‘A alma de Minas está soterrada’, clama o poeta Nísio Miranda

por Sulamita Esteliam

O amigo Nísio Miranda, poeta das Gerais – e companheiro de lutas políticas, pela cidadania e pelos direitos humanos -, gentilmente, envia para publicar no A Tal Mineira.  Muito obrigada.

As notícias do inicio da noite desta segunda-feira são de que há três corpos identificados até agora, todos de trabalhadores da mina, vítimas do rompimento das barreiras com rejeitos de mineração em Bento Rodrigues, distrito de Mariana., quinta feira, 05.

Oficialmente há 25 pessoas desaparecidas, 15 das quais, moradores região. O Corpo Bombeiros conta 612 desabrigados, instalados em hotéis da região. Ainda não se conhece resultado da análise sobre a toxidade dos rejeitos.

Há grande clamor popular pela definição das responsabilidades e pelo acesso da população ao centro de operações e resgate que, segundo consta, funciona intra-muros da empresa.

Aliás, parece que o governador Pimentel está com sérios problemas de senso de oportunidade: onde já se viu dar coletiva de imprensa na sede da empresa causadora, por bem ou por mal, de tamanho desastre!?

Sim, por que custa-me crer que possa ter sido orientação da assessoria política e de comunicação. Francamente!

Em situações como tais, não basta ser correto e previdente. Tem que estar sensível e mostrar sensibilidade.

Botar o pé na lama de vez quando faz bem.

Menos mal que hoje, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente embargou as atividades da mineradora Samarco até apuração das causas do acidente.

 

As famílias dos desaparecidos estão angustiadas. O Corpo de Bombeiros, entretanto, diz que é preciso cuidado nas buscas - Fotos: Antônio Cruz\/Agência Brasil/Fotos Públicas
As famílias dos desaparecidos estão angustiadas. O Corpo de Bombeiros, entretanto, diz que é preciso cuidado nas buscas – Fotos: Antônio Cruz\/Agência Brasil/Fotos Públicas

 

Auto de Desagravo a Bento Rodrigues

Nísio Miranda*

 

A alma de Minas

está soterrada.

A alma dos Gerais

está enlameada.

 

Como repletos de lama

estão meus ouvidos,

minhas narinas,

minha boca,

meus olhos,

meus pulmões,

as estradas.

 

Limpa, apenas a

consciência

dos omissos.

 

Imaculada, apenas

a imprevidência

dos impunes

desse e de outros

crimes de mesma

– ironicamente – lavra .

 

desse e de outros

crimes de mesma

– ironicamente – lavra .

 

À extensão ampliada

das crateras,

ao crescimento

desmedido dos buracos,

a inversa proporção

ao cuidado,

a ínfima preocupação

com o todo,

e a percepção inflada

do lucro.

 

Ah, sagrado solo

dessas Minas!

Ah, indispensável água

dessas fontes!

Ah, vidas ceifadas

por essa sina

de ser apenas riqueza,

– mero recurso –

aos olhos

insensíveis dos

que investem

e às burras eleitorais

dos que governam!

 

E dos que, incautos,

esperam sempre o

tempo da solidariedade,

e a exercem como se se

redimissem

da ausência de convicção

e seriedade

com que deveriam

exercer suas escolhas.

 

Que dobrem os sinos

de Mariana, de Ouro Preto,

de Congonhas, de Nova Lima,

de São Gonçalo, do Mato Dentro,

de Sabará, de Santa Bárbara!

Que dobrem, de Minas, todos sinos!

Pelas mulheres, pelas meninas,

pelos homens, pelos meninos,

por suas almas, por seus destinos,

Dobrem, dobrem, de Minas, todos os sinos!

 

Que dobrem, de Minas, todos os sinos!

 

 

Pelos que dormem, pelos que sonham,

pelos poderosos, pelos pequeninos,

pelos que choram, pelos de antes,

pelos de hoje, pelos que virão…

Pelas panelas, ora silentes.

 

Dobrem, dobrem, sinos de Minas!

 

Pelos eleitos, pelos esquecidos,

pelos atingidos, pelos que  não viram,

pelos ungidos, que aqui não vivem

mas sofrem, solidários e melancólicos,

a dor planetária de Gaia ferida

 

Dobrem, dobrem, de Minas, todos os sinos!

 

Sinos ironicamente fundidos

da mesma matéria,

da mesma omissão,

da mesma inconsequência,

da mesma hipocrisia.

da mesma irresponsabilidade

do mesmo vil metal

que, per saecula saeculorum,

cruelmente, nos soterram,

impunemente, nos assolam.

 

*Nísio Miguel Tôrres de Miranda – Bel. em Direito, Especialista em Direitos Difusos e Coletivos, poeta e ambientalista.

Bento Rodrigues, praticamente, desapareceu sob a lama. que já atinge o Espírito Santo, estado vizinho ao Leste de Minas Gerais
Bento Rodrigues, praticamente, desapareceu sob a lama. que já atinge o Espírito Santo, estado vizinho ao Leste de Minas Gerais

 

 


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