Nadamos em águas traiçoeiras

por Sulamita Esteliam
cunha
Eduardo Cunha faz da presidência da Câmara uma arma contra o governo da presidenta Dilma Roussef – Foto: Agência Pública

Bem que eu gostaria de iniciar a semana no blogue falando de coisas vitais como amizade, já que nesta segunda, 20 de julho se comemora o Dia do Amigo. E esta reles blogueira tem o privilégio e a felicidade de cultivar uma legião – algumas desde a infância longínqua.

Salve, salve, caras e caros. Sintam-se efusivamente abraçadas/os.

Todavia, o mar não está para peixe. Ainda que o Congresso esteja de recesso até o início de agosto, depois do estapafúrdio pronunciamento do presidente da Câmara, na sexta, 17. Respondido com extrema serenidade pelo Palácio do Planalto em Nota à Imprensa, na mesma data.

Há quem veja na declaração de guerra do “homem bomba” o famoso tiro no pé que poria fim às suas diatribes na Presidência da Câmara. Até porque seu caminho seria o isolamento e a consequente renúncia. Renato Rovai, em seu blogue, vai nesta linha.

Altamiro Borges, entretanto, recomenda cautela a quem acha que o desespero de Cunha represente a sua morte política.

Há quem aposte que o alopramento de Eduardo Cunha, como sempre, se dá em causa própria. Ao atirar em Dilma, o deputado mira o procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, a quem cabe indiciá-lo junto ao STF. É o que escreve Antônio Lassance, em Carta Maior.

Nadamos em águas traiçoeiras.

E não pense você que não temos nada com isso. É do destino do país, do seu, do meu, do nosso destino que se trata.

Como bem escreve Ricardo Melo, na Folha, “a conspiração não entra em recesso”. Ele traz informações gravíssimas no corpo do artigo que leio via Blog do Miro.

Transcrevo:

Conspiração não entra em recesso

Nesse clima, é bobagem pensar que o recesso parlamentar equivale à água na fervura da crise

Esta Folha (14/07) noticiou um fato da maior gravidade. Na residência oficial da Presidência da Câmara dos Deputados, o chefe da Casa, Eduardo Cunha, dividiu o “breakfast” com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o impagável Paulinho da Força, do partido Solidariedade. Além de guloseimas habituais, constou do cardápio nada menos que o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Boquirroto como sempre, Gilmar confirmou o debate sobre o assunto. “Ele [Cunha] falou dos problemas de impeachment, esses cenários todos”. Perguntados pela reportagem, Paulinho da Força e o presidente da Câmara tergiversaram, sem convencer. O texto afirma que o deputado do Solidariedade especulou que a derrubada da presidente (pois é disso que se trata) supõe um acordo entre Eduardo Cunha, o vice Michel Temer, Renan Calheiros, chefe do Senado, e o presidente do PSDB, Aécio Neves.

Se isto não é conspiração, é bom tirar a palavra do dicionário. Que diabo pode representar a reunião entre o terceiro nome da linha de sucessão do Planalto, um ministro da mais alta corte da Justiça e um parlamentar adversário obsessivo do governo – os três para discutir a deposição de uma presidente eleita?

A qualidade dos interlocutores dissipa dúvidas. A capivara é geral. O presidente da Câmara, de currículo mais do que suspeito, foi acusado de embolsar milhões de dólares em negociatas. O ministro Gilmar, dono de um prontuário de atitudes controversas, é conhecido por travar o fim do financiamento empresarial nas eleições.

A presença de Paulinho da Força mostra-se tão exótica quanto reveladora. Exótica porque se desconhece, pelo menos em público, qual credencial do insignificante Solidariedade para participar no colóquio. A contribuição mais relevante da legenda vem sendo a de responder “impeachment” a qualquer questão do cenário político.

Reveladora quando se sabe que o ex-sindicalista protagoniza vários processos e membros do seu grupo estão enrolados até o pescoço na Lava Jato. Detalhe: o partido destacou-se como o único a soltar nota de solidariedade, sem trocadilho, ao pronunciamento destemperado de Eduardo Cunha após ser acusado de beneficiário da corrupção. Nem a legenda dele, PMDB, atreveu-se a tanto.

Nesse clima, nenhum recesso parlamentar coloca tropas em descanso. A coisa é bem maior. Na verdade, a conspiração sempre prefere trabalhar à sorrelfa. Limites constitucionais, veleidades jurídicas e direitos elementares mais atrapalham do que ajudam num cenário de vale tudo.

As denúncias contra o ex-presidente Lula trazem novo exemplo. Vão das baixarias das “nove digitais” esgrimidas num documento tucano até acusações de… ajudar a expandir negócios do Brasil no exterior quando já havia deixado o cargo público! Por causa disso, Lula virou alvo de ação estimulada por um procurador notório pela campanha nas redes sociais contra o PT; e por outro que tem mais de 200 ocorrências de negligência no exercício da função. Já a fundamentação judicial nem zero tiraria em redação de vestibular.

Quem vai assumir a responsabilidade por tanta irresponsabilidade? A sensação é a de um conjunto de forças sem liderança. Sua única bandeira parece ser Delenda est PT. Em torno dela, cada um opera a seu bel prazer –Sergio Moro, Rodrigo Janot, procuradores excitados, Polícia Federal desgovernada, parlamentares paroquiais – tudo isso diante de um governo entre atônito e preocupado, mas sem iniciativa face à degradação das condições de vida da maioria. Cabe lembrar: nem sempre do caos nasce a ordem.

 

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Postagem revista e atualizada dia 21.07.2015,às 10:20: na primeira linha do quinto parágrafo, o correto é “a quem” e não “em que” como na postagem original.


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