O Brasil Dilmou, o suficiente para manter o embate

Dilma, entre Pimentel e Josué, na carreata de encerramento da campanha em Belo Horizonte - Foto: Paulo Liebert/Fotos Públicas
Dilma, entre Pimentel e Josué, na carreata de encerramento da campanha em Belo Horizonte – Foto: Paulo Liebert/Fotos Públicas
por Sulamita Esteliam

Minas Dilmou, e fez o primeiro governador do PT no Sudeste: Fernando Pimentel. Pernambuco amarelou. No Nordeste, foi o único estado. Na Bahia, o PT fez barba, cabelo e bigode. No Piauí, Dilma abocanhou 70% dos votos, 69% no Maranhão, 68% no Ceará, 60% no Rio Grande do Norte, 55% na Paraíba, 50% em Alagoas e Sergipe. No Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) enterra a dinastia Sarney. São os destaques do primeiro turno das eleições gerais.

Sim, há outro: o crescimento do Primeiro Neto na reta final da campanha – 11 pontos, não captados nem na boca de urna, a revelar que os institutos de pesquisa precisam rever seus métodos; para dizer o mínimo. Mesmo ele perdendo duplamente na capitania das Gerais, que julgava hereditária.

Registre-se: minimizou o fato, para não passar recibo da derrota. Como lembra Carta Maior, “Minas se tornou a pedra no meio da língua do Aécio. Quanto mais ele ataca Dilma e o PT, mais complicado fica explicar a derrota em seu estado”.

De qualquer forma, ainda lhe restam as muralhas de feudo na capital: Beagá deu a Aécio o dobro da votação da filha da terra, Dilma Roussef – 53% a 25%. As razões a gente até desconfia, mas isso é assunto para outra postagem.

Por outro lado, a arrancada do herdeiro de FHC sinaliza também, que o PT, talvez, tenha subestimado o azarão, quando centrou a artilharia em Marina, deixando-o com rédea frouxa. A lembrar que na baia do candidato tucano sobram goteiras e lama, e não só pelos anos FHC, de triste memória.

Mesmo assim, a mídia venal, dileta representante da casa-grande e anti-petista sem pejo, entrou em estado orgástico.  Apesar de Dilma ter ganhado em 15 dos 27 estados, o que lhe garantiu a liderança no primeiro turno – também aqui. E a narrativa catastrofísta vai continuar. Previsível.

Dilma (PT) tem Aécio (PSDB) como adversário no segundo turno - Foto: montagem a partir de fotos Ichiro Guerra/Dilma 13 e Orlando Brito/Coligação Muda Brasil  via agência Fotos Públicas
Dilma (PT) tem Aécio (PSDB) como adversário no segundo turno – Foto: montagem a partir de fotos Ichiro Guerra/Dilma 13 e Orlando Brito/Coligação Muda Brasil via agência Fotos Públicas

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Cá, no território do Leão do Norte, o senso de pertencimento, tão caro aos terrenos, exacerbou-se com o luto. Tributo encerrado, espera-se, quem sabe reaflore o zelo com o sentimento nacional, de quem se orgulha de ter sido palco da Revolução de 1817, “a primeira digna do nome”, segundo o colega jornalista e escritor Paulo Santos.

O fantasma de Eduardo Campos, morto em acidente aéreo em 13 de agosto, abduziu os espíritos dos pernambucanos, sobretudo na região metropolitana.  Estava nas ruas – em postes, cavaletes, outdoors, nos adesivos de automóveis e carros de som; no programa eleitoral, nos palanques, por todo canto…

Recife, que é onde esta blogueira exerce o sagrado direito de votar, era um mar amarelo no domingo das eleições – no chão, no corpo e na mente das pessoas. Por onde andei, até a boca de urna, não apenas a manifestação individual do desejo do eleitor, foi ostensiva e solenemente ignorada pelas autoridades.

Quem não tinha um 40 estampado no peito foi de camisa com escudo da CBF mesmo. Perdemos a Copa, mas “não vamos desistir do Brasil”. E para esses, o Brasil se resume a Pernambuco. O placar foi de 63% para Marina Silva a 26% para Dilma na capital. E também deu à sucessora na disputa presidencial o pódio da votação no estado: 48% a 44%. Aécio obteve míseros 6%.

