De pontes e intercessões nos humores do Brasil

A presidenta Dilma Rousseff e os movimentos sociais durante o lançamento do Programa Minha Casa Minha Vida 3. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Blog do Planalto
A presidenta Dilma Rousseff e os movimentos sociais durante o lançamento do Programa Minha Casa Minha Vida 3. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR/Blog do Planalto
por Sulamita Esteliam

Nesta quarta, o primeiro dia em toda longa existência do PMDB, teoricamente, fora do poder central, um flagra no Twitter, duas entrevistas, o discurso do dia da presidenta Dilma Roussef, e uma intervenção no Senado da República deram o tom do dia.

Assuntos-pontes que fazem intercessão entre as ilhas de manipulação dos humores tupiniquins, que andam mesmo à flor da pele. Mas que é preciso cutucar em busca do alívio necessário.

Sabemos bem que não está fácil. Entretanto, a vida tem que seguir, melhor que seja com algum esclarecimento sobre o que se passa para a gente tentar montar o quebra-cabeças minimamente compreensível.

O movimento de manada pretendido pelo PMDB não resiste ao exame da história do partido, uma gaiola de loucos tamanha fragmentação. De comum o que as várias facetas do partido têm é o apetite insaciável pelo poder, traduzido em posições no governo, qualquer governo. Neste governo, além dos ministérios, o partido teria 600 cargos em postos de segundo a enésimos escalões.

Um dia após o desembarque, a conversa que prevalece, a partir da ministra Kátia Abreu, da Agricultura, em atividade nas redes sociais, é que todos os ministros – exceto o Henrique Alves, ex-Turismo, que se antecipou à reunião da Executiva – permanecem onde estão.

Além de Kátia, incompreensivelmente, para nós simples mortais, da cota pessoal da presidenta, há: Eduardo Braga, Minas e Energia; Marcelo Castro (Saúde); Celso Pansera, Ciência e Tecnologia; Helder Barbalho, Portos,  e o mais recente, Mauro Lopes, da Aviação Civil, que já entrou pós-convenção da legenda que proibira assumir novos cargos no governo.

De sua parte, o vice-Michel Temer se considera eleito, e vai cumprir seu papel de amigo onça. Se o impeachment fizer água, e é para isso que se trabalha, ele tem garantido a expectativa de poder transitório, sempre que a presidenta se ausentar para fora do país. Não é nada, não é nada, é alguma coisa… A campanha #RenunciaTemer, a despeito de suas convicções,  também se mantém nas redes sociais.

No discurso de lançamento do Minha Casa Minha Vida III,  o maior programa habitacional da história do Brasil, a presidenta Dilma Roussef voltou à tecla de denunciar o golpe subjacente à tentativa de impichá-la: “Impeachment sem crime de responsabilidade é o quê? É golpe”.

Dilma  recebeu os movimentos sociais Sem Teto, convidados especiais para a solenidade, o que incomodou muitíssimo a mídia venal, regida que é pelo preconceito de classe.

Sem nomear, a presidenta com certeza se refere ao empenho global em buscar com juristas escolhidos a confirmação que a emissora precisa para fugir da pecha de golpista, como se fosse possível. A pergunta invariável é: “Impeachment é golpe?” E a resposta, também, invariável, é: “Não, impeachment está previsto na Constituição, não é golpe”.

Ocorre que, como lembrou a presidenta, não se está discutindo o impeachment em tese. Discute-se o processo de impeachment contra o mandato da Presidência atual, e sobre o qual não pesa qualquer ilícito ou crime de responsabilidade. E esse impeachment, observa Dilma, como observa Luis Nassif, em postagem do dia, e esta velha escriba tem observado, é golpe.

Instados por seus editores e/ou patrões, os repórteres de plantão no STF, esta tarde, repetiram a pergunta ao ministro Marco Aurélio de Mello, à entrada do salão de sessões, e ele não titubeou: “Ela (a presidenta Dilma) tem razão. Impeachment sem fundamento jurídico, sem base no que prevê a Constituição, pode sim transparecer um golpe”.

Assista o vídeo com a fala de Mello, que também fala sobre o papel do Judiciário como última instância da cidadania:

 

 

Da mesma forma, não adianta brandir resultados de pesquisas para mostrar a impopularidade do governo Dilma, a refletir também as dificuldade que esse mandato sem tido de obter apoio politico no Congresso. Ora, o sistema político do Brasil é o presidencialismo. Não cabe apear o governo, legitimamente eleito, por que deixou de ser popular ou se perdeu a confiança política nele. Quebra de confiança é cabível no sistema parlamentarista.

Igualmente, não cabe colocar em risco a nossa democracia, que engatinha há menos de 30 anos, por que o país está em crise – como aliás o resto do mundo – ou por que não se vai com a cara da presidenta ou por que o governo cometeu erros. Se a nossa democracia é capenga, é a que temos, pois tratemos de melhorá-la. Não será rompendo as regras constitucionais, o Estado de Direito, que vamos chegar lá.

 

 

Enquanto isso, no Congresso Nacional o senador pelo Rio de Janeiro Lindbergh Farias (PT) deixou sem fala o lider do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB) que insistia em provar, da tribuna, que Dilma teria cometido crime de responsabilidade por ter assinado seis medidas de créditos suplementares.

São as tais pedaladas fiscais, que acrescentam recursos às despesas do orçamento, sem autorização do Legislativo, previsto em lei, desde que condicionado ao superávit primário. O senador petista cobra coerência da oposição neste e outros pontos: “Vocês querem o impeachment da Dilma porque ela assinou seis créditos suplementares? O Alckmin assinou 31…!”

 

 

A outra entrevista a que me referi na abertura tem a ver com a Operação Lava Jato, espetáculo estrelado pelo juiz Moro, o justiceiro com inequívoca vocação policialesca e também teatral, e que tem nos procuradores da Força Tarefa de Curitiba seus coadjuvantes.

Um deles, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, perguntado sobre um eventual cenário pós-Dilma, reconheceu: os governos do PT, mesmo investigados, garantem a independência do Ministério Público e da Polícia Federal, o que não acontecia em governos anteriores.

Aí é que entraria o açodamento em se discutir e votar o processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef, mesmo sem base legal. Um ingrediente que pode estar passando despercebido é o possível acordo leniência da Odebrecht, que estaria deixando com urticárias de pavor próceres e menos votados da oposição, especialmente os tucanos paulistas.

A lista dos 300, vazada, seria apenas o começo. As delações incluíram todos os níveis de governos e poderes, incluindo o Judiciário e o independente Ministério Público. Um artigo assinado por Francisco Luís, publicado pelo Vi o Mundo desce a detalhes bem interessantes – clique para ler.

Quem tem olhos para ver e tato para sentir, sabe onde o calo aperta.

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Imagem capturada no Vi o Mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

Fecho com o poema de Eduardo Alves da Costa, que capturei no artigo de Francisco Luís, e que vem a calhar com o nosso momento e nossos movimentos no Brasil.

Há coisa de três A Tal Mineira publicou em meio a lições e descobertas, também sobre o autor:

No Caminho com Maiakóvski

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.” 

 

Isto posto, bora pra rua colocar em dia o nosso humor.

#GolpeNuncaMais #OPovoQuerDemocracia

Clique para saber onde será a manifestação deste 31 de março em sua cidade.

 


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