Regular para garantir liberdade e democracia

por Sulamita Esteliam

Vou mudar o viés, mas manter a pauta, que afinal envolve várias ramificações e pode ser resumida em duas palavras: poder e democracia. A pergunta que não quer calar é: há vida fora da política? Tudo é política. A omissão é política, que dirá a comunicação – clique para assinar o projeto de Lei da Mídia Democrática.

seminariomidiaedemocraciaamericasPois São Paulo, a megalópole ensandecida, mas o verdadeiro umbigo do Brasil, recebe neste final de semana e em meados da seguinte dois seminários sobre mídia e democracia.  Debate essencial à manutenção e aperfeiçoamento dos regimes democráticos, em qualquer ponto do planeta, mas abaixo da Linha do Equador muito mais.

O primeiro, já anunciado há dias na seção Acontece, na coluna lateral deste blogue, trata exatamente desses territórios, mas não apenas. Mídia e Democracia nas Américas, de 18 a 20, no Hotel San Rafael, no Largo do Arouche, centro. É promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e da Alai – Agência Latino Americana de Informação, do Equador. Conheça a programação.

banner-seminario MPFRegulação da Mídia e Direito à Comunicação é o outro seminário, também, internacional, que acontece dias 23 e 24 deste mês, no auditório da Procuradoria Regional da República 3ª Região, na Bela Vista, área paulistana central. É promovido pela Procuradoria dos Direitos do Cidadão/MPF em parceria com a FIO – Federación Iberoamericana de Ombudsman e Findac – Fórum Interinstitucional pelo Direito à Comunicação. Este último é integrado pelo Coletivo Intervozes, a Artigo 19 e o Barão de Itararé. A

A iniciativa é apoiada pela Esmpu – Escola Superior do Ministério Público da União e  ANPR – Associação Nacional de Procuradores da República.. Traz nomes como o jornalista Alberto Dines, do Observatório de Imprensa, e Toby Mendel, diretor-executivo do Centre for Law and Democracy.

Toby fará a conferência de abertura do evento: Regulação da Mídia, Censura ou Liberdade de Expressão. Ainda há tempo para se inscrever, e é sem custo. Aqui a programação completa.

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laerte e o pig e a democracia

Por falar em mídia,  desde ontem quero compartilhar um artigo com vocês, mas havia prioridades. Fala sobre o jornalismo brasileiro. Não pode ser preguiça, desleixo e medo de perder o emprego, tão somente. É quando a indigência intelectual, moral e o fígado –  ocupam o lugar do cérebro.

Assina o jornalista Luiz Costa Pinto, ex repórter da Veja (que eu chamo de Óia!) e da Época (atraso editorial), que Euzinha capturei no blogue Cidadão do Mundo, do Whashington Araújo, via Twitter. Precisa ser lido.

Sim, encurtei o título original, para facilitar a edição aqui no A Tal Mineira.

 

A necrópsia do jornalismo brasileiro

por Luiz Costa Pinto*

 

Jaz nas telas de computadores, laptops, tablets e smartphones do país inteiro o cadáver insepulto do jornalismo tupiniquim.

Morreu em decorrência da falência de múltiplos órgãos. Nos momentos derradeiros a bile começou a irrigar a cabeça de muitos, e ali já não havia cérebro – o fígado se instalara no crânio de “jornalistas” e de seus “chefes”.

O necrológio do jornalismo brasileiro está escrito em cifras e códigos nas entrelinhas daquilo que não se perguntou, que não se escreveu e que não se analisou nos textos que informam a existência de um pedido de um delegado federal para ouvir o ex-presidente Lula no âmbito dos inquéritos da Lava-Jato.

Não acho que Lula ou qualquer outro ex-presidente, autoridade ou ex-autoridade seja intocável e não esteja passível de prestar contas do que fez. Mas tenho convicção que tudo deve seguir o rito institucional. E ser jornalista, ser imprensa, obriga a que todos se atenham aos ritos. Aos ritos.