Paulo Câmara, o novo governador de Pernambuco, com a viúva de Eduardo Campos, Renata Accyoli e o senador eleito, Bezerra ao lado: coletiva da vitória - Foto: Antônio Cruz/AgBR/Fotos Públicas
Paulo Câmara, o novo governador de Pernambuco, com a viúva de Eduardo Campos, Renata Accyoli e o senador eleito, Bezerra ao lado: coletiva da vitória – Foto: Antônio Cruz/AgBR/Fotos Públicas

A vitória acachapante do funcionário público Paulo Câmara, o escolhido de Dudu, sobre o empresário e senador Armando Monteiro (PTB) para o governo do estado, levou de roldão Fernando Bezerra, ex-ministro de Dilma, para o Senado. João Paulo (PT), ex-prefeito do Recife, que compôs a chapa majoritária, ficou com a metade dos votos dados ao rival.

Na presidencial, Marina venceu na capital e em três dos outros quatro maiores colégios eleitorais pernambucanos: Jaboatão dos Guararapes e Olinda (62% x 30%); Caruaru (60% x 32). Perdeu em Petrolina, no Sertão, onde Dilma fez 51% a 40%.

Na eleição para governador, Sertão, Agreste (exceto Arcoverde), Mata Sul e Norte se dividiram. Vermelhou para presidente, na maioria absoluta dos municípios; com menor número de eleitores, entretanto. Em Garanhuns e Caetés, terras de Lula (a segunda era distrito da primeira, quando ele nasceu), por exemplo, Dilma deu banho: 63% a 28% e 85% a 9%, respectivamente.

Acredita-se, o interior é onde as políticas sociais dos governos Lula e Dilma têm mais impacto. O sertanejo tem memória, ademais, e em sua simplicidade consegue ser grato a quem se importa com seu destino.

Miguel Arraes, avô de Eduardo Campos, experimentou de perto essa troca, quando do seu retorno do exílio, e anos a fio – até que foi defenestrado por Jarbas Vasconcelos (PMDB), numa das campanhas mais cruéis que esta velha escriba pode acompanhar.

Daí o chapéu de palha, símbolo da preocupação do “velho” com o povo camponês. Imagem fartamente explorada no ‘veloriomício” do neto. Pelo pouco que o conheci, deve ter dado meia volta no túmulo. Feito Tancredo deve fazer, cada vez que o Primeiro Neto abre a boca para soltar uma frase pronta.

Na Metropolitana do Recife, todos se consideram senhores do seu próprio destino. Justo onde o governo federal descarregou investimentos para o estado granjear o título de locomotiva do desenvolvimento. Só Ipojuca (54% a 41%) e Moreno (52% a 41%) deram maioria à Dilma Roussef.

Marina Silva após votação Em Rio Branco: o "V" da vitória ficou no sonho, outra vez - Tomaz Silva/AgBR/Fotos Públicas
Marina Silva após votação Em Rio Branco: o “V” da vitória ficou no sonho, outra vez – Tomaz Silva/AgBR/Fotos Públicas

No frigir dos ovos, sobre o cadáver de Dudu, Marina viveu a ilusão, efêmera é verdade, de suplantar sua rival. Fica reduzida a seu tamanho na política brasileira: cerca de 20% do eleitorado. Totalizadas as urnas, acena com tomada de posição, diversa de seu comportamento nas eleições de 2010, “com bases no nosso programa”.

Ou seja, tende a ficar com o candidato tucano. Terá que explicar isso à sua gente da Rede. Claro, se não mudar de ideia.

Vejamos até que ponto Marina Silva é capaz de influenciar os socialistas – e a família Accioly Campos – que diz ter apreço por Lula. No primeiro turno, o PSB fez a aposta possível, diante da perda trágica com o ex-governador, que levou com ele quatro assessores, além da tripulação.

Não sem traumas internos. A escolha política já fora concretizada, quando rompeu com o PT.

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Colheu alguns frutos o PSB. Além do governo de Pernambuco, fez três senadores (PR, MA e RJ) e aumentou em 10 o número da bancada nacional na Câmara: tinha 34, agora tem 44. Sem contar a base aliada. No caso daqui, ficou com a maioria das vagas, e varreu o PT do mapa. O partido tinha três representantes. Corre o risco de ficar fora do Legislativo Federal.

