De filha para mãe e de mãe para filha

Mamãe, querida,

Dona Dirce, minha mãe - SE
Dona Dirce, minha mãe – SE

Faz tempo que não trocamos figurinhas, e me pergunto em que ponto dessa vastidão do Universo você está a espalhar sorrisos e compaixão.

Ontem, bateu uma dor tão intensa e profunda, que me foi impossível escrever qualquer coisa para lembrar os 15 anos de seu encantamento. Quinze anos é muito tempo, mãe, quase uma vida. Mergulhei em pasmaceira total, sem a menor vontade de fazer coisa alguma.

Pudesse eu, e teria emendado noite com dia, e dormido, dormido, dormido…  Ainda que me enquadre na categoria das pessoas que carecem de muito menos sono que a média da humanidade.

Há dias assim, em que a gente quer fugir de si e do mundo. Pare, que eu quero descer.

Mesmo os adeptos incondicionais do pensamento positivo, do otimismo como foco de vida, caem em tentação, vez por outra, não é verdade? Sei que me entende.

Lembra-se de quando eu descobri que tinha lúpus? Mergulhei em tamanha deprê que você se achou no dever de me sacudir. “Cadê a mulher corajosa, determinada e decidida a ser feliz que você sempre foi? Deus escreve certo por linhas tortas, não se esqueça”, me disse.

Você sabe que sou do tipo que acredita: na força espiritual, na energia superior que em nós habita e que nos rege, onipotente e onipresentemente. Sempre deu certo.

Mas tem horas e situações em que fico a me perguntar se a fonte, o Todo Poderoso em quem você nos ensinou a crer, não abusa dos descaminhos e de tempestades para nos levar a porto seguro. Se porto seguro há …

Quando penso nisso, ouço você me repreender: “Deixe de blasfêmias, menina, que Deus castiga”.

Não. O Deus em que creio não é carrasco, nem vingativo, nem sacana; é misericordioso.

Quando do diagnóstico de lúpus, minha sensação era de que os sonhos recorrentes no desabrochar da mocidade se corporificavam, e eu despencava no abismo infindo.  O que você não entendia é que eu precisava chegar lá.

Todo poço tem fundo, e o escalei de volta à superfície.

Tomar consciência das nossas limitações é o ponto de partida para lutar contra elas. Passado o desespero, eu prometi a mim mesma que iria me curar. A despeito dos compêndios.

Durante 15 anos, com o devido acompanhamento médico, mas adaptando as prescrições à minha maneira e ao meu ritmo de vida, consegui manter a doença sob controle. A cada checagem, os exames confirmavam que eu não portava a forma mais grave da doença.

Não me acometia o sistêmico, mas o discóide. Sequelas ficaram, para toda a vida. Mas nada que minha autoestima não tenha conseguido driblar. E o mais importante: o alerta de que um poderia transformar-se em outro, que pode vir a ser fatal, não se traduziu em fato.

Todavia, foi com sua ajuda que me curei, definitivamente. Você, que na infância e adolescência, cuidou de minhas crises “alérgicas”. Você que ainda a caminho da despedida, se preocupava com minhas faces em fogo, ativado pela tensão das circunstâncias.

Então, à beira do seu túmulo, permite-me: pedi a você que levasse consigo o mal que me acometia, se pudesse.

Nunca mais tomei um grama de medicamento. Nunca mais me preocupei em repetir exames. As lesões cicatrizaram, como que tiradas com a mão. Nunca mais tive uma crise.

E os compêndios continuam a dizer que lúpus não tem cura.

Ontem, enquanto recordava nossos últimos momentos juntas, há 15 anos, eu estava no hospital, também. Na cama, em seu lugar está a Zeíca, a nossa caçula, mãe. Mas, graças aos céus e aos médicos terrenos, ela não corre mais risco de ir ao seu encontro.

E pus-me a imaginar se, sob a nuvem que entorpece seus sentidos, não haveria a recordação de você e seu passamento. Se, do alto da fé que sempre a moveu, ela não possa clamar por ajuda, como eu fiz.

Zeíca e Euzinha nos divertindo em festa de casamento em família - Foto: Clarice Malaco
Zeíca e Euzinha nos divertindo em festa de casamento em família – Foto: Clarice Malaco

Logo cedo, como faço todas as manhãs, ao dar meu bom-dia, digo a ela o dia da semana, data e local onde estamos. Zeíca me olha firmemente, mas não pode falar. Ontem, acrescentei a informação:

– Há 15 anos, no 1º de junho, nossa mãe virou estrela, você se lembra?

