No Congresso, nada será como antes, mas pode piorar

O Congresso Nacional, iluminado com as cores da campanha mundial 'Outubro Rosa' sobre o câncer de mama - Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Fotos Públicas
O Congresso Nacional, iluminado com as cores da campanha mundial ‘Outubro Rosa’ sobre o câncer de mama – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Fotos Públicas

 

por Sulamita Esteliam

Rapidamente, porque chego tarde, e ainda faltam horas no meu dia.

Fernando Ferro
Fernando Ferro encerra sua presença na Câmara Federal após cinco mandatos consecutivos
Nilmário Miranda e a jornalista Eneida Costa, nossa amiga comum, no encerramento da campanha em Beagá - Foto capturada no FB
Nilmário Miranda e a jornalista Eneida Costa, nossa amiga comum, no encerramento da campanha em Beagá – Foto capturada no FB

Há quem discorde, mas ao ver a lista dos eleitos e dos barrados ao Congresso Nacional em Pernambuco, ainda na noite do domingo de eleições, me deu agonia. Era perceptível a evolução do traço conservador, sobretudo com o aumento da bancada evangélica e a manutenção do mandato de políticos tradicionais.

Ontem, o próprio Diap – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar divulgou levantamento que confirma o meu temor reflexo – resumo e quadro mais abaixo. Mostra que o número de deputados ligados às causas sociais cai. Em contrapartida, aumenta a representação religiosa, ruralista e empresarial.

“O novo Congresso é, seguramente, o mais conservador do período pós-1964″, afirma Antônio Queiroz, diretor do Diap – aqui. Vale dizer, as jornadas de junho tiveram efeito bumerangue. Ou isso é o retrato em P&B da sociedade brasileira?

Deputados honrados, com trabalho reconhecido no campo social, como Fernando Ferro, de Pernambuco, e Nilmário Miranda, de Minas Gerais, por exemplo, não conseguiram se reeleger. E certamente o fator econômico foi dominante.

Se isso resulta das jornadas de junho/2013, volto a repetir, o efeito é contrário. Todavia, entretanto, reflete o que somos. Ou pelo menos o que é a sociedade brasileira manietada pela midia venal. Nisso concordo com o colega Leonardo Sakamoto, que é blogueiro e cientista político, além de jornalista.

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João Paulo liderou as pesquisas até a reta de chegada, mas está fora do Congresso, mesmo com a força de Lula - Ricardo Stuckert
João Paulo liderou as pesquisas até a reta de chegada, mas está fora do Congresso, mesmo com a força de Lula – Ricardo Stuckert

Apesar de tudo, o PT de Minas cresceu (de oito para 10 deputados), no rastro da eleição de Fernando Pimentel para o governo do Estado. Já o PT de Pernambuco, mais uma vez, pagou por suas escolhas políticas: ficou sem representação na Câmara Federal e também não conseguiu ir para o Senado – e João Paulo fica sem o mandato de deputado.

Em compensação, o PSB fez oito federais, o senador e mais de duzia de parlamentares na sua coligação com 21 partidos. Verdadeira arca de Noé, que vai do nanico PTN, passa pelo diletante PMDB de Jarbas Vasconcelos, pelo PSDB do “verde” Daniel Coelho e pelo DEM de Mendonça Filho; chega ao PCdoB (que é da base também do governo federal) de Luciana Santos, que logrou preservar o mandato.

Ex-prefeita de Olinda por duas gestões – quando seu partido era aliado natural do PT em todas os níveis – é importante que se registre, para ser justa: a deputada tem um trabalho compromissado com as boas causas, como a liberdade de expressão e a regulação dos meios de comunicação.

Há sopros de renovação e de preservação.

No entanto, é triste, e pode ser trágico o quadro geral do futuro Congresso Nacional. Se foi pedreira tocar certas causas nas legislaturas passadas – como o casamento homoafetivo e  a descriminalização do aborto, e a criminalização da homofobia ou, ainda, defender os direitos trabalhistas, por exemplo, imagina agora.

O mesmo se diz no que se refere à reforma política, a mãe de todas as reformas, objeto de plebiscito popular com 98% de SIM, mês passado. E o movimento Plebiscito Constituinte se prepara para levar o resultado aos três poderes na próxima semana. No Recife, mesmo, tem plenária na manhã desta quarta – no Sindisep, na Boa Vista.

