De geladeiras, acesso, dignidade e respeito

por Sulamita Esteliam
A primeira geladeira a gente não esquece... - Foto: capturada na rede
Retrô agora é moda e vale uma nota … – Foto: capturada na rede

A ideia para o dia, enquanto o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados decide se vai decidir o destino do presidente da Casa, Eduardo Cunha, era transcrever o artigo de Tom Vickery, colunista da BBC Brasil, que li no O Cafezinho, a partir de compartilhamento no Twitter.  O título: Minha primeira geladeira e por que o Brasil de hoje lembra a Inglaterra dos anos 60.

Dá uma coceira, não é verdade? Mas o sistema BBC é Copright, que proíbe reproduzir a propriedade intelectual, a menos que pague por ela. Se fosse Creative Comm0ns, este blogue anão, que não fatura um vintém, poderia transcrever à vontade. Então, resta o compartilhamento lincado, o  que fiz acima. Leia por que vale muito à pena.

Frustração desnudada, vamos adiante…

Por que Euzinha faço questão de compartilhar o texto?

Primeiro porque é uma boa história, bem escrita, e de maneira sedutora. Ainda que não escape à tentação de, mesmo criticando a miopia das manchetes catastróficas, criticar a ineficiência e a burocracia do Estado, o “modelo econômico míope” e  a “corrupção generalizada”. E nesses pontos se escusa de comparar o Brasil com a Inglaterra.

Segundo, porque, de uma vezada só, e sem perder o charme e a fluidez, coloca nossa classe mediazinha empedernida de frente com o espelho. Futuca o complexo nosso de vira-latas, que acredita piamente que tudo que é de fora – europeu, estadunidense ou mesmo argentino -, é melhor. E mostra como o tal do ser humano é tudo farinha do mesmo saco – aqui, ali, acolá e alhures.

A certa altura do texto, Vickery lembra que, há algum tempo encontrou um conterrâneo radicado no Brasil, já idoso, que trabalhava no mercado de capitais. Ficou chocado quando o cidadão lhe contou que havia saído da Inglaterra no início dos anos 70, “revoltado”, porque  “a classe operária estava ganhando demais”.

O país deles, depois da experiência de um governo trabalhista, havia desenvolvido um estado de bem-estar social que se manteve no governo seguinte, ainda que conservador. O próprio autor testemunha que, embora pobre, e sem geladeira em casa, estudou em boas escolas, bancadas pelo Estado. Pois o governo teve problemas em lidar com a “revolta da classe média”, que se sentia ameaçada pela melhora nas condições de vida dos trabalhadores.

Tal e qual no Brasil de hoje. Onde determinados setores da população não conformam não só em dividir espaços com a “gentalha” nas faculdades, nos intercâmbios, nos aeroportos, nos shoppings ou até mesmo no supermercado. Gente que não se conforma em não mais poder contar com a escrava doméstica 24 horas por dia. Gente que não suporta não poder mais trocar o cabresto pela migalha.

Há quem se ache. Não obstante, diz a canção da pernambucana Edilza, “não enxerga um triz, na ponta do seu nariz…”

Saiba, porém, que há uma outra razão para eu partilhar o texto do Ton Vickery com você, esta de caráter bem pessoal: lembrei-me da minha primeira geladeira. E me deu vontade de escrever sobre a experiência, porque foi uma experiência…

Era vermelha minha primeira geladeira, de uma marca que já não se vende mais. E foi comprada de segunda ou terceira mão, quando me casei pela primeira vez, aos 18 anos.

Na minha infância, assim como o colunista da BBC, na minha casa também não havia geladeira – nem sofá, nem fogão a gás, nem rádio, nem televisão. Comer uma gelatina só era possível na casa da vizinha. Assim como era na televizinha que se assistia à Jovem Guarda ou a novela das nove – O Direito de Nascer (TV Tupi, 1964-65) ou Eu compro essa mulher (TV Globo, 1966).

E morávamos em Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais. Obviamente, na periferia.

Natural que eu tenha me enamorado da minha primeira geladeira. Amor à primeira vista. Tão logo botei os pés na cozinha do barracão de fundos, alugado numa rua chamada Três Pontas, num bairro classe média baixa de nome Carlos Prates, na Zona Noroeste da capital mineira. Uma Beagá que eu conhecia mal e porcamente naquele início da década de 70.

Mas como era linda a minha geladeira. Descombinava totalmente com o fogão, azul claro, também fruto de um topa-tudo desses que proliferam nas periferias das nossas metrópoles, ainda hoje. Mas o que importa? A geladeira era vermelha fogo, e na cozinha só se via ela.

Presente da sogra, que, na verdade, praticamente montou toda a casa, e garantiu a primeira feira, já que o filho-meu marido estava desempregado quando nos casamos. Euzinha trabalhava durante o dia, numa corretora de valores, e estudava à noite. O marido cuidava da casa, e era bom cozinheiro. Por esse aspecto, tive muita sorte: encontrava comidinha boa todas as noites.

Mas isso é outra história.

O que eu quero dizer é que não era fácil ter uma geladeira, ou mesmo uma TV, nos anos 70, no Brasil. Geladeira e TV eram símbolo de status, não era para a plebe rude.

Meu primeiro aparelho de TV só chegou com a minha primeira gravidez, quase três anos após o casamento, e também foi de segunda mão. A geladeira foi trocada pouco depois, quando meu primeiro filho nasceu, e também era usada, e azul, da cor do fogão.

Só comprei uma geladeira zero bala quando minha primeira filha já ficava de pé no berço – e me separei do pai da dupla primogênita. Comprada à prestação para pagar a perder de vista… Era branca e fazia par com o fogão, também novinho em folha. Para combinar com a vida nova.

Então, sou forçada a concordar com Tom Vickery: consumo não é tudo, mas ter acesso faz, sim, diferença.

Vale para coisas materiais. Vale para oportunidades. Vale para respeito. Vale para dignidade.

O que entristece, e envergonha, é que as pessoas não considerem normal que o outro possa ter o mesmo direito.

 

 


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