E ela fechou os olhos – e se pôs dormir, dormir, dormir… o dia inteiro, a noite inteira. E hoje, novamente, não quer saber de contato.

Contudo, ainda responde e localiza a dor – do alongamento da coxa na sessão de fisioterapia, do esforço de movimentação do tronco quando é levada a sentar-se na cama, com o devido apoio, da tosse recorrente após a micro-nebulização.

Vez por outra, suspira profundamente, soluça para chamar atenção, ou flagro olhos vermelhos, merejados, lágrima furtiva no canto dos olhos.

É pela dor que ela nos mostra que está viva, e voltando para nós… Mas, como dói.

Passamos dias complicados com ela, mãe. Desde o atropelamento e cirurgia, faz pouco mais de dois meses. Houve dias em que chorei escondido. Sei que você sabe.

A gente tem segurado o tranco, cada qual do jeito que pode. Todavia, às vezes, independentemente da nossa vontade, nos sentimos desamparados, quebrados na emenda, é forçoso confessar.

Sula irmaos infancia 3

Verdade é que nunca, depois dos tempos duros e turbulentos da infância e adolescência, precisamos tanto de colo, todos nós. E o seu mãe, só guardamos no sentido.

O sufoco maior já passou, bem o sabemos. Os progressos da Zeíca são lentos, mas para nós, que a amamos, evidentes. Temos consciência de que há longo caminho a percorrer, e é preciso paciência e resignação.

Só o tempo pode confirmar se, de fato, o nível das sequelas que ficaram do acidente não vai roubá-la de nós em vida.

Vacilamos, mas mantemos a esperança, fé e confiança. O cérebro ainda é um enigma a ser desvendado pela ciência médica. Precisa de tempo para se reorganizar e reconectar.

Zeíca há de voltar a nos encantar com seu sorriso, sua voz cristalina, seu carinho, sua força, sua energia.

Há dias em que creio nisso, firmemente.

Por isso mãe, antes de me despedir, peço do mais fundo do meu coração claudicante: interceda, se puder.

Com amor de alma cheia.

Sua primogênita,

Sula

 

Belo Horizonte, 02 de junho de 2015


4 comentários sobre “De filha para mãe e de mãe para filha

  1. Cara dona Dirce, a Sula é minha amiga há 40 anos. Hoje ela faz parte da qualidade irmã, e, assim sendo, tomo de empréstimo uma dobra do seu manto protetor. Manto de mãe, que só as mães têm e só os filhos sabem. Ouso, a despeito da distância que nos separa, a reforçar o pedido da minha amiga-irmã: Se puder, interceda.

  2. Querida prima SULA,
    Aqui estou eu,com meu coração dolorido,compartilhando esses dias tão difíceis para vocês, e para mim também. Entrar para sua família não foi um mero acaso…fazer parte dela em tantos momentos foi uma honra.
    Dentro da fé que venho buscando e no conhecimento da caminhada diária, eu sinto que DEUS, em sua sabedoria e graça,os dará a força e capacitação para viver esses dias e neles absorver o que for preciso para não desistir ver tudo com coragem e paciência…Em muitos momentos difíceis da minha vida sua mãe e vocês estiveram ao meu lado me orientando e muitas vezes corrigindo.Estes tempos foram para mim, fundamentais para hoje eu estar conseguindo viver melhor e muito mais firme nos meus caminhos.Eu hoje creio que passamos pelos vales,mas passamos, e neles construímos nossa história que pode edificar muitas vidas,e assim deixamos um legado positivo para outras gerações.Tenho encontrado sentido e respostas na minha caminhada com a palavra de DEUS escrita na bíblia…Em ISAÍAS 55, versos 8 ao 13 :O SENHOR DEUS diz:Os meus pensamentos não são como os seus pensamentos, e eu não ajo como vocês.Assim como o céu está acima da terra.assim os meus pensamentos e as minhas ações estão muito acima dos seus.A chuva e a neve caem do céu e não voltam até que tenham regado a terra,fazendo as plantas brotarem e crescerem e produzirem sementes para serem plantadas e darem alimentos para as pessoas. Assim é a minha palavra, ela não volta para mim sem nada, mas faz o que me agrada fazer e realiza tudo o que eu prometo.
    Aprendi que quando compartilhamos as alegrias e as dores das pessoas nos tornamos parte delas e assim nos fortalecemos. VOCÊ foi treinada para vencer prima,eu sei que é por isto que está onde está e fazendo o que está fazendo…mas não está só…perceba que é muito amada!!!
    Beijos…se precisar..me chame.
    QUEL

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