Com o PT local juntando os cacos, a família de Eduardo, agora, mais do que o PSB, torna-se o fiel da balança do segundo turno das eleições. Afinal, Pernambuco é o segundo maior colégio eleitoral do Nordeste. E Dilma não pode prescindir dele, pra consolidar sua primazia na região.

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VOTA31
Lula, eleitor e cabo eleitoral incansável tem mais trabalho pela frente – Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas

Além do Nordeste e de Minas, é no Norte onde a presidenta que busca a reeleição tem maioria significativa. Exceto no Acre, terra de Marina, onde desta vez ela fez o dever de casa; e Roraima e Rondônia, estados nortistas onde o Primeiro Neto logrou vantagem sobre Dilma. Aécio também saiu na frente nos três estados do Centro Oeste e no Distrito Federal, incluindo Brasília.

Vai ser um longo e árduo segundo turno, já previra o ex-presidente Lula, baluarte do PT. Inegavelmente, é o maior cabo eleitoral de Dilma Vana Roussef. Hora de arregaçar as mangas, de novo. E com vontade, apesar da vantagem percentual de oito pontos.

A presidenta terá que garantir e reforçar sua liderança em Minas, agora que o confronto é direto com o ex-governador por oito anos; e mais quatro de Anastasia, que ganhou a eleição para o Senado sobre Josué de Alencar (PMDB). Também no Rio de Janeiro, terceiro e segundo colégios eleitorais do país, e onde os candidatos a governador, desde o primeiro turno, provam que ser base aliada do governo pode ser um mero sofisma.

No Sul, Dilma perdeu no Paraná, onde o governador tucano foi reeleito, e em Santa Catarina. Ali, teoricamente, há palanque para ela nesta etapa do processo eleitoral, já que o PSD se mantém na disputa. Ganhou no Rio Grande do Sul por pequena margem, na esteira da recuperação de Tarso Genro (PT), candidato à reeleição, e que passou ao segundo turno.

Jaques Wagner comemora a eleição do sucessor, Rui Pimenta e do senador Otto, em Salvador. A capital da Bahia, governada pelo DEM,  é uma das 11 onde Dilma venceu no 1º turno - Foto: Rui Costa/VOVBA/Fotos Públicas
Jaques Wagner comemora a eleição do sucessor, Rui Pimenta e do senador Otto, em Salvador. A capital da Bahia, governada pelo DEM, é uma das 11 onde Dilma venceu no 1º turno – Foto: Rui Costa/VOVBA/Fotos Públicas

A campanha à reeleição deve se debruçar sobre o comportamento dos eleitores nas capitais. Mesmo nos estados onde liderou a votação, Dilma perdeu na sede – além de Beagá e Palmas, para Aécio; Rio de Janeiro, Porto Alegre e Maceió para Marina. Ganhou em 11 das 27: Salvador, Aracaju, João Pessoa, Natal, Fortaleza, Teresina, São Luís, Belém, Manaus, Macapá e Porto Velho.

Todavia, é em São Paulo que Dilma, o PT e a militância vão ter que suar a beca para reduzir a diferença, absurdamente negativa, em relação ao Primeiro Neto. O estado inteiro, maior colégio eleitoral, e não apenas a capital.

É lá que Aécio, ameaçado de extinção, foi buscar reforço colando nos calcanhares de Alckmin, reeleito governador no primeiro turno, como previsto. E apesar das denúncias de propina no metrô e da falta d’água a impedir o banho diário da população. A mídia venal finge de morta, em defesa do ninho.

Tal atitude explica o porquê de os tucanos, malgrado a gestão, se manterem no poder há 24 anos. Em São Paulo, a ponta de lança da direita tupiniquim, choca os ovos e dá cria.

O antídoto é o trabalho, é o debate, é a vigilância, é a fé no discernimento do povo brasileiro. Como disse a presidenta-candidata em seu agradecimento pela liderança no primeiro turno:  “A luta dos construtores do futuro não deixará jamais o Brasil voltar para trás”.

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Postagem revista e atualizada em 07.10.2014, às 00:36: correções de erros de digitação e repetição de palavras em diferentes parágrafos.

 

 


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