O delegado infere, presume, supõe, crê, acha, enfim, que o esquema de corrupção ora em apuração serviu para beneficiar a sustentação política dos governos liderados por Lula. Mas será que só ele, genial, acha isso? É óbvio que, ao ouvir de forma isenta as delações, ao ler as narrativas publicadas, cada um de nós infere, supõe, crê, acha a mesma coisa. Isso é motivo para um delegado federal dirigir-se à Corte Suprema para pedir a oitiva de um ex-presidente? Descontadas as inferências, presunções, suposições, crenças, achismos, implicâncias e partidarismos, enfim, há algo realmente concreto donde se possa depreender uma orquestração criminosa promovida por Lula? E, se houvesse, não seria natural e esperado que tais demandas saíssem para conhecimento público a partir da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba – cuja competência técnica parece ser acima da média e vem sendo comprovada dia a dia com o alto percentual de confirmação de seus atos no Supremo? E não tendo Lula qualquer foro privilegiado, afinal ex-presidentes não têm foros privilegiados, por que um delegado federal de Brasília faz um pedido ao Supremo Tribunal Federal para investigar Lula se o caminho natural e próprio seria pedir isso ao juiz Sérgio Moro, que conduz os julgamentos da Lava-Jato em Curitiba?

Por que isso ocorre em Brasília? E por que vaza numa sexta-feira de manhã? E por que vaza para Época? E por que vaza para um repórter específico que já tem um contencioso com a defesa jurídica do ex-presidente em razão de outras reportagens? E por que os jornalistas que nas últimas horas ecoaram esse expediente no mínimo heterodoxo da Polícia Federal não fizeram, ainda, essas perguntas? Por que o texto original do furo em Época não traz, já, uma série de respostas a esses porquês? Por que o texto inaugural do caso, no site de Época, não põe o delegado federal respondendo se ele acha que inventou a pólvora que pode implodir de vez a biografia de Lula? Se ele crê que só ele acha tudo aquilo. E por que, sendo delegado federal, não se dirigiu a Sérgio Moro? Aliás, o juiz Moro, que fala pouco e parece sentenciar bem, poderia abrir uma exceção e se pronunciar sobre esse pedido.

A ressaca desse assaque pode ser devastadora para quem deseja ver o cadáver do ex-presidente Lula exposto, esquartejado, nos postes da Esplanada dos Ministério e participar da salga dos escombros do Sindicato dos Metalúrgicos e da sede do PT em São Paulo. E se o Ministério Público achar que esse pedido é descabido? E se, mesmo tendo seguimento no STF, os ministros da Corte decidirem que o pedido é esdrúxulo? E, pior para os advogados do quanto pior melhor: e se Lula for absolvido, inocentado? Um Lula inocentado, solto nas ruas, não seria bem pior que um Lula suspeito para quem tanto o teme? O para os que tanta ojeriza a ele professam e confessam numa evidente expressão de inveja biográfica? De recalque de classe?

Estamos numa República em que há lavanderias de dinheiro em escala semelhante à existência de abatedouros clandestinos de reputações.

Vivemos num país em que parte de uma imprensa que agoniza em praça pública revogou a missão de questionar, de investigar, de fazer as perguntas mais tortuosas às fontes mais amigas a fim de brilhar intensamente por fugazes 15 segundos.

E creiam: aqui grassa também a lavagem de fatos. Ela se dá quando, esgotadas as possibilidades de se demonstrar a veracidade de uma apuração, costura-se um rol de meias verdades, de inferências, de mentiras, de histórias fantásticas e outras reais, desconexas entre si, mas alinhavadas com nexo, e aí se leva a público um enredo verossímil.

Depois disso, cabe aos acusados, ou às vítimas e às suas carcaças, provar a verdade – porque as provas só são exigidas da verdade. A mentira pode ser apenas verossímil se ela servir para confirmar o que a bile quer ver confirmado a fim de atender ao comando do fígado que hoje ocupa o lugar dos cérebros na maioria das redações remanescentes.

*(Jornalista Luís Costa Pinto foi editor de Veja e de Época)


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