A boa notícia, outra, em meio a quase tragédia da representação política, é a própria bancada feminina, que conseguiu crescer, a despeito de barreiras de toda natureza: eram 47, passam a 51 deputadas, e no PT em maior número – nove em 70. O blogue Mulher Negra, da mineira Mônica Aguiar, dá o quadro das eleitas pelo país.

No Senado, 11 mulheres inclusive Fátima Bezerra (PT), “mulher do povo”, segundo os conterrâneos (pelo Piauí, assume a bancária (BB) Regina Souza (PT) na vaga de Wellington Dias, que volta ao comando do governo do estado).

O crescimento irrisório, mas no meu prisma é importante celebrar. Para mudar isso, só com a reforma eleitoral, observa Nilmário Miranda em comentário em sua página no FB. Ou seja, financiamento público de campanha e voto em lista. Mas o apoio decisivo dos partidos, político e material, também ajudaria.

Para ficar no PT: fiquei chocada ao percorrer a lista de candidatos do partido em Pernambuco, e não encontrar sequer uma candidata feminina para a Câmara Federal. Na estadual, apenas Teresa Leitão que, ainda bem, conseguiu se reeleger.

os mineiros elegeram cinco mulheres em 53 parlamentares, ou 10%, percentual idêntico à proporção da bancada feminina em relação aos 513 deputados da Câmara. Dentre as eleitas por Minas, uma é do PT, Margarida Salomão; outra do PCdoB, Jô Moraes; ambas vão para o segundo mandato. Confesso que não sei o número de candidatas na disputa.

Rachel em campanha: parcos recursos e engajamento - Foto capturada no FB
Rachel em campanha: parcos recursos e engajamento – Foto capturada no FB

Minha amiga Rachel Moreno, da Rede Mulher e Mídia, disputou pela primeira vez uma vaga pelo PT de São Paulo. Em meio à selva do financiamento privado de campanha, e com a bandeira da causa feminista e dos direitos humanos, conseguiu 2.940 votos.

“Conseguimos o milagre de multiplicar os pães e, mais do que isso, votos e campanha ENGAJADOS”, refletiu em mensagem encaminhada à nossa Rede.

Pense numa mulher corajosa. Ganhou experiência, deu visibilidade ao projeto e à causa, e de quebra somou votos para quem precisava “inteirar” o coeficiente eleitoral para chegar lá. E assim nossa vida na política segue, de grão em grão.

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Eis o resumo analítico do Diap sobre a futura Câmara dos Deputados:

1) a renovação foi de 46,78%, sendo 273 reeleitos e 240 novos;

2) aumentou o número de partidos com representação na casa, passando de 22 para 28;

3) aumentou o número de mulheres na Casa, que passou de 47 para 51;

4) PT, PMDB e PSDB continuam, respectivamente, como a primeira, segunda e terceira bancadas;

5) dos três grandes partidos a partir de 2015, com mais de 50 deputados, apenas o PSDB cresceu;

6) dos sete partidos médios a partir de 2015, com entre 20 e 49 deputados (PSD, PP, PSB, PR, PTB, DEM e PRB), somente o PSB, o PTB, o PRB e o PR cresceram;

7) dos seis pequenos a partir de 2015, com entre 10 e 19 deputados (PDT, SD, Pros, PSC, PCdoB e PPS) apenas o PPS e o PDT;

8) dos três partidos muito pequenos a partir de 2015, com entre 5 e 9 deputados (PV, PSol e PHS) apenas o PV diminuiu;

9) dos nove partidos chamados nanicos a partir de 2015, com entre 1 e 4 deputados (PRP, PTN, PMN, PEN, PSDC, PTC, PRTB, PSL e PTdoB) apenas o PEN, e o PRP cresceram;

10) seis partidos que não tinham representação na Câmara (PHS, PTN, PTC, PSDC, PRTB e PSL) passaram a ter; e

11) deputados que atingiram quociente eleitoral passou de 36, em 2010, para 35, em 2014.

Fonte: EBC/Diap
Fonte: EBC/Diap

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