A diferença que faz a delicadeza, em qualquer tempo e lugar

por Sulamita Esteliam

Estava preparando outro texto para a postagem do dia, mas resolvi dar um refresco em temas ácidos, por hoje. Ando precisando de delicadezas, e acredito que você também.

Despertou-me o título de deliciosa postagem do Fernando Brito no Tijolaço; reproduzo mais abaixo. Escreve a propósito de documentário sobre Chico Buarque, de Miguel Faria Jr, que estreia nesta quinta, primeiro dia de outubro, na abertura do Festival de Cinema do Rio – o trailer acompanha a postagem.

Brito faz uma ponte do protagonista, sua vida, sua obra, com a crise de gentileza que grassa nesta terra brazilis, e que vem tornando o ar cada vez mais rarefeito neste nosso imenso torrão. E como dói.

De minha parte, faço o que posso para distrair o fígado.

Há dias, tenho usado minha hora de almoço para ouvir músicas do jeito antigo. Ligar o som, escolher uns CDs e botar para tocar do princípio ao fim, usando todas as gavetas disponíveis do aparelho. Almoço e faço a sesta ouvindo música. Retomo o batente energizada.

Sessão nostalgia, isso mesmo: Gil, Milton, Cássia Eller, Luiz Melodia, Clara Nunes, Adoniran Barbosa, Elis Regina, Osvaldo Montenegro, Gal, Gonzaguinha, Eric Clapton, Caetano, Zeca Pagodinho, Zé Geraldo, Cartola, Queen, JotaQuest, Paralamas, Rita Lee, Beatles, Tim Maia, Edilza… e Chico, eterno e adorável Chico.

Tive todos os vinis dele, e guardo algumas relíquias que sobreviveram à sanha da prole, à espera do dia em que ainda compro um toca-discos para ouvir meus bolachões.

Assumo minha data de validade. Pouco me importa se é antigo ouvir música fora de play list.  Ignoro que discos se tornaram exclusividade das pic ups de DJs.

Devo ter todos os CDs do Chico, inclusive as coletânenas; menos O Amante, que está emprestado há anos com a filha Carol, outra apaixonada pelo galante homem. É parte da caixa que ganhei de presente de aniversário do companheiro, anos passados, e claro que quero de volta.

Gosto mais do compositor que do escritor, embora ele possa discordar da minha preferência. Além de tudo, é um homem admirável em sua coerência e inteireza.

Ave, Chico!

 

Chico Buarque e o tempo da delicadeza

POR FERNANDO BRITO – Tijolaço

 

chico

Pode parecer estranho aos jovens, mas o Brasil já viveu um tempo de delicadeza, mesmo em meio a uma realidade opressiva e sangrenta como aquela da ditadura em que vivi minha infância e adolescência.

Porque a crueldade e a burrice eram as oficiais, mas as pessoas – a imensa maioria – eram gentis, algo que parece estar demodê.

Vendo pedacinhos do documentário “Chico Buarque – Um artista brasileiro”, de Miguel Faria Jr. (o que reproduzo abaixo e o do Fantástico, também muito bom), que estreia amanhã, no Festival de Cinema do Rio, senti vontade de agradecer a Chico ter sido um dos que proporcionou a minha (e a várias) gerações este privilégio.

Não perco tempo em falar sobre sua obra, a poesia, o ritmo, a coerência, a  combatividade que lhe valeu um exílio, a brasilidade e tudo o que todos aprendemos a ver nele.

Fixo-me no que mais precisamos agora, do que nos faz tanta falta, o tempo de delicadeza que sempre está presente nele e tão ausente de nós, hoje, na vida brasileira.

E me sirvo de quem escreve muito melhor isso, ele próprio: “Pretendo descobrir/No último momento/Um tempo que refaz o que desfez/Que recolhe todo sentimento/E bota no corpo uma outra vez”.

 

 


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