‘Cada negra que for, 10 mil negras virão…’

Ora iê iê ô, Oxum! – Foto: Jornalistas Livres
por Sulamita Esteliam

Tive que restringir meu acesso ao PC por conta de crise alérgica nas mãos. Irromperam bolhas a granel no dorso da mão direita e entre os dedos. É a segunda vez em dois meses, mas desta feita em maior profusão.

Eis o porquê da minha ausência prolongada aqui no blogue. Não posto fotos porque não é algo bonito de se ver.

Retomo aos poucos, sem forçar a barra, para evitar complicações. Estou em tratamento, e em breve estarei à toda novamente.

Assim sendo, vai aí uma palinha do que foi o 25 de Julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, que celebra também o Dia de Tereza Benguela. Dia de Luta, portanto, e em São Paulo, onde a celebração é mais consistente. Vídeo produzido pelo coletivo Jornalistas Livres:

Reproduzo, também, bom texto capturado no sítio da Fundação Perseu Abramo a propósito do 25 de julho.

Trata do que é ser mulher negra num país sob golpe e desmantelo, pela boca de quem sente na pele o que é e o que vem a ser. Mas, como bem lembra a autora, “cada negra que for, dez mil negras virão. Para lutar com sangue ou canção”.

Resgate da canção de Wilson Simonal  e Ronaldo Bóscoli Tributo a Martin Luther King, de 1967. Um vídeo em que ele expõe o porquê da letra. Foi regravada em tempos recentes por Leci Brandão junto com o Simoninha, filho do autor. Incorporo ambos ao fim da postagem.

Por todas elas, marcha contra o estupro em Beagá 2015 – Foto: Mawell Velasco/Jornalistas Livres
por Bruna Rocha – Colunas F.PAbramo

25 de Julho. Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. Dia de luta cravado no auge do neoliberalismo, em 1992, como marca de nossa resiliência no 1° Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, na República Dominicana. Uma perspectiva internacionalista sobre os desafios colocados para as nossas vidas em um momento em que o neoliberalismo avançava de forma feroz sobre nossos territórios e nossos corpos. Já ali, rackeávamos o sistema por meio de uma agenda da ONU, para convergir estratégias de sobrevivência e superação do racismo, machismo e todas as violências desta economia de opressões que é o capitalismo.

2017 – 25 anos depois e cá estamos nós debatendo quase as mesmas coisas e muito mais. Vivemos mais uma vez um cenário de ofensiva do neoliberalismo, porém, carregamos uma experiência recente de oxigenação dos direitos civis pelo governos populares na América Latina que, sem dúvida alguma, multiplicou nossa capacidade de articulação e reflexão e, portanto, estamos maiores.

É sempre bom lembrar como o acirramento socioeconômico produzido pelas elites sobre a classe trabalhadora corta com a faca mais amolada a nossa carne. O avanço do conservadorismo, da cultura de ódio e intolerância, repercute inadvertidamente sobre nossas vidas. As relações de trabalho ficam ainda mais cruéis no cenário de desemprego e sob a iminência de contra-reformas antipopulares, como estamos vivendo no Brasil (trabalhista e previdenciária).

Sob a sombra do terrível monstro do desemprego que já assola catorze milhões de brasileiras e brasileiros, a perversidade das relações de trabalho aumenta. E aí não estamos mais puramente para produzir as riquezas das quais não vamos gozar, mas, sobretudo, para alimentar o ethos feroz e perverso do nosso algoz. Afinal, o maquinário da dominação precisa nos submeter a ponto de justificar a exploração, agindo na depredação de nossa força física,  relativização de nossa capacidade intelectual e completa anulação de nossa dimensão subjetiva. Trata-se do retorno sádico à naturalização de nossa existência objetificada, organizada em um contrato social no qual sobrevivemos para trabalhar e nem mais o contrário parece razoável.

Pronto, agora está justificada a lei lombrosiana, e a compreensão estratégica do genocídio visualiza em nós seu alvo prioritário, pois também  nos lê como principal potência, portal da sobrevivência de todo um povo. E somos mesmo. Por isso, feminicídio. Por isso, encarceramento. Por isso, extermínio de nossos meninos. Por isso, estupro coletivo. Por isso, precarização. Por isso, solidão.

Esse negócio de afetividade tá acabando conosco. Parece que eles descobriram que uma vez empoderadas, as coisas ficariam mais difíceis pra eles. Que não conseguiriam interditar nosso movimento irreversível de emancipação. Que não conseguiriam nos fazer retroceder em nosso processo de resgate da memoria e conexão com ancestralidade. Que não conseguiriam nos tirar da frente dos camburões. Que não conseguiriam nos tirar de nossos barracões,  de nossas praças, vendinhas e estações. Que não conseguiriam mais nos tirar da política, das falações, das direções. Então miraram nossos corações e acharam talvez nossa principal fragilidade, porque temos mesmo uma subjetividade f*#* e uma carência estrutural de cuidado e bem estar que nunca nos foram dados. Haja manipulação, dissimulação, objetificação, preterimento, desprezo, palmitagem, depreciação.

A verdade é que o balanço não está bom pra nós,  mas ainda assim estamos muito bem. Nossa perspicácia cosmológica vai além,  muito além de todo sofrimento que sustentamos em nossas costas. Estamos fazendo muita coisa e construindo um novo mundo com as nossas mãos, somada a irmãs e irmãos que se aliam à nossa visão. Uma visão de paz, de comunhão,  de solidariedade, de unidade, de revolução. Estamos pensando economia, medicina, computação. Estamos pensando e fazendo tanta coisa que quando vê já é transformação. Pois é com esse espírito que quero encontrar Ângela Davis hoje, um espírito de prospecção. Quais estratégias de futuro para nossa libertação? Como superar a crise internacional do capitalismo pela nossa concepção? Como, em meio a tantas armadilhas do individualismo da desagregação, mantermos viva a chama da organização? Como ser pantera negra na era da digitalização?

Ninguém pode nos parar. Temos orixá,  temos missão. Cada negra que for, dez mil negras virão. Para lutar com sangue ou com canção. Viva as mulheres negras!

#Ubuntu #DiretasJa #ParemDeNosMatar

*Bruna Rocha é diretora de Mulheres da UNE, militante do Enegrecer e da Marcha Mundial das Mulheres


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