Os fatos e a farsa traduzem a quinta-feira no Brasil

por Sulamita Esteliam

Esta quinta-feira, 17,  é para ficar na História – como fato e como farsa. Traz no bojo três notícias com um ponto em comum: os ‘coroné’, seja qual for a indumentária – toga, gravata ou cartola – perderam. E o Brasil só tem a ganhar com isso. Na contramão da República e da legalidade, o que certamente é o foco da mídia venal, a entrega de mais um pedido de impeachment da presidenta Dilma, que seria da  lavra do jurista Hélio Bicudo. Na verdade, uma tripla fraude.

A começar que o ex-petista vem sendo apresentado pela mídia como “fundador do PT”. É mentira. E quem desmente é o próprio Bicudo em entrevista à revista Teoria e Debate, em novembro de 2001: “Não participei da fundação do PT. Depois foi que nos filiamos”, diz em certo trecho. O Vi o Mundo garimpou e reproduz a entrevista (imagem ao lado).

Dois dos sete filhos de Bicudo já declararam que o pai, um senhor com mais de 90 anos de idade e saúde bastante precária, está sendo usado “pelos golpistas”. Um deles, em  depoimento ao DCM reafirma o desvio de conduta do pai, e o explica como sendo, em parte, “fruto do profundo rancor” que Bicudo, que “gosta de holofotes”,  desenvolveu por Lula e pelo PT.  Uma das irmãs deles, porém, é cúmplice da empreitada.

Ela foi à Câmara, nesta quinta, acompanhada de Miguel Reale Jr, o jurista encarregado pelos tucanos de forjar o pedido de impedimento. Pois está feito. Agora é ver que andamento Eduardo Cunha dará à meia dúzia de requerimentos do mesmo quilate que lá estão.

Querem transformar o Brasil num caos, isso sim. Mas não passarão.

A presidenta Dilma Roussef, entre Lewandovisk, presidente do STF, e Rodrigo Janot, reconduzido à Procuradoria Geral da República - Foto: Lula MNarques/Agência PT/Fotos Públicas
A presidenta Dilma Roussef, entre Levandowisk, presidente do STF, e Rodrigo Janot, reconduzido à Procuradoria Geral da República – Foto: Lula Marques/Agência PT/Fotos Públicas

 

Na cerimônia de posse do procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, na tarde do mesmo dia, a presidenta Dilma Roussef voltou a exortar que os que pleiteiam o poder respeitem o primado do voto, o limite das leis:

“Nesses tempos em que, por vezes, a luta política provoca calor, quando devia emitir luz, torna-se ainda mais relevante o papel da Procuradoria-Geral da República como defensora do primado da lei, da justiça e da estabilidade das instituições democráticas”, disse. No Blog do Planalto tem mais.

Isto posto, elejo minhas três notícias do dia  – na verdade quatro, pois uma delas está embutida noutra:

1. Por 8 votos a 3, o STF – Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional a doação empresarial, pessoa jurídica, para campanhas eleitorais, acolhendo pedido da OAB. A decisão já vale para as eleições municipais ano que vem. Acabou-se o que era doce. Facilitada está a vida da presidenta Dilma Roussef, que pode vetar, sem pejo, a lei do propinoduto empurrada goela abaixo pela Câmara dos Deputados, onde o rei da arrecadação eleitoral, Eduardo Cunha (PMDB) é absoluto.

De nada adiantou Gilmar Mendes dar salamaleques em plenário, na sessão do dia anterior – como “diva diabólica”, na ótima definição do mestre mineiro, Paulinho Saturnino. Isso depois de destilar ódio e acusações contra o PT , quando leu “seu voto”, que pôs fim ao pedido de vistas ao processo que durou mais de 500 dias, e que só foi liberado depois que a Câmara reaprovou a manutenção do financiamento privado, derrubado pelo Senado.

Perdeu, “coroné”! A farra acabou.

