Não nos serve a democracia de papel

por Sulamita Esteliam

Sei que muita gente já está um tanto abusada com a política. Mas, devo confessar, está difícil mudar de assunto. Até porque, tudo é política. Quer ver?

Hoje deparei-me, no supermercado, com a capa da semanal IstoÉ. Aquela que se autonomeia “independente” e de praticar “jornalismo combativo”. Abjeta. Estampa a foto da presidenta Dilma, reeleita, e do ex-presidente Lula, seu cabo eleitoral de primeira, e sem meias palavras, já na manchete, os acusa de ter feito uma “Campanha Montada na Mentira”.

Istoe 10.14Sob medida para levar um processo judicial do PT e de Dilma, a exemplo do panfleto de direita chamado Veja, e que para mim já traz no nome o alerta “Óia!”, que tentou sabotar a eleição. Na véspera do pleito no segundo turno, a capa da Istoé, também o fez, mas de outra forma: estampou pesquisa contratada ao Sensus que dava nove pontos de frente para  Aécio Neves…

É a isso que chamam “liberdade de imprensa” que colocam no mesmo pote que  a “liberdade de expressão”. E o direito de informação, como é que fica?

Agora, a semanal da Editora Três repete, exatamente, o refrão repisado – também em vídeo de agradecimento aos seus eleitores (procurem na rede, pois não vou ecoá-lo postando-o aqui) pelo candidato derrotado. Aquele mesmo que se autodefine como do “projeto honrado” e, em mais de um debate, e em seus programas eleitorais, acusou Dilma de ser “mentirosa e leviana”.

Ocorre que, não por acaso, “os honrados perderam a eleição para as levianas”. Não resisti à frase cunhada por Lola Aronovich, do Escreva Lola Escreva, no Twitter. Perderam a eleição, mas não se emendam.

Na verdade, a oposição, que inclui a mídia venal, esperneia como má perdedora que é. Quer terceiro turno, ameaça com impeachment – não importa que não tenha motivo a não ser a derrota eleitoral.

Tem ao seu lado o Congresso conservador, e chantagista, que a cada vez que se mexe prova que o povo é apenas adereço na democracia que defendem e praticam. Uma democracia de papel, que se dissolve ao menor contato com a realidade.

 

direita_medo_do_povo_0Exemplo claro: a Câmara dos Deputados acaba de derrubar, por decreto legislativo, o Decreto Presidencial 8243/2014,  com o argumento de que “invade as atribuições do Legislativo”. Ora, o decreto nada mais faz do que regulamentar o que já existe, na prática: os conselhos setoriais como mecanismo de participação popular na definição das políticas públicas.

Pois o decreto, de fato, trata da consolidação e do fortalecimento da democracia participativa. Sim, claro, Dilma poderia ter enviado um projeto de lei – para ser votado no dia de São Nunca, de tarde e se não chover…

O mesmo destino terá a reforma política, que a presidenta se comprometeu a priorizar, mas que sabe que não acontecerá, a não ser como farsa,  se não for movida a pressão popular. É bom que os movimentos sociais estejam atentos. Só vai com o povo na rua.

Fato é que o senhores deputados – e no Senado tudo indica se repetirá – repudiam o cumprimento de diretriz emanada do povo. E referendada nas eleições que se encerraram no domingo. A presidenta foi reeleita por maioria dos votos do povo brasileiro, e para avançar nas políticas rumo a equidade, justiça social e evolução do sistema político. Umas reforma que minimize o poder do dinheiro sobre as escolhas.

E pensar que o próximo Congresso ainda é mais conservador e mais pulverizado, ainda, dá vontade de chorar.

Acompanhei, desde a noite de segunda-feira, as entrevistas que a presidenta Dilma Roussef, reeleita, concedeu aos canais de TV aberta. E a leitura do noticiário, pela rede, aponta que a mídia, também, não entendeu  qual o projeto vitorioso nas urnas.

Quer por que quer formar o ministério do segundo governo Dilma, já. Quer por que quer ditar as regras da política econômica segundo os ditames do “deus” mercado. E a presidenta, que nas entrevistas reitera sua disposição ao diálogo, por outro lado, deixa claro que valem as regras e o tempo da casa.

A postura beligerante, a estimular “setores abduzidos pelo fascismo”, conforme o senador Roberto Requião, não só escancara o quanto é venal a mídia. Indica que o segundo governo da presidenta Dilma não tem como fugir de implantar a Lei dos Meios. A Argentina fez. A Inglaterra, que é berço da democracia fez. Os Estados Unidos, o mundo inteiro tem leis que regulam a comunicação.

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Charge capturada no Conversa Afiada

Com a palavra o sociólogo, Sérgio Amadeu, doutor em Ciência Política pela USP, em entrevista ao Brasil 247. Ele fala sobre o terrorismo eleitoral de Veja, que poderia ter inviabilizado a reeleição de Dilma, não fosse a força-tarefa da internet. Mas vale para o resto:

“Essa operação da Veja mostra que ela não é um órgão de comunicação, o que ela mostrou claramente é que é uma sala do comitê político do PSDB no Brasil. A revista operou de maneira a desinformar. Ela desinformou. Ela já havia feito isso se ligando a um criminoso chamado Carlos Cachoeira e não aconteceu nada. O cara continua lá na sucursal de Brasília, não foi preso, não foi condenado. Nós precisamos mexer nessas estruturas de concentração econômica de poder, fazer uma reforma da comunicação, uma lei de meios, como a da Argentina.” 

A presidenta Dilma já disse e reforçou que fará “a regulação econômica”. Pois bem, Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, tem uma boa sugestão para começar: o governo federal deve fazer o orçamento de publicidade a partir da “base zero”. Ou seja, mensurando o retorno do investimento. Afinal, de dinheiro público se trata.

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Finalizo com a análise de Lula sobre as eleições: “Felicidade a gente dá ou reparte porque é impossível ser feliz sozinho. Seja generoso. Dê uma chance às pessoas de terem o mesmo que você”:

 


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