miséria, a indigência, a pobreza, a violência, as trevas, o medo.

Encara a hipocrisia, o cinismo, a trapaça, a desfaçatez com as armas do caráter e os fluídos do carisma.

A dor da perda é boa companheira. Hidrata o lombo para a chibata escorregar. Mas não anestesia o ímpeto.

Perdeu quatro eleições e recomeçou, sem perder a fleuma.

Perdeu o pai que nunca teve, perdeu a primeira mulher com o filho junto, perdeu o dedo num acidente de trabalho.

Sua mãe se foi, mas permanece o lume. Imagino o tamanho da dor em perder Marisa, e nas circunstâncias em que ela se foi.

Quantos companheiros ficaram pelo caminho…

Marco Aurélio Garcia, presente! – Foto: Ricardo Stuckert

E agora se vai o professor Marco Aurélio Garcia, o bom e velho escudeiro das causas internacionais, da diversificação das relações, da soberania nacional, do Brasil orgulhoso a espantar o mundo.

Parceiro de todas as horas, de Lula e de Dilma. Um infarto pode levar qualquer um, a qualquer hora, e quem diz é Lula.

Difícil assistir e resistir à tragédia do desmonte do Brasil e da autoestima da Nação.

Há de descansar em paz.

Mas Lula não quer saber de descanso. Tem um país e um povo para cuidar.

Deixo você com ele, que não perde o prumo, o rumo, o mote.

Sáude, Lula!

 

Assista ao Vídeo da transmissão ao vivo na Av. Paulista, dia 20 de julho de 2017:


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