E Ricardo Levandowisk, presidente do STF, deixa claro, que de nada vale maracutaias para ressuscitar o expediente:

“O julgamento do STF, todos assistiram, baseou-se em princípios constitucionais. Baseou-se no princípio da igualdade de armas, baseou-se no princípio da isonomia, baseou-se no princípio da democracia, baseou-se no princípio republicano, baseou-se no parágrafo 9º do artigo 14 da Constituição, que fala da normalidade das eleições. Então, qualquer lei que venha possivelmente a ser sancionada ou não, ou que venha a ser aprovada futuramente e que colida com esses princípios aos quais o STF se reportou e com base nos quais se considerou inconstitucional a doação de pessoa jurídicas para campanhas políticas, evidentemente terá o mesmo destino”.

Faço minhas as palavras de Leonardo Sakamoto, jornalista e cientista político, em seu blogue: Já basta de candidatos eleitos com o rabo preso.

E por falar em rabo preso, o deputado federal Jorge Solha (PT-BA) recebeu uma espécie de “baú da Odebrecht”, entregou os originais ao delegado Bráulio Cézar Galloni, coordenador-geral da Polícia Fazendária, na Polícia Federal, em Brasília. A empreiteira, todos sabem, tem seu berço na Bahia.

Trata-se de uma série de documentos, da contabilidade extraoficial da construtora, que listam obras, políticos e propina do fim da década de 80. Os arquivos estão aqui: https://drive.google.com/folderview?id=0B8omhYoODqbNYngwRnpfbU9PU2c&usp=sharing

E o que isso tem a ver? Ora, no mínimo, pode ser um bom ponto de partida de investigação de como é que a roda gira. Como se diz no jargão policial: é só seguir o dinheiro.

Muitos dos políticos que constam na coluna de débito acabaram no ninho tucano. Há mortos e aposentados, mas há gente ainda na ativa. O Conversa Afiada traz detalhes.

Maria do Rosário: vitória simbólica para as mulheres - Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agênica Brasil/Fotos Públicas
Maria do Rosário: vitória simbólica para as mulheres – Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agênica Brasil/Fotos Públicas

2. “Não é pelo dinheiro. É pela vitória de todas as mulheres.” Assim a deputada Maria do Rosário (PT-RS), ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos no primeiro governo Dilma, resumiu seu estado de espírito ante a condenação do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) por agressão verbal contra ela no plenário da Câmara. Em dezembro de 2014, o deputado disse que não a estupraria “porque você não merece”. Ele foi condenado, em primeira instância, a indenizar Rosário em R$ 10 mil.

É pouco.

Maria do Rosário lembra que o que ela passou faz parte do cotidiano de muitas mulheres: “Independente do valor, essa condenação tem um sentido, mostra que a imunidade parlamentar não pode servir para incitação da violência e do ódio contra as mulheres.” É primeira vez que ocorre uma condenação desse tipo.

Bolsonaro, que se alinha entre os golpistas de primeira, segunda e terceira horas, é conhecido por sua agressividade e posições misóginas, machistas, homofóbicas e racistas. Foi denunciado, também, pelo Ministério Público por incitação pública ao estupro e quebra do decoro parlamentar. Se condenado, pode ter o mandato cassado. Saiba mais na Rede Brasil Atual.

JeromeValcke-Danilo Borges_ Portal da Copa_Publica3. Lembra-se do secretário-geral da Fifa. Sim, Jerôme Valcke, o francês que ameaçou “chutar o traseiro do Brasil” por conta do pretenso atraso nas obras da Copa do Mundo 2014? Pois é. Ele é quem acaba de levar o pé no traseiro, e sabe por quê? Por acusação de desvio de dinheiro das vendas de ingressos no mundial de futebol que se deu nas plagas tupiniquins. Em outras palavras: corrupção.

A matéria do Portal Terra a respeito conta a história direitinho.

Nada como o tempo que o tempo tem…

 

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Postagem revista e atualizada às 10:52 hs: correção de erros de digitação e gramática em diferentes parágrafos; inclusão da imagem da entrevista do Bicudo à Teoria e Debate, citada no texto mas omitida na postagem original. Minhas desculpas.

 

 

 

 


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